Tabagismo/Fumo/Cigarro - Tabaco e Pobreza
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Tabagismo/Fumo/Cigarro

Tabaco e Pobreza

12/03/2006

Dados sobre Tabaco e Pobreza: um círculo vicioso

 

O cenário mundial mostra que embora o consumo de cigarros venha caindo na maioria dos países desenvolvidos, o seu consumo global aumentou em torno de 50% durante o período de 1975 a 1996, principalmente, por conta do aumento observado em países em desenvolvimento.

            Atualmente, dos cerca de 1,1 bilhão de fumantes existentes no mundo, 80% vivem em países em desenvolvimento e dos 100.000 jovens que começam a fumar a cada dia, 80% são de países em desenvolvimento (World Bank, 1999).

            Na maioria dos países existe uma correlação entre tabagismo, baixa renda e baixo nível de escolaridade.  Na China, indivíduos com nenhuma escolaridade têm uma probabilidade cerca de 7 vezes maior de serem fumantes do que indivíduos que têm o terceiro grau. No Brasil, entre os grupos de indivíduos com baixo nível de escolaridade essa probabilidade é 5 vezes maior (World Bank, 2003). 

            Pesquisas mostram que 80% das pessoas que consomem tabaco apresentam algum grau de dependência química à nicotina (Cinciprin et al., 1997), o que leva  muitos chefes de famílias de baixa renda a usarem para a compra de cigarros, parte dos recursos de sua já  reduzida renda familiar, que poderia ser usada para a aquisição de alimentos,  lazer ou mesmo para a preservação da sua saúde e de sua família.

            Em Bangladesh, por exemplo, foi estimado que se as pessoas pobres não fumassem, menos 10,5 milhões de pessoas seriam desnutridas. Já na China e na Índia, as evidências mostram a existência de uma forte correlação entre tabagismo e tuberculose (World Bank, 2003; European Commission, 2003; OECD & WHO, 2001).

            Essa situação é agravada pelo fato de que em muitos países, incluindo o Brasil, o cigarro é muito mais acessível economicamente do que alimentos. Um estudo que comparou o custo de um maço de cigarros com o custo de 1 quilo de pão,     usando o índice “minutos de trabalho necessários para comprar ambos os itens”, mostrou que no Brasil o custo de um quilo de pão chega a ser quase três vezes maior do que o custo de 1 maço de cigarros (Guidon et al., 2002) . 

O reconhecimento dessa necessidade tem levado o Governo Brasileiro a investir de forma crescente no Programa Nacional de Controle do Tabagismo, que é coordenado pelo Ministério da Saúde, através do Instituto Nacional de Câncer (INCA), há cerca de 15 anos. Atualmente, diversas medidas intersetoriais vêm sendo adotadas no País, dentre elas, podemos destacar: leis que proíbem a propaganda dos produtos de tabaco em televisão, revistas, jornais e outdoors; leis que proíbem fumar em ambientes públicos fechados; leis que regulam os produtos de tabaco quanto aos seus conteúdos e emissões; leis que regulam as atividades de promoção e as atividades de venda dos mesmos; implementação de ações educativas em escolas, ambientes de trabalho e unidades de saúde e de ações para aumentar o acesso da população ao tratamento da dependência da nicotina no sistema de saúde pública nacional (Sistema Único de Saúde – SUS); e adoção de medidas  e estratégias para controlar o mercado ilegal de cigarros que tem aumentado  no Brasil, desde o início da década passada.

 

Essas ações têm trazido significativos resultados em termos de redução do consumo de tabaco. O consumo per capita de cigarros no Brasil tem registrado nas duas últimas décadas um importante declínio: entre 1989 e 2002, houve uma queda de cerca de 32 %, mesmo com o crescimento do mercado informal de cigarros (contrabandeados e falsificados)[1][1] que, atualmente, atinge entre 35-40% do mercado nacional (Cavalcante et al., 2003).

 

Agregue-se às evidências verificadas através da análise de consumo per capita de cigarros, pesquisa realizada pelo INCA  no município do Rio de Janeiro, em 2001, que apurou o perfil dos fumantes. Através da comparação dos resultados desta pesquisa e da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN) de 1989, a prevalência de fumantes caiu de 30% em 1989 para 21% em 2001 (Figueiredo, 2002). Porém, os resultados das duas pesquisas mencionadas mostraram que a concentração do tabagismo foi maior na população de baixa renda e de menor escolaridade.

             Dentre os fatores sociais destacam-se o menor acesso à informação, à educação e à assistência à saúde nas classes sociais menos favorecidas. Esses fatores são potencializados por estratégias de mercado que estimulam o consumo ao mesmo tempo em que  facilitam o acesso das populações de baixa renda e escolaridade aos produtos de tabaco, sobretudo aos cigarros.

            Na perspectiva do consumo, essa relação vincula-se à renda que os trabalhadores dependentes de tabaco disponibilizam para a aquisição dos produtos derivados do tabaco. Na perspectiva da produção agrícola de tabaco, essa relação ocorre no âmbito dos problemas de saúde e da perda de qualidade de vida impostos aos fumicultores pelas regras de produção estabelecidas pela indústria do tabaco a fim de garantir resultados, tanto em quantidade, quanto em qualidade.

             Em 2001, um inquérito realizado pelo INCA no município do Rio de Janeiro, mostrou que embora a prevalência de fumantes tenha diminuído, a proporção de fumantes entre pessoas de baixas renda e  escolaridade manteve-se maior do que entre os grupos de maior renda e escolaridade. Entre os analfabetos e entre as pessoas com grau de escolaridade de 1 a 4 anos, a prevalência foi de 26% para ambos os grupos de escolaridade, quase 50% maior do que a prevalência observada nos grupos que apresentavam de 9 a 11 anos de estudo e com mais de 12 anos de estudo, que registrou 17% para cada um dos grupos.  A mesma tendência foi observada nos grupos classificados pela faixa de renda: a prevalência de tabagismo entre as pessoas com renda igual ou menor a 2 salários mínimos foi  23,5%, ao passo que entre os que recebiam acima de 20 salários a prevalência de fumantes foi  16,5% .


As famílias foram agregadas em 10 categorias de acordo com o valor de suas rendas em número de Salários Mínimos (SM), conforme pode ser observado no Quadro 1 abaixo.

 

 Quadro 1 – Grupos de Renda e Respectivas Faixas Salariais em SM

Grupos de renda

Faixa Salarial em SM

A

ganho até 2 SM

B

ganho entre 2 e 3 SM

C

ganho entre 3 e 5 SM

D

ganho entre 5 e 6 SM

E

ganho entre 6 e 8 SM

F

ganho entre 8 e 10 SM

G

ganho entre 10 e 15 SM

H

ganho entre 15 e 20 SM

I

ganho entre 20 e 30 SM

J

ganha acima de 30 SM

Fonte: POF 1995-1996 - IBGE – Elaboração das autoras

 

Ao se comparar a proporção da renda familiar despendida com derivados do tabaco entre os 10 grupos categorizados pela renda familiar, observa-se que a fatia de renda familiar gasta com tabaco chega a ser quase 8 vezes maior nas famílias com rendimento menor ou igual a 2 salários mínimos (2,95%), do que  à gasta  pelas  famílias com renda acima de 30 salários mínimos (0,38%).

 

 Porcentagem da renda gasta com fumo e com itens essenciais

 

Grupo

Tabaco

Higiene e cuidados pessoais

Remédios

Educação

Transporte

A

2,95%

2,05%

4,86%

1,39%

9,18%

B

2,54%

1,74%

3,56%

1,43%

9,20%

C

2,17%

2,02%

3,49%

1,75%

10,78%

D

1,83%

2,19%

3,18%

1,87%

10,53%

E

1,78%

1,96%

2,76%

2,09%

10,69%

F

1,82%

1,77%

2,59%

2,21%

10,15%

G

1,24%

1,60%

2,22%

3,03%

10,63%

H

1,19%

1,33%

1,94%

3,96%

11,28%

I

0,70%

1,46%

1,79%

4,47%

10,31%

J

0,38%

0,86%

1,01%

3,98%

9,12%

Fonte: POF 1995-1996 - IBGE – Elaboração das autoras

 

Em relação aos gastos com alimentação, a comparação foi realizada entre o consumo de produtos derivados do fumo e itens de necessidade básica para a alimentação de uma família (Tabela 3).

 


 

Tabela 3: Porcentagem dos gastos com fumo e com itens básicos de alimentação

 

Itens

Grupo A

Grupo B

Grupo C

Grupo D

Grupo E

Grupo

F

Grupo

G

Grupo

H

Grupo

I

Grupo

J

Fumo (tabaco)

2,95%

2,54%

2,17%

1,83%

1,78%

1,82%

1,24%

1,19%

0,70%

0,38%

Arroz

4,27%

3,90%

4,17%

4,88%

2,93%

2,79%

2,19%

1,53%

1,56%

1,13%

Feijão

3,10%

2,72%

2,48%

2,71%

1,79%

1,47%

1,16%

0,71%

0,90%

0,68%

Macarrão

1,19%

1,36%

1,26 %

0,99%

0,94%

0,90%

0,85%

0,58%

0,66%

0,58%

Legumes e Verduras

2,73%

2,84%

2,87%

2,58%

2,66%

2,52%

2,44%

2,26%

1,97%

2,09%

Frutas

3,47%

4,02%

4,21%

4,14%

4,41%

4,28%

4,76%

4,26%

4,30%

4,47%

Carne bovina (de 1a)

3,40%

4,68%

4,80%

5,28%

5,92%

5,79%

6,00%

6,10%

6,33%

4,82%

Carne bovina (de 2a)

4,33%

4,37%

4,44%

3,79%

3,29%

3,36%

3,14%

2,40%

1,55%

0,87%

Frango

6,76%

5,30%

5,06%

4,81%

4,57%

4,28%

3,49%

3,20%

2,99%

2,32%

Ovo de galinha

1,78%

1,45%

1,35%

1,20%

1,20%

0,83%

0,92%

0,68%

0,79%

0,53%

Leite e derivados

11,46%

11,90%

12,33%

11,62%

10,92%

11,47%

10,83%

9,87%

10,59%

9,43%

Biscoito

2,59%

2,14%

2,10%

1,83%

2,01%

2,14%

1,72%

1,36%

1,56%

1,42%

Café

2,90%

2,23%

2,38%

2,29%

1,87%

1,66%

1,52%

1,02%

1,16%

0,98%

Fonte: POF 1995-1996 – IBGE

 

Coordenação de Prevenção e Vigilância

Instituto Nacional de Câncer


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