Psiquiatria e Psicologia - Violência sexual em menores
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Psiquiatria e Psicologia

Violência sexual em menores

23/03/2006

 

 

Cristina Camões

Psicóloga licenciada pela Universidade Lusíada do Porto, Portugal

Correspondência:

cristina.camoes@sapo.pt

 

RESUMO

A violência sexual de menores constitui uma agressão ao bem-estar do menor que requer

uma resposta ampla e abrangente do sistema legal, articulada e coordenada com a estrutura social

e concebida para proteger as crianças vítimas e manter controlados os agressores e abusadores.

A violência sexual intra-familiar em menores, constitui actualmente uma das prioridades

das políticas dos países ocidentais, este facto parece dever-se ao crescente aumento do número de

denúncias efectuadas.

Contudo assiste-se ainda a dificuldades de vária ordem por partes daqueles grupos de

profissionais que trabalham com o objectivo de prevenir e desvendar a violência sexual em

menores no âmbito familiar. Muitas vezes impera o silêncio quer por parte da vítima, como da

própria família que teme denunciar um dos seus membros e por outro lado tentando evitar exporse

às consequências negativas que daí poderão advir.

Por outro lado é ainda um problema social, quer profissionais, quer a sociedade em geral

evita encarar a real magnitude desta problemática, e prefere não se envolver num assunto

psicossocial tão complexo.

Palavras-chave: Abuso sexual, Menores, Crianças, Adolescentes, Intervenção psicológica,

Comportamento Desviante

 

O papel da justiça nesta problemática

Esta problemática faz emergir um conjunto de questões de natureza processual, relativas à

prova e também de ordem constitucional. Uma resposta adequada exigiria uma coordenação

inter-profissional e por outro lado gera situações de constrangimento e tensão para as partes

envolvidas, quer sejam psicólogos, assistentes sociais, magistrados, vítimas, família, e

agressores. Têm-se assistido a problemas de vária ordem relacionados com o tratamento que

muitas vezes se dá aos menores vítimas de violência sexual, nomeadamente a demora da justiça,

a insensibilidade de magistrados e polícia.

A justiça representa um papel importantíssimo na violência sexual praticada em menores, e

no combate ao flagelo social. Esta garante às vítimas a reparação e a ratificação de que não

existem razões para se sentirem culpados, já que são simplesmente vítimas dessa violência.

 

A vítima e o seu meio intra-familiar

Constata-se que geralmente a violência sexual praticada contra menores é praticada por

pessoas conhecidas e próximas à vítima, tais como, família, vizinhos, professores, amigos). Desta

forma o agressor ocupa uma posição de poder em relação à vítima, utilizando esse poder de

várias formas como forma de intimidar a vítima, nomeadamente através de chantagem emocional

ou intimidação e ameaça.

Aiken & Purdy (1998), propõem direitos iguais para adultos e crianças, já que estas

estariam a ser prejudicadas pelos limites do Direito.

Desta forma seria salvaguardada a protecção dos menores, que ainda não tendo o seu

processo de desenvolvimento concluído estariam em desvantagem em relação aos adultos, na

hora de serem defendidos judicialmente.

 

A denúncia

Quando eventualmente e criança decide transmitir a alguém os abusos sexuais, muitas

vezes já se passaram meses ou até mesmo anos, o que comprometerá a perícia médica legal. A

criança é de seguida encaminhada para um médico legista que irá fazer o exame médico-legal e

envia-lo posteriormente para seguir os trâmites legais. Neste percurso muitas vezes o menor

continua a conviver com o agressor, originando a perda de indícios e provas, que poderão

prejudicar a incriminação do agressor.

Durante o processo poderão também ocorrer informações contraditórias, ou indícios pouco

significativos, que poderão afectar o normal desenrolar do processo judicial.

Por todas estas razões encontramos menores que vêem por água abaixo a sua tentativa de

“gritar por ajuda”, e que muitas vezes desistem de pedi-la por acharem de que nada vale gritar

quando esse grito não é ouvido pelos outros.

Os pediatras são obrigados por lei a denunciar aos organismos responsáveis pela protecção

adequada do menor, o diagnóstico ou suspeita de possível abuso ou negligência contra a criança.

Os pediatras devem informar as famílias directamente sobre a denúncia que será feita, de maneira

delicada e compreensiva.

 

A razão do Silêncio

“O Silêncio é a alma das Agressões Sexuais”

Anna Salter

São vários os factores que poderão levar o menor a silenciar a violência sexual. O silêncio

vai primitir que a violência contra o menor se perpetue no tempo, desta forma será importante

que os adultos estejam atentos aos sinais e sintomas que poderão evidenciar a existência de

violência sexual.

 

Sinais e sintomas que denunciam a existência de violência sexual

Numa criança abusada sexualmente poderemos encontrar variados sinais e sintomas:

- Mudança comportamental na escola ou no contexto familiar;

- Diminuição do rendimento escolar;

- Necessidade de super-estimulação ou insegurança;

- Recusa ou medo de ficar com um adulto, ou sozinho com ele;

- Medo de algumas pessoas ou lugares

- Problemas com os esfíncteres;

- Perturbações do sono;

- Depressão, ansiedade, afastamento, apatia ou indiferença;

- Auto-mutilação;

- Fuga;

- Problemas com álcool ou drogas;

- A nível físico, irritações na boca, vagina ou ânus.

Muitas vezes o agressor é alguém que está próximo da criança e a confunde-a entre a

violência sexual e um acto de carinho, servindo-se da persuasão, recompensa ou ameaças,

levando a criança a confundi-lo(a) com uma pessoa boa e que gosta de si.

Isto promove o silêncio e alimenta o medo da criança perder a pessoa que acha gostar de si.

Por outro lado estas crianças alimentam por vezes um sentimento de culpa e vergonha temendo a

desagregação familiar.

 

Os Efeitos Psicossociais Causados Nas Vítimas De Abuso Sexual

A criança que é vítima de abuso sexual prolongado, usualmente desenvolve uma perda

violenta da auto-estima, tem a sensação de que ela não vale nada e adquire uma representação

anormal da sexualidade. Algumas crianças abusadas sexualmente podem ter dificuldades para

estabelecer relações harmónicas com outras pessoas, podem transformar – se em adultos que

também abusam de outras crianças.

Abuso Sexual define-se como qualquer conduta sexual levada a cabo por um adulto ou por

outra criança mais velha com outra criança mais nova.

O Abuso Sexual Infantil acarreta grandes danos ao desenvolvimento da criança e por isso a

prevenção deve ser iniciada o mais cedo possível, quando a criança começar a ter compreensão

de sexualidade, começar a compreender seu corpo, os pais já devem orientá-la para que ela não

permita que toquem em seu corpo sem a sua permissão.

A criança pode tornar-se muito retraída, perder a confiança em todos adultos e pode até

chegar a considerar o suicídio, principalmente quando existe a possibilidade da pessoa que abusa

ameaçar de violência se a criança se negar aos seus desejos.

Algumas crianças abusadas sexualmente podem ter dificuldades para estabelecer relações

harmónicas com outras pessoas, podem transformar – se em adultos que também abusam de

outras crianças ou inclinar-se para a prostituição ou podem ter outros problemas sérios quando

adultos. As crianças abusadas ficam aterrorizadas, confusas e muito temerosas de contar a

alguém o incidente. Frequentemente as crianças permanecem silenciosas por não desejarem

prejudicar o abusador ou provocar uma desagregação familiar ou por receio de serem

consideradas culpadas ou castigadas. Crianças maiores podem sentir-se envergonhadas com o

incidente, principalmente se o abusador é alguém da família. O adulto abusador continua com a

sua conduta de violência porque sabe que de qualquer forma consegue controlar a criança.

Geralmente é uma figura de quem a criança gosta e confia.

 

Violência no lar

A violência doméstica traduz-se numa variada gama de situações que envolvem a criança,

desde a negligência até os maus-tratos de ordem física, psicológica ou de abuso sexual. A

etiologia da violência familiar é multifatorial e sua compreensão exige a observação do contexto

e ambiente familiar onde a criança vive.

 

Etiologia da violência familiar

Não existe uma causa única da violência contra a criança, contudo são vários os factores

que levam a criança a sofrer de maus-tratos, tais como:

- Temperamento difícil da criança;

- Falta de firmeza dos pais;

- Violência conjugal;

- O abandono do pai/mãe;

- A falta de apoio social;

- Agentes causadores de stress (bairros problemáticos e perigosos ou isolamento social); - A

aceitação ampla da punição (castigo corporal).

 

AVALIAÇÃO

Como pode o técnico detectar a violência na família

O técnico deverá fazer uma análise criteriosa e holística do meio familiar. As entrevistas

deverão abarcar questões acerca do bem-estar dos pais, o sentimento destes em relação à criança,

problemas com a criança e a forma como os pais lidam com eles, o relacionamento conjugal,

mudanças recentes na vida familiar.

Entrevistas clínicas (semi – estruturadas ou conversas informais)

Será essencial avaliar a maneira como a criança percebe a sua situação e o seu bem-estar.

 

Entrevista com a criança

O terapeuta deverá evitar fazer a entrevista mais do que uma vez, deverá ter em atenção a

anotação rigorosa de todos os indicadores verbais e não-verbais. Algumas das questões que

poderão ser feitas:

- Com quem vives?

- Como está escola, a tua casa, ou o teu bairro?

- Como é o teu relacionamento com as pessoas da tua casa?

- Que tipo de actividades fazes com os teus pais?

- Existe alguma coisa que gostarias de mudar?

- O que fazes quando alguma coisa te incomoda?

- Existem discussões na tua casa? De que maneira? A respeito de quê?

 

Entrevista com os pais

Da mesma forma, é importante entrevistar os pais, tendo em conta uma análise criteriosa de

toda a informação transmitida verbalmente e não – verbal:

- Como estão?

- Quais são as vossas preocupações?

- O que faria se o deixassem fora de si?

- Têm alguma ajuda de alguém para tratar o (s) seu (s) filho (s)?

- Consideram que têm tempo suficiente para conviver com o (s) seu (s) filho (s)?

- O que acham do bairro onde moram?

- Como era o seu relacionamento com os seus pais?

- Existe na sua família alguns problemas relacionados com álcool ou outras drogas?

- Há algum tipo de violência na sua casa?

 

Métodos e técnicas de avaliação clínica

A observação é um dos métodos directos, que permite a obtenção de informações

relevantes tanto dos pais da criança como do seu relacionamento.

Observação é “uma acção de olhar com atenção os seres, as coisas, os acontecimentos, os

fenómenos para os estudar, examinar e para deles retirar conclusões.” (Le Petit Larousse, 1998).

O acto clínico de observar começa pelo olhar e pela percepção fina do técnico acerca de uma

situação, contudo esta posição do clínico é delicada e deverá ser o mais criteriosa possível para

evitar a produção de erros avaliativos ou mesmo a negligência de alguns comportamentos

determinantes para a avaliação do caso.

A anamnese é também uma técnica utilizada para a avaliação do caso clínico. Define-se

como um exame profundo e cuidadoso, “é uma técnica no âmbito do método clínico que consiste

na recolha de informações relativas ao desenvolvimento passado e presente do indivíduo. Visa a

compreensão exaustiva e aprofundada dos seus processos psicológicos.” (Emanuel Pestana &

Ana Páscoa, 1998).

Para se aprender mais sobre uma família é necessário ouvir com atenção e sugerir que os

pais contem histórias importantes (“Como foi a sua infância?” “Qual o seu objectivo como

pai?”).

 

O apoio e aconselhamento adicionais podem incluir:

Rever com os pais as circunstâncias difíceis que podem vir a acontecer; identificar os

pontos fortes e esforços dos pais; ajudar os pais a resolver problemas; permitir ou facilitar outros

recursos e comunicar o seu interesse e a sua disponibilidade para ajudar. Outros familiares

importantes podem ser convidados a ajudar no processo terapêutico.

 

Sinais encontrados na análise da Anamnese

- A história do desenvolvimento é compatível com o tipo ou grau de ferimento.

- A história das ocorrências (relativamente aos ferimentos e danos físicos). Analisar até que

ponto o pai/mãe tem consciência desses danos físicos.

- Análise dos relatos dos diferentes interlocutores (por exemplo a história relatada pela mãe

é diferente do pai).

- As entrevistas efectuadas aos pais em momentos diferentes são contraditórias.

- A história contada não é fidedigna, com o que parece ter acontecido.

- Análise do tempo decorrido entre os danos físicos e a consulta.

- Um dos progenitores evidencia uma despreocupação relativamente aos ferimentos

apresentados pela criança.

- Estudo das interacções pais – filhos para a despistagem de interacções patológicas

- Análise do número de consultas e espaço entre elas devido a danos físicos.

 

Exame físico

Exame geral para observar traumatismos prévios ou simultâneos como marcas de aperto,

equimoses, mordidas ou trauma de faringe. O exame genital na maioria das vezes é normal,

sendo que quando este se encontra alterado é suficiente para se confirmar o abuso sexual. O

exame genital requer o conhecimento da anatomia pré-puberal, ambiente tranquilo e ser

efectuado pelo médico de medicina legal.

 

INTERVENÇÃO

Intervenção em Situações de Abuso Sexual

 

“Tentativas de definir um conceito representam

Essencialmente um convite a caminhar por uma selva semântica”

Brandura (1973) – tentativa de definir “ violência”

 

De acordo com Williams (2002), a definição de violência está directamente ligada à

definição de agressão. Hacker (1973) e Loeber e Stouthamer-Loeber (1998) definem a agressão

como actos que infligem dados corporais ou psicológicos a outros, referindo-se a actos que

causam danos menos sérios, enquanto violência é definida como actos agressivos que causam

danos sérios. Para Wistedt e Freeman (1994) o conceito de agressão é mais amplo que violência,

incluindo, também, palavras ou acções ameaçadoras e irritabilidade.

A agressão não é um comportamento, mas um rótulo cultural de padrões de

comportamento, sendo resultado de um julgamento social por parte do outro. (Parke e Sawin –

1997). O uso das relações de poder como determinante de direitos e deveres referentes à

expressão do desejo sexual acompanha a humanidade desde seus primórdios, possuindo os

detentores desse poder – seja ele físico, económico, político ou emocional – o privilégio do livre

exercício de sua sexualidade sobre aqueles que estão sob o seu domínio, independentemente da

vontade dos mesmos.

À falta de definição de linhas gerais de acção associa-se o verdadeiro pânico manifestado

por grande parte dos profissionais das mais diversas áreas da saúde, quando confrontados com

uma situação de violência ou abuso sexual, levando a condutas e encaminhamentos baseados

apenas em convicções emocionais particulares de cada indivíduo, que podem intensificar o

desconforto daqueles que buscam auxílio para sua situação ou mesmo agravar os danos

decorrentes do abuso a médio e longo prazos.

“Muitos pais têm filhos não para os amar e criar, mas porque querem servir-se deles

como cobaias ou como satisfação sexual até.” (Patrícia, 14 anos). In Pedro Strecht (2001).

“Devia-se pedir aos adultos que imaginassem o que achavam se fossem eles as crianças a

quem estão a fazer essas coisas.” (Sofia, 13 anos). In Pedro Strecht (2001).

 

Intervenção junto do agressor

Cada vez mais torna-se necessária uma intervenção não só na criança vítima de abuso

sexual, mas também no agressor, já que a não ser feito, este poderá repetir o mesmo ciclo de

violência contra os menores.

As pessoas que cometem abuso em geral sabem que o abuso é errado e constitui crime, por

outro lado o abuso não cria primariamente uma experiência prazerosa, mas serve para alívio de

tensão, tornando-se num processo que é conduzido pela compulsão à repetição do acto.

O abuso sexual dá ao abusador a excitação que constitui o elemento aditivo central, este vai

permitir o alívio da tensão, por sua vez, este ciclo vai criar dependência psicológica. O abusador

trava psicológicamente uma luta entre a negação do próprio acto e a tentativa de parar, que irá

desencadear um conjunto de processos cognitivos, que levarão à ansiedade, irritabilidade e

agitação.

Os abusadores utilizam uma série de estratégias para concretizar a violação, tais como:

sedução, acusação, minimização e movimentos defensivos.

Na sociedade actual mesmo que a decisão judicial seja pela prisão do abusador, isto não

significa que este não virá a repetir os mesmos actos e por outro lado não significa que tenha

assumido a responsabilidade destes.

Desta forma a prisão compõe a evitação da realidade e as pessoas frequentemente saem sem

assumir a autoria em termos psicológicos.

Será portanto necessário trabalhar a negação, para isso é de extrema importância a

intervenção dos psicólogos neste domínio.

Contudo para poder ser feita uma intervenção psicológica, é condição sine qua non, que o

abusador admita que cometeu o acto de violação, sendo este o primeiro passo para a mudança.

 

Limitações do processo terapêutico junto do agressor

Existem contudo várias limitações a esta intervenção:

- A “cura” só poderá ser obtida com uma terapia longa;

- Poderão existir individuos que aderem à terapia inicialmente como forma de fuga para não

admitir a autoria, o que tornará o tratamento ineficaz;

- Perda de motivação que leva ao abandono das sessões;

- Agressividade e abandono da terapia.

 

Intervenção junto das vítimas de abuso sexual

Na intervenção junto das vítimas, é importante criar um clima de confiança, abertura e por

outro lado mostrar à criança que acreditam no seu relato.

Perante a desconfiança da existência de abuso sexual é necessário solicitar ajuda médica,

junto da comissão de protecção de menores da área ou mesmo do tribunal de menores.

Será também relevante levantar o véu que cobre muitas vezes o ambiente familiar, a

violência emocional. Desta forma é importante orientar procedimentos para a detecção do

problema – tanto pela anamnese como pelo exame físico, de forma a formular um diagnóstico.

Agregar o espaço do atendimento fortalece o espaço da denúncia, da mobilização social e

da responsabilização dos culpados.

Para atender à complexidade do fenómeno, é necessário a criação de equipas

multidisciplinares (médico, enfermeiro, assistente social, psiquiatras, psicólogos, etc.). O

objectivo principal e primordial da intervenção é a interrupção do ciclo de violência, para tal é

necessário que sejam tomadas medidas jurídicas de contenção do agressor, medidas sociais de

proteção às crianças, medidas médicas de tratamento das consequências e medidas psicossociais.

A intervenção vai provocar consequências na família, reversão ao padrão original de

relacionamento, ruptura familiar, mudanças terapêuticas, necessidade de clarificar os

relacionamentos e interpretação do significado da violência na família.

Conforme referenciado por M. Fátima Oliveira e Cristina Camões, a habilidade de

interagir adequadamente com os adultos significativos é um aspecto importante no

desenvolvimento infantil e adolescente (Caballo, 1987; Del Prette & Del Prette, 1999;

Harralson & Lawler; 1992).

De acordo Goleman (1995) referenciado por M. F. Oliveira e Cristina Camões, “a família é

a primeira etapa de socialização da criança, é o contexto educativo onde aprende e sente as

normas, valores sociais, culturais e valores emocionais. A família é uma base de aprendizagem,

que produzirá na criança um processo de desenvolvimento cognitivo, sensorial, motor e afectivo.

Na medida em que – A vida familiar é a nossa primeira escola de aprendizagem emocional”.

Se a interacção com os elementos significativos (família e outros elementos) vivida por

estas crianças durante a infância é problemática, acarretará no futuro acções e desvios

comportamentais.

Um dos padrões comportamentais é o comportamento anti-social das famílias das crianças,

cuja etiologia está basicamente acentuada em relações familiares e formas de educação infantil,

que não só possibilitam o seu aparecimento como reforçam a ocorrência do mesmo.

 

 

Princípios Éticos a ter em conta na intervenção

As crianças e adolescentes são sempre as vítimas.

Fomentar a empatia com a criança e adolescente e mostrar-lhe que a conversa travada

com ela tem o objectivo de a ajudar.

A linguagem deve ser simples e clara para que a criança entenda o que está a ser dito.

A atenção deve ser dedicada exclusivamente para a criança.

A confiança mútua é de extrema importância em qualquer processo terapêutico.

As declarações da criança devem ser sempre tidas em conta para a análise do caso.

O técnico não pode substimar os sentimentos e pensamentos transmitidos pela criança,

nem fazer quaisquer juizos de valor.

 

Estudos Epidemiológicos

Estudos epidemiológicos apontam para e existência nos EUA (1994), de cerca de 3% dos

pais usam violência grave (soco, queimaduras, armas de fogo e armas brancas) contra os seus

filhos. Sugerem ainda que 1 em cada 3 crianças do sexo feminino e 1 em cada 6 crianças do sexo

masculino sofrem de abusos sexuais (EUA).

Foram registradas cerca de três milhões de queixas de maus-tratos contra crianças em 1993

(sendo que 50% eram maus tratos por negligência). Os estudos concluem que a pobreza se

encontra associada à violência sexual, muito embora também hajam numerosos registos nas

classes mais favorecidas. As investigações demonstram ainda que 75% das mulheres maltratadas

denunciam que seus filhos também o foram, sendo que 25% dos casais americanos passam por

episódios de violência conjugal. Da análise epidemiológica podemos concluir que o facto das

crianças assistirem a esses maus-tratos, virá no futuro a ser nocivo para os seus relacionamentos

futuros, podendo mesmo levar à repetição dessa mesma violência.

Outros estudos sugerem que 30 a 37% são os pais, tutores ou parentes próximos que

agridem sexualmente os menores. Quando o agressor é um membro da família ou conhecido, o

encontro geralmente não é violento, sendo usados a persuasão o suborno ou ameaças. A

Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e a Organização Mundial de Saúde (OMS),

apontam que apenas 2% dos casos de abuso sexual contra menores, (em que o autor é um parente

próximo), são denunciados à polícia.

 

CONCLUSÃO

O abuso físico é, geralmente, repetitivo e a sua severidade tende a aumentar com o tempo.

Qualquer lesão suspeita deve ser adequadamente investigada, considerando-se a incerteza quanto

à possibilidade de acontecer uma nova oportunidade de intervenção.

Na intervenção da criança ou adolescente, o técnico tem que ter em conta que os pais são os

únicos que ela conhece, que ama e que de certa forma pode considerar que é merecedora do

abuso.

A instabilidade psicossocial provoca uma disfuncionalidade familiar, que já por si só é

frágil, prejudicando assim os membros do agregado, principalmente as crianças e jovens.

Deste modo, as crianças e jovens adoptam mecanismos de defesa e sobrevivência.

De acordo com Pedro Strecht (2001), “É impossível calar o que se aprende a escutar. Como

podem bocas feitas de silêncio manter-se invioláveis? Esperemos que o tempo possa resolver

aquilo que por agora não podemos fazer. Quero comover com palavras. Quero ver vidas correrem

mais descansadas.”

Urge mudar o sistema e reforçar as equipas de intervenção social junto destas crianças, que

nada pedem em troca a não o afecto que muitas vezes nunca conheceram.

 

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http://www.psicologia.com.pt/artigos/textos/A0245.pdf


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