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Teses/Estudos Avançados/Questões

O hormônio do crescimento na somatopausa: revisão de literatura

08/04/2006

 

                      

   UNIVERSIDADE DO GRANDE RIO

    PROF. JOSÉ DE SOUZA HERDY

ESCOLA DE MEDICINA

 

 

 

 

 

O HORMÔNIO DO CRESCIMENTO NA SOMATOPAUSA: REVISÃO DE LITERATURA

 

 

 

 

        DANIELLE FERNANDA DE CAMPOS MORAIS

 

 

 

 

 

 

 

       Duque de Caxias – RJ

      2006

 

O HORMÔNIO DO CRESCIMENTO NA SOMATOPAUSA: REVISÃO DE LITERATURA

 

 

 

 

     DANIELLE FERNANDA DE CAMPOS MORAIS

 

 

 

Monografia apresentada como requisito parcial para a conclusão do Curso de Graduação em Medicina.

 

 

   Orientador: Dr. Paulo Ferrez-Collet Solberg

 

 

 

 

 

 

Duque de Caxias – RJ

2006

 

 

UNIVERSIDADE DO GRANDE RIO

       PROF. JOSÉ DE SOUZA HERDY

ESCOLA DE MEDICINA

 

 

 

 

A monografia sob título: “O hormônio do crescimento na Somatopausa: revisão de literatura” elaborada por Danielle Fernanda de Campos Morais e aprovada pelo (a) avaliador (a), foi aceita pela Escola de Medicina e homologada pelo Conselho de Ensino de Graduação, como requisito parcial da conclusão do curso de Medicina.

 

 

DATA:

 

 

 

 

 

AVALIADOR: _______________________________________________________

 

 

 

 

DEDICATÓRIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dedico este trabalho à minha família, pelo apoio oferecido durante minha graduação e na elaboração deste, também a todos os mestres que despertaram, em mim, a curiosidade científica e fizeram possível o início da construção de um aprendizado de forma gradativa, sólida e crítica.

 

 

 

AGRADECIMENTOS:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao Dr. Paulo Solberg, que me auxiliou durante a organização de idéias e realização deste.

À NOVO NORDISK® que gentilmente cedeu algumas revistas médicas para minha pesquisa acadêmica.

 

SUMÁRIO

 

 

I – INTRODUÇÃO..........................................................................................................9

 

1.0 - Aspectos do envelhecimento e o conceito de Somatopausa.....................................9

 

1.1 - O funcionamento do eixo hipotálamo – hipofisário – somatotrófico......................11

 

1.2 - Controle da secreção de GH....................................................................................13

 

1.3 -  Outros hormônios que facilitam a secreção de GH................................................16

 

1.4 - Ações periféricas do Hormônio do Crescimento....................................................17

 

1.5 - Ações Metabólicas do GH.......................................................................................18

 

1.6 - Papel do IGF-I, GH, suas respectivas proteínas lidadoras durante o envelhecimento

.........................................................................................................................................19

 

1.7 - Semelhanças e distinções entre a deficiência orgânica de GH e o hiposomatotropismo relacionado à idade........................................................................22

 

1.8 - Mensuração da dinâmica do GH na velhice............................................................25

 

1.9 – Terapia reposicional de GH durante a Somatopausa..............................................28

 

2.0 - Efeitos observados pela reposição de GH na Somatopausa....................................31

 

2.1 - Efeitos adversos da terapia com GH em idosos......................................................40

 

II – DISCUSSÃO...........................................................................................................43

 

III - CONCLUSÃO........................................................................................................45

 

IV – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..........................................................46

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RESUMO

 

 

 

Este estudo tem como objetivo o levantamento das últimas publicações, dentre a comunidade científica, que possam esclarecer sobre o processo do envelhecimento, sob o ponto de vista endocrinológico, o perfil da diminuída produção do hormônio do crescimento (GH) e de fator de crescimento I semelhante à insulina (IGF-I) na senescência, caracterizando a Somatopausa, e corroborando com limitações da qualidade de vida do idoso, além de ser colaboradora na construção de doenças. Também se questionou a reversibilidade desse processo com a reposição de GH.

 

Foram procurados artigos originais e de revisão selecionados no Medline, Lilacs, Ovid, Scielo e Pubmed Central, publicados entre o período de 1990 e 2005, com utilização de palavras-chave: GH e envelhecimento, hormônio do crescimento e envelhecimento, somatopausa. Livros textos específicos também foram consultados.

 

Palavras-chave: GH, hormônio do crescimento, envelhecimento, somatopausa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                      ABSTRACT

 

This study has as objective the survey of last publications around the scientific community, that could clarify about the aging process, under the endocrinological point of view, the reduced profile of growth hormone (GH) and insulin-like growth factor I (IGF-I) production during the elderly, characterizing the Somatopause, and corroborating with limitation of life to aged people and colaborating with illness. It also has been asked about  reversibility of the process with the GH  reposition.

 

It has been searched original and revision articles, selected from Medline, Lilacs, Ovid, Scielo and Pubmed Central, published between the period of 1990 and 2005, using the key-words: GH and aging, growth hormone and aging, somatopause. Specific book salso has been consulted.

 

Key-words: GH, growth hormone, aging, somatopause.

 

                                    

I – INTRODUÇÃO                                                                                                            

                                  

            A população brasileira tem mudado nos últimos anos, principalmente devido a melhores condições sócio-econômicas. Houve uma redução da natalidade, um prolongamento da expectativa de vida, com conseqüente aumento da população idosa - espera-se que a população acima 65 anos cresça cerca de 82%  nos próximos 25 anos. [1] Tais fatos soam de forma positiva, todavia algumas necessidades surgem como a compreensão do funcionamento do organismo do idoso, suas peculiaridades, além de se estudar a hipótese de intervenção no estabelecimento de disfunções, que possam resultar em doenças, evitando-se, assim, limitações na autonomia e qualidade de vida dessas pessoas.

 

1.0 – Aspectos do envelhecimento e o conceito de Somatopausa

 

O envelhecer muitas vezes é relacionado diretamente a presença de doença, o que pode não existir se houver a possibilidade de acesso à saúde preventiva desde a idade jovem e a preocupação com o bem-estar desde sempre, evitando as perdas e limitações e promovendo o bem-estar e a autonomia do idoso.

 

O processo do envelhecimento é caracterizado por uma seqüência de eventos que trazem perda funcional progressiva, acarretando uma perda na capacidade de restabelecer a homeostase, inicialmente diante de um estresse e posteriormente mesmo sob condições basais. [2]

Ocorrem, com o avanço da idade, diversas mudanças na composição corpórea: declínio na densidade óssea, deterioração no desempenho físico, perfil cardiovascular de risco, mudanças psicológicas e tendência a maior morbi-mortalidade. [3]

 

Pessoas mais velhas tendem a pesar aproximadamente 25% mais do que adultos mais jovens. A síntese protéica é menor, o total da massa magra é aproximadamente reduzido desde os 25 até os 70 anos de idade, em doze quilogramas em homens e cinco quilogramas em mulheres. De modo oposto, a gordura corpórea total aumenta desde os 18 aos 85 anos em aproximadamente 18% em homens e 12% em mulheres. A diminuição da atividade física, aliada ao aumento da ingestão de carboidratos, deve corroborar com esse aumento, mas não justificar a redução da massa magra em mais de 50%, verificada desde os vinte até os 80 anos de idade. Ainda a expansão de gordura corporal em idosos é maior na região intra-abdominal, sendo esta predominantemente visceral e não subcutânea.

 

Vários sistemas hormonais têm um declínio de sua atividade. A biodisponibilidade sérica de testosterona, estradiol, deidroepiandrosterona (DHEA), sulfato de DHEA, hormônio do crescimento (GH) e fator de crescimento I semelhante à insulina (IGF-I), todos diminuem durante esse período. Essas alterações têm sido consideradas fisiológicas, mas está claro que algumas delas se relacionam com essa queda da atividade hormonal.  [4]

           

A esse alentecimento da produção de GH e IGF-I (declínio do eixo somatotrófico) que ocorre de forma gradativa no envelhecimento é que nomeamos Somatopausa . Este fenômeno inicia-se na terceira década e é o resultado da redução do estímulo da hipófise por hormônios hipotalâmicos ao invés de ser uma falha exclusiva da hipófise. [5, 6]

 

1.1                O funcionamento do eixo hipotálamo – hipofisário - somatotrófico

 

O eixo somatotrófico é importante no crescimento pós-natal e para as homeostases metabólica e cardiovascular. A atividade desse eixo, no ser humano, é modulada fortemente pela idade, genética, composição corpórea e maturação sexual. [2]

 

Os somatotropos são células localizadas predominantemente nas regiões anteriores da hipófise e constituem 35 a 45% das células pituitárias.  A glândula contém de 5 a 15 mg de GH.

       

A molécula de GH, corrente polipeptídica de 191 aminoácidos , é sintetizada, armazenada e secretada pelos somatotropos, de um modo pulsátil, sob o controle principal de dois peptídeos hipotalâmicos: o hormônio liberador de hormônio do crescimento (GHRH), que estimula secreção do hormônio pela hipófise anterior, e a somatostatina (SRIF), que inibe tal secreção. [7, 8, 9]

                       

A função primordial do GH é de promover o crescimento linear, na criança, através do IGF-I, o maior efetor de crescimento somático. Circula no plasma ligado a proteínas carreadoras, cujo representante principal é o IGFBP-3 (protein insulin-like growth hormone binding protein 3).

 

Existem as proteínas específicas ligantes com alta afinidade para o GH humano (GHBPs). Mais de metade do GH no soro humano é ligado a essa proteína, que forma um complexo e prolonga a meia-vida desse hormônio,  presumidamente por prejudicar a filtração glomerular, e modular a sua ligação ao GH.  [7, 8]

 

O hormônio do crescimento, por sua vez, estimula a geração hepática de IGF-I. Ambos exercem um feedback negativo sobre o hipotálamo e a hipófise, como demonstrado na figura 1. O IGF-I inibe a secreção de GH, através da supressão da síntese de RNA mensageiro e do estímulo para a secreção de somatostatina (SRIF).

 

 

 

Figura 1 – Representação esquemática dos mecanismos envolvidos na redução da atividade do eixo somatotrófico no envelhecimento : redução da secreção de GHRH, aumento da secreção de SRIH e aumento na sensibilidade hipofisária à retroalimentação negativa do IGF-I . [1]

                                                                                                                                                                                           

            

A busca recente de peptídeos sintéticos de liberação de hormônio do crescimento levou à identificação de um receptor do secretagogo de hormônio do crescimento (GHSR tipo um A). Este é, em grande parte, expresso no hipotálamo, mas também foram identificados em outras regiões do sistema nervoso central, tecidos endócrinos e não-endócrinos em humanos. O ligante endógeno para esse receptor, a ghrelina, foi isolada do estômago. É sintetizada em tecidos periféricos, predominantemente por células gástricas neuroendócrinas e, em menores proporções, pelos intestinos, pâncreas, fígado, sistema imune, placenta, hipófise, testículos, ovários e hipotálamo.

 

A ghrelina leva não só à secreção de GH, mas também estimula a secreção de prolactina e hormônio adrenocorticotrópico. Ainda, atua na função endócrina pancreática, metabolismo de glicose, função gonadal, apetite e comportamento. Pode ainda promover motilidade e secreção gástrica e tem efeitos cardiovasculares.[9] O isolamento da Ghrelina indica um sistema de controle além do GHRH e da SRIF na secreção de GH. [6, 7, 9]

 

1.2              Controle da secreção de GH

 

Vários fatores regulam a secreção de GH, como exemplificado na tabela 1. O exercício e estresse físicos, incluindo o trauma, choque hipovolêmico e sepse aumentam o nível desse hormônio. Desordens emocionais estão associadas com a supressão da secreção e atenuações nas respostas do GH a testes de estímulo provocativos que ocorrem na depressão endógena. Desnutrição crônica e jejum prolongado estão associados com freqüências e amplitudes de pulsos de GH elevados. Aproximadamente 70% da secreção do GH ocorre durante o sono. Alterações na qualidade e quantidade do sono podem prejudicar essa secreção. [10, 11]

                                  

A obesidade diminui a secreção de GH a estímulos e também a secreção basal, hipoglicemia induzida por insulina estimula o GH e a hiperglicemia inibe sua secreção. A hiperglicemia crônica não é, entretanto, associada a níveis baixos de GH. Pacientes diabéticos mal controlados têm demonstrado aumento da secreção basal de GH e da resposta de GH a exercícios. Receptores centrais de glicose aparentemente são mais sensíveis a flutuações da glicemia do que a seus valores absolutos. Dietas hiperprotéicas e aminoácidos séricos (incluindo arginina e leucina) estimulam a secreção de GH.

 

                                                                                             

Tabela 1 – Fatores precipitantes de variação entre, respectivamente, ratos, ovelhas e humanos, na regulação do GH. [12]

                                                                                                                     

Níveis séricos elevados de ácidos graxos livres embotam os efeitos da infusão de arginina, do sono, L-dopa e exercícios na liberação de GH estimulada por GHRH. A Leptina tem papel chave na regulação de massa corporal de gordura, regulando o aporte de comida e gasto energético e pode funcionar como um sinal metabólico para regular a secreção de GH.

 

Neuropeptídeos, neurotransmissores e opióides modulam a secreção de GHRH e SRIF. Efeitos integrados desta complexa influência neurogênica determinam a fração final de secreção de GH.

 

 A Apomorfina, um agonista do receptor central de dopamina, estimula secreção de GH, assim como ocorre com o tratamento com levodopa. A administração oral de levodopa evoca uma resposta sérica de GH dentro de uma hora, em pacientes jovens e saudáveis.

 

A Norepinefrina aumenta a secreção de GH através de uma ação alfa-adrenérgica e inibe a liberação de GH por mecanismo beta-adrenérgicos.

                                                                                                         

Os testes de hipoglicemia induzida por insulina, de clonidina, a administração de arginina, o exercício, a levodopa e arginino vasopressina aperfeiçoam a secreção de GH

com efeitos alfa-adrenérgicos. O bloqueio beta-adrenérgico aumenta a secreção de GH induzida pelo GHRH, possivelmente por uma ação direta hipofisária ou por um decréscimo na liberação hipotalâmica de somatostatina.

 

Endorfinas e encefalinas estimulam GH e devem ser responsáveis pela liberação de GH durante estresse físico e exercícios intensos. Galanina, um neuropeptideo de 29 aminoácidos, induz a secreção de GH e respostas a GHRH. Neurônios colinérgicos e serotoninérgicos e diversos neuropeptídeos estimulam o GH, incluindo a neurotensina, VIP, motilina, colecistocinina e glucagon. [6, 7, 12, 13]

                                                                                                                                                                     

1.3              Outros hormônios que facilitam a secreção de GH

 

A administração aguda de glicocorticóides estimula a secreção de GH, todavia administração crônica do mesmo inibe a secreção. Três horas após administração aguda de glicocorticóide, o nível de GH é elevado e assim se mantém por duas horas. Contudo, uma exposição muito elevada a corticóides, em pacientes com retardo de crescimento e Doença de Cushing, foi relacionada a decréscimo de GH sérico e reduzido GH hipofisário nas proximidades do adenoma. Quando administrados a pacientes normais, doses de glicocorticóides inibiram o estimulo de GHRH para secreção de GH de forma similar à vista na Síndrome de Cushing. Além disso, cortisol antagoniza a ação periférica do GH.

 

Os níveis de GH estão reduzidos em pacientes hipertireoideos, mas tornam-se normais quando os pacientes voltam a ser eutireoideos, sugerindo que o hormônio da tireóide suprime a secreção de GH. Elevados níveis circulantes de esteróides gonadais, observado durante a puberdade, devem também ser responsáveis por contabilizar com elevados níveis de GH puberal. O estrogênio estimula taxas de secreção de GH e testosterona aumenta a massa secretória de GH com resultante indução de IGF-I.

                                                                                                                                

O TRH não estimula a secreção de GH em indivíduos normais, mas induz a sua secreção em aproximadamente 70% de pacientes acromegálicos.

 

Respostas divergentes de GH ao estímulo de TRH são vistas em pacientes com doença hepática, renal, secreção ectópica de GHRH por tumores, anorexia nervosa e depressão. O TRH estimula, provavelmente, em humanos, a secreção de GH somente em alguns experimentos e em condições onde estejam presentes alterações como acromegalia, diabetes tipo um, insuficiência hepática ou renal, mas não usualmente em pacientes saudáveis. Ele estimula a secreção de GH em aproximadamente um terço dos pacientes com acromegalia.

                                                                                                                     

A calcitonina, hormônio produzido na região medular ou nas células C da glândula tireóide, inibe a atividade osteoclástica e diminui a depuração renal de cálcio e fosfato. Ela impõe diversos efeitos endocrinológicos, como a inibição da secreção de gastrina, a liberação basal e ao estímulo de insulina e as respostas hipofisárias de TSH e LH ao TRH e LHRH, respectivamente. Em ratos, a administração de calcitonina reduz a secreção de 24 horas de GH e as respostas de GH e ao GHRH. Em humanos, a injeção intramuscular induz respostas de GH a estímulos hipotalâmicos assim como a L’arginina e a hipoglicemia induzida por insulina. [12, 13, 14, 15, 16]

 

1.4              Ações periféricas do Hormônio do Crescimento                                            

 

O GH atua mediando funções metabólicas e de crescimento; promove sinalização celular através de um receptor periférico, iniciando uma cascata de fosforilação. O fígado contém abundantes quantidades de receptores de GH e diversos tecidos periféricos também expressam quantidades modestas de receptores, incluindo os músculos e tecido adiposo. O tipo de receptor do GH é homólogo aos receptores de prolactina, interleucinas 2 e 7, eritropoetina, interferon e fator estimulador de colônias.

Os complexos formados entre o GH e dois receptores levam a intensa dimerização do receptor, para subseqüente sinalização do GH.  A dimerização é seguida pela ativação rápida da tirosino-quinase - JAK2 - levando a fosforilação de moléculas de sinalização intracelulares, incluindo proteínas de transcrição (STATs um, três e cinco), componentes essenciais de sinalização para a ação do GH. As proteínas STAT fosforiladas são diretamente translocadas aos núcleos celulares, onde atingem o alvo específico da expressão gênica do GH, com a ligação ao DNA nuclear. O GH ainda induz a fosforilação cíclica e a síntese de insulina.

 

As respostas teciduais à sinalização de GH são determinadas pelo padrão de secreção de GH em conjunto com a quantidade absoluta de hormônio circulante. Os

perfis de secreção de GH demonstram específicos padrões de expressão de enzimas do citocromo P450 relacionados ao sexo. Dessa forma, esteróides circulantes regulam a liberação neuroendocrina de GH. [7]

 

1.5              Ações Metabólicas do GH                                                                              

 

Apesar dos demonstrados efeitos pró-insulínicos agudos e transitórios do GH, a exposição crônica ao hormônio tem potentes efeitos anti-insulínicos em territórios hepáticos e periféricos, resultando em diminuída utilização de glicose, lipólise aumentada, e refratariedade tecidual aos efeitos agudos do GH.

 

A concentração endógena de GH antagoniza a ação da insulina. A secreção de GH aumenta de três a cinco horas após a ingestão de glicose, resultando numa disposição reduzida de glicose associada à hiperinsulinemia ocorrendo após duas horas do pico de secreção de GH.

 

A reposição de GH aumenta os níveis de glicemia de jejum além dos níveis de insulina e induz a produção hepática de glicose. Adultos com deficiência de GH têm níveis elevados de insulina em jejum e aumento de gordura visceral, sugerindo resistência insulínica, confirmado por grupos de estudo de pessoas hiperinsulinêmicas e euglicêmicas.

                                                                                                                                

O GH tem perfil anabólico e causa uma retenção de nitrogênio urinário, níveis plasmáticos reduzidos de uréia e aumento da massa muscular. Ele aumenta a mobilização de gordura, reduz o depósito lipídico e ativa o hormônio lípase, resultando em aumentada hidrólise de triglicérides a ácidos graxos livres e glicerol (lipólise), além de reesterificação reduzida de ácidos graxos. A reposição de GH em adultos deficientes leva a redução de gordura corporal e diminuição do tamanho do adipócitos e conteúdo lipídico. 

 

Como o GH é degradado nos rins, os níveis de GH estão elevados em casos de insuficiência renal crônica, sendo que, mesmo paradoxalmente, este aumenta em resposta a uma carga de glicose elevada nesses pacientes. [7, 17]

 

1.6              Papel do IGF-I, GH, suas respectivas proteínas lidadoras durante o envelhecimento

 

Nas crianças, sabidamente o GH tem papel vital no crescimento normal e desenvolvimento para a vida adulta, mas sua ação fisiológica é incerta. Continua sendo secretado na idade adulta após a parada do crescimento, entretanto entre os dezoito e vinte e cinco anos, ocorre uma queda exponencial na média de secreção de GH de vinte e quatro horas, com queda dos níveis de IGF-I. [5, 6]

 

Muitos pesquisadores avaliaram o efeito do envelhecimento sobre a secreção de GH. Os homens e mulheres idosos secretam GH com menor freqüência e em menor amplitude que em pessoas jovens. A secreção de GH realmente diminui catorze por cento por década e sua meia vida decresce em seis por cento por década, em indivíduos normais. [18]

 

Reduções no número e amplitude de pulsos espontâneos de GH durante o sono foram identificadas em adultos acima de 50 anos de idade e em dois diferentes estudos foram limitados as três ou quatro primeiras horas do sono. Apesar da secreção noturna de GH ser reduzida em homens idosos, estes, assim como homens jovens, ainda têm de duas a quatro vezes maiores secreção à noite do que durante o dia.

 

Respostas do GH a estímulos indiretos foram estudadas em pessoas idosas. A resposta à hipoglicemia induzida por insulina não pareceu evidenciar alterações com a idade, assim como a resposta do GH à infusão de Arginina, o que potencializa a resposta ao GHRH. [6]

   

A obesidade é, como já mencionado, uma causa para diminuição da secreção de GH. No entanto, observou-se que em pacientes com mais de 50 anos com deficiência de GH, a redução de massa celular corporal não era evidente. Com isso, aparentemente os efeitos da deficiência do GH na composição corporal são atenuadas na velhice, sendo o maior impacto sobre a massa gorda dos mesmos. [19]

 

A resposta aguda do GH ao exercício é reduzida com a idade. Estudos demonstraram que treinamento durante 12 semanas aumentou a resposta aguda de GH após uma hora de exercícios em homens idosos, embora ainda apresentem menos resposta de produção de GH em relação a homens mais novos em treinamento ou até mesmo sedentários. Em outras pesquisas, homens idosos, diferentemente dos mais jovens, não demonstraram elevação do nível sérico de GH durante repouso ou mesmo depois de uma hora de exercícios físicos, em 12 semanas de treinamento. [6]

 

Pesquisas revelam que a diminuição do GH também leva as alterações neuropsiquiátricas como a perda do bem-estar psicológico, alteração das reações emocionais, depressão, assim como alterações cognitivas. [20]

 

A concentração de proteínas carreadoras de GH sofre variações significativas com a idade, porém esse fato não fora identificado em todos os estudos. Em indivíduos sadios, há um aumento progressivo da atividade das GHBPs a partir da infância até a idade adulta. Ocorre um declínio a partir da quinta década em homens, mas não em mulheres. Não se compreende essas diferenças, mas especula-se que ocorra diminuição dos receptores periféricos ou uma diminuição da secreção de GH com a idade.

As GHBPs sofrem influência do próprio processo de envelhecimento, da obesidade e outros estados de co-morbidade. O IGFBP3, que também declina com a progressão da idade, mas com uma extensão menor do que o IGF-I e o GH é o principal transportador de IGF-I e correlaciona-se positivamente com os níveis de IGF-I, mas fracamente com a secreção espontânea de GH em idosos. [22,23]

 

Vários estudos sobre a relação entre composição corpórea, capacidade funcional e concentração de IGF-I sérica demonstraram resultados contraditórios. Em um estudo de indivíduos saudáveis de uma ampla faixa etária, foi observada uma associação entre a capacidade aeróbica máxima e níveis de IGF-I circulantes. Entretanto, nenhuma relação com IGF-I foi demonstrada em um grupo de pessoas mais velhas quando força, desempenho físico e estado cognitivo foram avaliados. [21,24]

 

Em paralelo, níveis séricos de IGF-I são menores em indivíduos idosos saudáveis do que em jovens adultos saudáveis. Em um estudo de 226 homens e mulheres saudáveis, a concentração de IGF-I em indivíduos na sétima década era de aproximadamente a metade do que em pessoas na terceira década. Correlacionou-se a produção do IGF-I e IGFBP3 com estado nutricional, o que pode justificar que alterações nutricionais, além das metabólicas, na idade avançada, colaboram para a diminuição hormonal. [6, 25]

                                                                                                                                        

1.7              Semelhanças e distinções entre a deficiência orgânica de GH e o hiposomatotropismo relacionado à idade (conflicts with somatopause)

 

Assim como em indivíduos com hipogonadismo, deficiência de GH (DGH) em adultos pode também ser considerada um modelo de envelhecimento pois um número de eventos catabólicos que são centrais na biologia do envelhecimento, podem ser revertidos pela reposição do GH.

 

O conceito de que o declínio de secreção de GH e IGF-I contribui para o declínio da capacidade funcional em idosos é derivado de estudos em que a terapia de reposição de GH em adultos com deficiência desse hormônio demonstrou aumento da massa e força musculares, massa óssea e qualidade de vida. Um efeito benéfico no perfil lipídico e um importante declínio na massa gorda foram também observados nesses pacientes. [3]

 

O envelhecimento normal (senescência), como os estados de DGH, é caracterizado por uma redução na síntese de proteína e na massa magra. Durante a vida adulta, a massa gordurosa aumenta 18% em homens e 12% em mulheres, e seu acúmulo se dá preferencialmente no compartimento intra-abdominal (visceral). Alterações semelhantes têm sido verificadas em adultos com deficiência de hormônio do crescimento. [26, 27]

 

Tanto idosos como indivíduos com DGH apresentam aumento da mortalidade cardiovascular em parte por alterações no metabolismo lipídico, com aumento do LDL-

colesterol e de triglicérides e diminuição de HDL-colesterol. Os níveis de glicemia aumentam com a idade em razão do aumento da resistência à insulina e da diminuição da produção desta. A prevalência de diabetes tipo dois aumenta com a idade, levando a uma diminuição na recuperação após hipoglicemia, fato associado à deficiência da secreção de GH.

 

Com a diminuição da atividade osteoblástica ocorre perda óssea conforme o envelhecimento. Idosos com osteoporose apresentam níveis séricos de IGF-I e IGFBP-3 mais diminuídos do que outros idosos, ocorrendo uma correlação positiva entre densidade mineral óssea e níveis de IGFBP-3.

 

Entre os pacientes com acromegalia não-tratados, os indivíduos idosos tendem a apresentar níveis de GH e IGF-I menores que os indivíduos jovens, sendo mais sensíveis ao emprego de análogos da somatostatina. A incidência de apnéia do sono aumenta com o avanço da idade e indivíduos com esse quadro apresentam alterações na secreção noturna de GH.

 

Um estudo de 1998 foi realizado comparando a secreção de GH em pacientes de 61 até 88 anos, com doença hipotálamo-hipofisária, e em idosos hígidos, num período de 24 horas. Resultados evidenciaram que todos os controles revelaram queda na secreção do hormônio durante algum momento desse período, mas que os pacientes doentes, com alterações hipotálamo-hipofisárias, revelaram queda de noventa por cento na produção de GH em relação aos outros idosos.

                                                                                                                     

Em adultos acima de 60 anos, embora a concentração sérica de IGF-I seja significativamente menor em idosos com DGH que em idosos normais, a semelhança entre os dois grupos é muito grande. Somente 17% dos pacientes que tinham DGH tiveram concentrações de IGF-I menores que os níveis esperados da faixa etária, todavia todos pacientes com níveis diminuídos IGF-I tinham DGH importante, indicando que o perfil de estímulo de IGF-I não deve ser descartado nos idosos com doença hipotálamo-hipofisária. A concentração sérica de IGFBP-3 também declina com a progressão da idade, mas com uma extensão menor do que o IGF-I e o GH. [3, 28]

 

1.8              - Mensuração da dinâmica do GH na velhice

 

Alterações no sistema GH/IGF-I são percebidas em indivíduos idosos, mas cada método para definir ou o nível sérico ou o de liberação de GH encontra limitações. Ainda é difícil, para clínicos, definir o propósito da testagem assim como o tipo de mensuração. Apesar da secreção de GH flutuar com a idade e níveis séricos de IGF-I e IGFBP3 reduzirem ao longo do tempo, isso não significa que todos idosos sejam deficientes de GH.

 

                                                                                                                                                                           

Gráfico 1 – Alterações de IGF-I relacionadas à idade em mulheres saudáveis entre 10 e 90 anos.  [29]             

 

Para caracterizar um real estado de deficiência de GH, de modo a se considerar uma terapia reposicional, testes dinâmicos são esse