Antienvelhecimento/Longevidade - Reflexões sobre o estar envelhecendo
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Antienvelhecimento/Longevidade

Reflexões sobre o estar envelhecendo

06/03/2006

 


Antônio de Oliveira
aoliveira@caed.inf.br
2004

Idioma: português do Brasil
Palavras-chave: Envelhecimento, envelhecer, velhice

Não raro ouvimos ou lemos uma mensagem sobre os mortos, ou aos mortos. Esta, no entanto, não é uma oração fúnebre: é uma mensagem sobre os vivos, mas "in memoriam", à luz dos que se foram. Ou, por outra, nós que aqui ficamos estamos cumprindo ainda nossa missão, vivendo. Aliás, enquanto vivemos, somos inquilinos do tempo, cujo preço do aluguel é o envelhecimento e cujo contrato se extingue com a morte física.

Há um ditado, em francês, que diz: "La vie d'un vieillard est comme la flamme d'une bougie exposée au vent". A vida de um velho é como uma vela acesa exposta ao vento. Ao menor sopro, pode apagar-se. O envelhecer é irreversível; aceitar ou não o envelhecimento, postura cultural e pessoal, proporcional ao nível de lucidez com o passar da idade.

Vinicius de Moraes escreveu o Soneto da Fidelidade. Nele, usou, inclusive, 'posto que', normalmente uma conjunção subordinativa concessiva, no sentido de 'porque', recorrendo à liberdade poética em epílogo que ficou famoso: "Eu possa me dizer do amor [que tive]: Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure". O amor não é imortal, porque é chama. Apaga-se, e ao menor sopro. Assim como a vida, a fortiori, com mais razão a de um velho.

Marco Túlio Cícero, que viveu no século I antes de Cristo, escreveu um ensaio, Da velhice (De senectute), que ainda tem muito a ensinar aos homens e mulheres de hoje, com 60, 70, 80, 90 anos. Velhice, no tempo de Cícero, era aos 60 anos. Cícero responde, com argumentos e veemência, a quatro censuras que se faziam, já naquele tempo: a velhice nos afasta dos negócios, priva-nos dos prazeres, diminui nossas forças e nos aproxima da morte. Respectivamente, que negócios? Afinal, a que leva a preocupação estressante com os negócios? Quanto aos prazeres, principalmente se tornados vícios e se o jovem os tem desenfreados, pior para ele. Além disso, existe uma gradação nos prazeres, que o jovem talvez não perceba: a paixão se sedimenta é no amor, a doçura se segue ao fogo da paixão, o espírito se sobreleva aos prazeres da carne. E, à medida que envelhece, a pessoa perde forças, sobretudo físicas, mas lhe resta o bom e seguro uso da razão, pelo menos enquanto perdura a lucidez necessária. Finalmente, se a velhice nos aproxima da morte, lembra o filósofo, nos aproxima da morte física, pois, para os que crêem no além, outra vida existe, e melhor.

Comentando a velhice segundo Norberto Bobbio (então com 86 anos), Roberto Pompeu de Toledo (Veja, 4-6-97) chama-o "grande velho, grande mestre". De fato, jurista, cientista político e filósofo, Bobbio foi um dos mais respeitados e influentes intelectuais da Itália e também um dos mais respeitados e influentes do mundo. Mas, no contexto, o elogio de Pompeu de Toledo se prende ao que diz Bobbio, ao chegar ao fim da vida: descobre-se, no que se refere ao conhecimento do bem e do mal, que se continua no ponto de partida. "Todas as interrogações ficaram sem resposta." Depois de buscar um sentido para a vida, o que se descobre é que não faz sentido levantar a questão do sentido. A vida tem de ser aceita e vivida "no que tem de imediato, como faz a grande maioria dos homens". No mais, se se insiste muito em sua idade avançada, ele dirá que ter 80 anos, ou mais, não é nenhum mérito. "É sorte." Assim, em seu novo De senectute, meio às avessas, porque sem elogios à velhice, para Bobbio, a velhice é lenta, dói e dá tristeza.

Mas nem sempre os filósofos, sobretudo quando pessimistas, nos levantam o astral. Pelo contrário, às vezes reforçam nosso baixo-astral. Um colega, estrangeiro, professor universitário no Brasil, definiu a vida humana como o espaço conflituoso e tumultuado entre dois nadas. Para outras pessoas, principalmente imbuídas de fé, a esperança é a razão de viver e o amor, eterno, um exercício constante.

Nem sempre intelectuais, filósofos, psicólogos podem ser considerados sábios quando lhes falta humildade e lhes sobeja arrogância. Nem sempre descortinam o sentido da vida, ou talvez por quererem descortiná-la por completo, correndo totalmente a cortina, experimentem um processo de regressão. Com efeito, o espetáculo da vida se apresenta absurdamente incógnito e rápido. E, nas nossas pretensões intelectuais, queremos ser como Deus, dando notícia de todos e de tudo e cedendo à tentação do demônio dissimulado em tantas e múltiplas serpentes. Transformamos, assim, o mundo: de paraíso em inferno, numa utopia de transformação à nossa imagem e semelhança. Lições da razão nem sempre são lições de vida.

Também em francês, de Edmond d'Haracourt, a "Chanson de l'adieu", que começa assim: "Partir, c'est mourir un peu, / C'est mourir à ce qu'on aime: / On laisse un peu de soi-même / En toute heure e dans tout lieu." Partir é morrer um pouco, / É morrer para quem se ama; / Deixa-se de si mesmo um pouco / A cada hora e em todo lugar.

Homero notifica este efêmero da existência: "As gerações dos homens são como as folhas das árvores. Lança-as o vento ao chão, mas as árvores robustas produzem outras que, por sua vez, vêm a fenecer. Assim são os homens. Uns se vão, outros os substituem." "Cada um de nós traz no fundo de si um pequeno cemitério daqueles que amou", segundo a comparação do escritor francês Romain Rolland (1866-1944). Bem de acordo com o antigo provérbio colhido por Publílio Siro: "O homem morre tantas vezes quantas vezes perde os seus". "Los que se van para siempre, poco a poco nos arrastran", é a epígrafe de um soneto de Emílio Moura a João Alphonsus. Mas, enquanto não chega nossa hora, choramos nossos finados, passamos a rezar pelos que se foram. A vida é recomposta, rotinas são reassumidas, nossos netos continuam crescendo e sorrindo.

Como escreveu John Donne, poeta do século XVI: "Nenhum homem é uma ilha; cada homem é parte de um continente..."

No man is an island, intire of it selfe; every man is a peace of the Continent, a part of the maine; if a Clod bee washed away by the Sea, Europe is the lesse, as well as if a Promontorie were, as well as if a Mannor of they friends or of thine owne were; any man's death diminishes me, because I am envolved in Mankinde; And therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee.

"A vida é uma sucessão de adeuses", escreveu Alceu Amoroso Lima. Envelhecer é sentir que se vai esgotando essa cota social de adeuses até o "a Deus" supremo, que só não é definitivo pela fé cristã nas promessas da ressurreição. Um dos números do repertório de Ella Fitzgerald começa assim: "Everytime I say goodbye I die a little" - Toda vez que digo adeus, eu morro um pouco. Vivemos entre encontros e despedidas, como nos lembra uma canção de Milton Nascimento e Fernando Brant.

Envelhecendo, no gerúndio, é o resultado da irreversibilidade do tempo, de um movimento imanente (como Tomás de Aquino definiu vida), a termo e em curso. Nesse sentido, envelhecer não é privativo do velho; é condição do viver humano. Contudo, ninguém faz propriamente essa contagem regressiva, pois, na verdade, conforme disse Pablo Picasso, e o disse da realidade cotidiana, pois, enquanto eu vivo, "eu nasço todos os dias". Com efeito, cada manhã de Sol é um renascer, um recomeço. O fluir do tempo, aparentemente neutro e indiferente, tem sua própria marca, que deixa marcas na natureza (ou essa no tempo), e em nós, pelo menos na "Lira romantiquinha", tentativa drummondiana de poetar: "Minh'alma chove / frio, tristinho. / Não te comove / este versinho?"

Quando "dizemos que um dia teremos de morrer, há uma parte da nossa mente que se recusa a admitir aquilo que sabe ser destino de todos os seres vivos, faz de conta que não é nada com ela..." observa José Saramago (A caverna, pág. 233), que também lembra "que todos os dias passados foram vésperas e todos os dias futuros o hão-de ser. Tornar a ser véspera, ao menos por uma hora, é o desejo impossível de cada ontem que passou e de cada hoje que está passando. Nenhum dia conseguiu ser véspera durante todo o tempo que sonhava." (p. 274). O certo é que, num contexto semelhante, "não adianta ficar a discutir se se gosta muito, ou pouco, ou nada, como quem desfolha malmequeres." (p. 280).

"Memento mori", uma expressão, em latim, usada pelos monges trapistas, significa "Lembra-te de que hás de morrer". Refletir sobre a velhice é, de certa forma, representar-se no meio de um campo de batalha: a morte de estranhos não nos impressiona, apesar de a visita da morte quase invariavelmente nos assustar; parentes e amigos estão indo, ou se foram, e, nós, sobreviventes, quando maduros e amadurecidos, realizamos, contando os dias, na expressão bíblica, a convivência com o irreversível. Viver cada dia como se fosse o último, porque um dia vai ser mesmo. Carlos Drummond de Andrade, na obra Claro enigma, diz, em "Memória", que 'Amar o perdido / deixa confundido / este coração'. Esvai-se, e nos desvaece, à medida que se envelhece, a ilusão de indestrutibilidade que, por ser ilusão, nunca possui um fundo de garantia, conquanto integre o ardor da juventude.

A velhice também faz parte da semana. É o domingo da vida, dizia Dom Helder Câmara. Aliás, fazemos filosofia porque sabemos que vamos morrer. E a filosofia, pelo menos para os humanistas, mais que a ciência, amplia a dimensão dos dias, a dimensão do viver, do viver mais conscientemente, quiçá escatológico, independentemente de acidentes. Quando esses ocorrem, caímos do pedestal. "Percebemos que perder o que se tem é muito fácil, que estamos sempre perto de perder algo", afirmou o piloto italiano, da Fórmula 1, Alessandro Zanardi. Em 15 de setembro de 2001, a cinco corridas da aposentadoria, seu carro foi atingido por outro a 320 km por hora, quando faltavam doze voltas para o final do Grande Prêmio de Lausitz, na Alemanha. Zanardi teve as duas pernas amputadas.

O que é o tempo! O tempo é como um moinho que mói, mói; como uma mó que tritura, e fura, fura... como uma dor que dói, dói. O tempo se assemelha a um bichinho que rói, rói... Nada, ninguém escapa ao dente roedor do tempo. E nunca nos sentimos suficientemente preparados para lidar com perdas, com a corrosão. Afinal, morrem não só pessoas; desaparecem também projetos e possibilidades, sonhos se esvaem, expectativas não alcançadas são substituídas por frustrações, frustrações que geram carências, carências que geram revolta e mal-estar, mal-estar que contamina em especial o ambiente familiar, ambiente familiar que passa a puxar para baixo, down, down, down...

E o passado costuma ser traiçoeiro, pois se esconde, em traços sutis e de natureza psicanalítica, por detrás do presente. Mais: para nós, ou em relação a nós, as coisas, as pessoas, os acontecimentos, os seres enfim, não se situam no espaço, mas no tempo, no tempo dentro de nós. Para Bergson, "a lembrança, ao atualizar-se, torna-se decepção". O tempo cronológico é irreversível, descartável; o tempo psicológico, este é ruminante, recorrente. É o invólucro emocional que carrega o passado que nos leva a revivê-lo, a não extirpá-lo da memória, a senti-lo ainda pelos seus efeitos, pelas suas cicatrizes. "O que lembro, tenho", lembra Guimarães Rosa, que retinha, na memória, e em seus alfarrábios numa caderneta dependurada no pescoço, e no lombo de burro, em contos e paráfrases, tudo aquilo que o nosso povo tinha para contar. É ainda de Guimarães Rosa: "Se não, o senhor me diga: preto é preto? branco é branco? Ou: quando é que a velhice começa, surgindo de dentro a mocidade? "(Grande Sertão: Veredas)

Parafraseando S. Agostinho, ao comparar o Antigo Testamento com o Novo Testamento: este, naquele, "latet"; aquele, no Novo, "patet". "O passado revelou-me a construção do presente", confirma Teillard de Chardin. Quem já foi isto ou aquilo - quem foi rei sempre é majestade - quase irremediavelmente parece sê-lo ainda: é o jeito de ser, é um tipo de cultura, por vezes em extinção, em suma, apesar dos cabelos eventualmente grisalhos, mantém-se, no fundo, o perfil: assumido, desassumido, enrustido, rejeitado, repudiado, não importa, é marca do passado, que não é presente, mas está presente. Características genéticas, idiossincráticas. Valores cultivados e cultuados, reavaliados, resgatados, repudiados, rejeitados. Cicatrizes do passado a estigmatizar o presente. Passado de boas intenções, nossas e de nossos educadores, absorvendo e sublimando eventuais repiques de revolta. Repressões impostas, auto-impostas, em nome de um ideal. Fenomenologicamente, o passado ecoa e ressoa mais ou menos longínquo. Aliás, à medida que se envelhece parece que aumenta a memória remota. Por isso o jovem tem memória mais curta, embora também tradicionalista e receoso do novo, na prática. Pregar e reivindicar mudanças é mais um lugar-comum que um projeto de vida. É que a vida humana é uma imersão no mistério, sem muito controle racional. A vida vai levando a gente mais do que a gente vai levando a vida. Mistério, aqui, tem como pano de fundo seu equivalente hebraico na palavra "sôdh". Misterioso, com efeito, é o plano de Deus que, ao longo da história, ao longo de nossa história, da história de cada um, de latente, vai tornando patente, numa pedagogia divina de lenta compreensão, quando não incompreensão, para nós, o significado do mistério da vida, que nem um mosaico ou um quebra-cabeça feito aos pedaços, em que sempre falta - ou se perdeu na nossa frágil memória, alguma daquelas peças-chave. Dizem que a memória dos muçulmanos é milenar. A memória divina é eterna e se manifesta ao longo da história humana, num vai-vem de pensadores caricatos, de altos e baixos, de períodos de trégua em lutas fratricidas desde o Éden. Ser cumulativo, encerramos nossa cota de viver temporal com a morte, sempre inesperada.

Mas tudo vale. A alma não foi, não é pequena. Nossa existência abriga anos de experiência, estudos e reflexões. Levado nas asas do tempo, o passado, santuário, ermida e sacrário do presente, perdura no nosso espírito. E como perdura! É o caso, pois, de concordarmos com Kierkegaard: "a vida só pode ser entendida olhando-se para trás. Mas só pode ser vivida olhando-se para frente".

Segundo Cyro dos Anjos:

"Vivemos num mundo imaginário, construído segundo os conceitos apriorísticos que formamos das pessoas e coisas que nos cercam. Neste sentido, a vida será efetivamente um sonho. Veremos as coisas não como são, mas conforme nosso espírito as concebe. Muitas vezes nos é dado, no curso dos dias, retificar alguns desses erros do conhecimento. Mas quantos outros, e às vezes substanciais, nos acompanharão até à morte?" (Abdias, J. Olympio, 5. ed. 1957, p. 256)

Não se trata de terceira idade. Trata-se de idade. Affonso Romano de Sant'Ana, em seu panegírico à mulher madura, diz: "Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo." Vale dizer: cada idade tem seu corpo, cada corpo, seu fulgor. O corpo da mulher madura, reforça Affonso Romano, é um corpo que já tem história. E acrescenta: "Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é, como na adolescência, uma pura e agreste possibilidade."

A velhice, seja ela do homem ou da mulher, tem um toque feminino. É emotiva: "Conhece mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa." Velho, eu? Nem pensar, ou melhor, pensar: afinal, como Ortega y Gasset, eu sou eu e minhas circunstâncias.

Cada um usa a arma de que dispõe. Inglês de origem e franciscano, Guilherme Ockham (1295-1349), já em Paris, imiscui-se em discussões políticas advogando as pretensões regalistas de Felipe o Belo, e mais tarde de Luiz de Baviera, contra Bonifácio VIII. Conta-se que o frade teria dirigido ao príncipe bávaro as seguintes palavras, em latim: "Imperator, defendas me gladio, ego te defendam calamo". Imperador, defende-me com a espada que eu defenderei V. Majestade com a pena, escrevendo.

Prescindindo das circunstâncias que levaram o religioso a usar essas palavras, aparentemente arrogantes, ouso dizer que minha homenagem aos idosos como eu, à falta de melhor loquacidade e verve retórica, está traduzida neste texto, se não escrito com a pena, com pena dos que ficamos chorando nossos mortos.

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