Antienvelhecimento/Longevidade - Avaliação do envelhecimento facial relacionado ao tabagismo
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Antienvelhecimento/Longevidade

Avaliação do envelhecimento facial relacionado ao tabagismo

21/05/2006
 


An. Bras. Dermatol. v.81 n.1 Rio de Janeiro jan./fev. 2006

INVESTIGAÇÃO CLÍNICA, EPIDEMIOLÓGICA, LABORATORIAL E TERAPÊUTICA

 

 

 

 

Letícia Yumi SueharaI; Karine SimoneI; Marcus MaiaII

IMédica em especialização pela Clínica de Dermatologia da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil
IIChefe de Clínica Adjunto da Clínica de Dermatologia da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: O tabagismo é responsável por diversas doenças crônicas e pelo envelhecimento da pele.
OBJETIVO: Comparar a pele facial de fumantes e não fumantes.
MÉTODOS: Foram avaliados 77 pacientes, 43 não tabagistas e 34 tabagistas, entre 40 e 60 anos, excluídos aqueles com exposição solar excessiva, etilistas e submetidos a tratamento estético da face. As alterações faciais foram avaliadas com base em escore de características da pele da face descrita por Model (fácies de tabagismo). Os indivíduos tabagistas e não tabagistas foram avaliados de acordo com o tempo e a quantidade de cigarros fumados, o sexo, a cor da pele e a idade.
RESULTADOS: A comparação quanto ao escore da fácies de tabagismo evidenciou que o grupo tabagista apresentou maior escore que o grupo não tabagista (p=0,021). Foram observadas diferenças significativas de escore na comparação entre as faixas etárias (p=0,004) e a cor (p <0,01). Em relação à quantidade de cigarros fumados e o tempo desse hábito de acordo com sexo não houve diferenças de escore. A análise multivariada das variáveis, evidenciou que o tabagismo, Odds Ratio (OR) = 3,49, a cor da pele (OR=8,10) e a idade (OR=1,21) são fatores independentes para o envelhecimento facial.
CONCLUSÃO: O tabagismo é fator de risco independente para o envelhecimento cutâneo. Esse achado confirma os efeitos cutâneos nocivos do cigarro, constituindo-se em mais um argumento na luta contra o tabagismo.

Palavras-chave: Envelhecimento da pele; Face; Fumo; Tabagismo


 

 

INTRODUÇÃO

Atualmente, uma terça parte da população mundial de 15 anos ou mais é fumante (1:5 habitantes de todas as idades), o que corresponde a 1,2 bilhão de pessoas. Em conseqüência desse hábito, morrerão 500 milhões de pessoas, metade das quais tem hoje menos de 20 anos de idade.1

Mais de 75% das mortes por câncer do pulmão e doença pulmonar obstrutiva crônica são diretamente atribuídas ao tabagismo, que também é relacionado com a etiologia de outras neoplasias (estômago, esôfago e bexiga) e de doenças cardiovasculares.2

O tabagismo também provoca alterações na pele; entretanto, os mecanismos fisiopatológicos destas alterações são complexos.

A fumaça do cigarro contém mais de 4.000 substâncias tóxicas, mas é a nicotina o composto mais nocivo. Ela é responsável pela vasoconstrição, que gera diminuição do fluxo sangüíneo, cujo mecanismo ainda é desconhecido; porém acredita-se que a nicotina estimule a vasopressina. Além disso, o fumo atua no sistema nervoso simpático, que também causa vasoconstrição. Esses fatores, em conjunto, geram hipóxia tissular significativa, ou seja, um único cigarro determina vasoconstrição cutânea por mais de 90 minutos. A isquemia crônica dos tecidos gera lesão das fibras elásticas e diminuição da síntese do colágeno.3

Outros estudos mostraram que a estimulação dos leucócitos pelos componentes do tabaco causa liberação dos íons superóxidos. Essa liberação de radicais livres pode causar lesão tissular, diretamente pela peroxidação lipídica ou indiretamente pela inativação das enzimas que em circunstâncias normais protegeriam o tecido da ação proteolítica, como o inibidor da a-1-proteinase. Esses radicais livres são normalmente inativados pelo retinol, betacaroteno e tocoferol, porém nos tabagistas os níveis séricos e cutâneos dessas substâncias são baixos.4,5

Além disso, o fumo causa aumento da agregação plaquetária, diminuição da formação de prostaciclinas, aumento da viscosidade sangüínea e aumento da atividade plasmática da elastase. Essa atividade aumentada da elastase causa formação defeituosa da elastina, tornando a pele mais espessa e mais fragmentada.

Finalmente, o tabagismo gera aumento da hidroxilação do estradiol na pele, determinando, nas mulheres, um estado hipoestrogênico que pode estar associado com pele seca e atrófica e com piora do seu aspecto geral.4,5

Em 1985 Model6 definiu critérios clínicos de “-fácies de tabagismo”: a) rugas proeminentes; b) proeminência dos contornos ósseos; c) pele atrófica e cinzenta; d) pele pletórica. O autor considerou que apenas um critério seria suficiente para caracterizar tal fácies.

Como as alterações da pele devidas ao tabagismo são pouco estudadas e difundidas, os autores decidiram realizar um estudo comparativo entre a pele facial de fumantes e não fumantes.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram avaliados os pacientes atendidos nos ambulatórios de Dermatologia, Pneumologia e Clínica Médica do Departamento de Medicina da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Para o estudo foram selecionados pacientes entre 40 e 60 anos, não etilistas, sem história de exposição solar excessiva (menos de duas horas diárias) e aqueles não submetidos a tratamento estético da face. Cada paciente foi avaliado por dois observadores submetidos a treinamento antes do início da avaliação clínica.

Os pacientes foram avaliados quanto à idade, ao sexo, à cor da pele (brancos, não brancos e amarelos) e ao consumo de cigarros (maior ou igual a 10 anos/maço e menor que 10 anos/maço). A unidade anos/maço é utilizada para definir a quantidade de maços fumados por determinado tempo. Essa unidade tem como base ano/maço, ou seja, um maço de cigarros fumados por dia por um ano. Portanto, se uma pessoa fumou um maço ao dia por 10 anos ou dois maços ao dia por cinco anos, terá fumado 10 anos/maço.

Todos os pacientes foram classificados de acordo com as alterações da pele da face possivelmente determinadas pelo tabagismo, denominada “fácies de tabagismo”6 (Quadro 1), recebendo um escore final, considerando-se um ponto para cada característica. Portanto, o escore máximo que um paciente poderia alcançar seria sete pontos. Para a análise do escore em relação às outras variáveis, foram separados os pacientes que possuíam nenhum ou pelo menos um ponto no escore em um grupo e os que apresentavam pelo menos dois pontos em outro grupo. Esse ponto de corte em relação ao escore foi decidido pela distribuição total dos pacientes: 53 pacientes (68,8%) apresentavam escore < 1 (Tabela 1).

 

 

 

 

Análise estatística

As variáveis classificatórias (sexo e cor), em relação aos grupos tabagista e não tabagista, foram apresentadas em tabelas contendo freqüências absolutas (N) e relativas (%), sendo a associação entre elas avaliada com o teste qui-quadrado.

O escore foi avaliado com o teste Mann-Whitney.

A média de idade foi comparada com o teste de t-Student.

Ajustou-se um modelo de regressão logística multivariada para o escore, classificado em menor ou igual a 1 e maior que 1. Os valores de p<0,05 foram considerados estatisticamente significantes.

 

RESULTADOS

No total, participaram do estudo 77 pacientes com faixa etária variando de 41 a 60 anos (média de 52,3 anos), sendo 49 do sexo feminino (63,6%) e 28 do sexo masculino (36,4%). Trinta e quatro indivíduos (44,2%) pertenciam ao grupo de tabagistas, e 43 (55,8%) ao de não tabagistas. Como os pacientes não foram randomizados, para comparar os dois grupos quanto às variáveis sexo, cor e idade, foi realizado o teste do qui-quadrado. Com os resultados obtidos, foi possível observar que as características dos indivíduos dos grupos tabagista e não tabagista eram homogêneas em relação às variáveis, permitindo análise fidedigna (Tabela 2).

 

 

A comparação quanto ao escore da fácies de tabagismo evidenciou que o grupo tabagista apresentou maior escore que o grupo não tabagista, ou seja, mais alterações na pele, e se demonstrou estatisticamente significante (p=0,021). Foram observadas diferenças significativas de escore comparando as faixas etárias (p=0,004) e a cor (p <0,01), ou seja, quando mais velho e da cor branca, mais alterações da pele da face. Em relação à quantidade de cigarros fumados e ao tempo dessa prática (p = 0,374) e ao sexo (p = 0,282) não ocorreram diferenças significantes de escore. (Tabela 3). Classificando-se o escore em dois grupos, escores < 1 e > 1, foram observadas as mesmas características em relação ao tabagismo (p=0,029), à cor da pele (0,001) e à idade (p< 0,01) (Tabela 4).

 

 

 

 

Na análise multivariada das variáveis, observou-se que o tabagismo, a cor da pele e a idade são fatores independentes no envelhecimento da face (Tabela 5). A probabilidade de uma pessoa de pele branca ter escore > 1 é oito vezes superior à de uma não branca, Odds Ratio (OR) = 8,102. Da mesma maneira, a probabilidade de um indivíduo tabagista apresentar escore >1 é 3,5 vezes superior à de um não tabagista (OR=3,499), e a cada acréscimo de um ano na idade do indivíduo sua probabilidade de escore >1 aumenta em 20% (OR=1,211) (Tabela 6).

 

 

 

 

No gráfico 1 é demonstrado que uma pessoa tabagista e branca possui maior probabilidade de escore >1 em relação a uma pessoa tabagista e não branca, bem como um indivíduo não tabagista branco em relação a um não tabagista não branco. Para um corte de probabilidade de escore >1 de 0,36, a sensibilidade do modelo é 75%, e a especificidade, de 73,6%.

 

 

DISCUSSÃO

As alterações teciduais da pele causadas pelo tabagismo incluem-se em assunto mundialmente estudado; embora a literatura não seja muito extensa, de forma unânime refere que o tabagismo causa envelhecimento facial precoce. Em 1965 Ippen e Ippen7 definiram “a pele do tabagista” como pálida, cinzenta e enrugada. Num grupo de mulheres com idade variável de 35 a 84 anos, eles encontraram esse tipo de pele em 79% das fumantes e em 19% das não fumantes. Em 1971 Daniell8 mostrou que linhas ou rugas de expressão eram mais proeminentes e comuns entre fumantes em comparação com não fumantes em todas as idades, sexo e mesmo nos grupos com maior exposição solar. Em 1985, Model6 definiu os critérios clínicos de “fácies de tabagismo”: a) rugas proeminentes; b) proeminência dos contornos ósseos; c) pele atrófica e cinzenta e d) pele pletórica. O autor considerou que apenas um critério é suficiente para caracterizar a fácies. A avaliação dos pacientes deste estudo teve como base essa classificação.

As características do envelhecimento facial causadas pelo tabagismo, são bastante intensas e determinadas por alterações das fibras do colágeno da derme profunda,5 razão por que as rugas são bem marcantes.

Os pacientes tabagistas mostraram de forma significante (p = 0,029) maior envelhecimento do que os que não fumavam. Foi possível constatar que 79% dos não fumantes apresentaram nenhuma ou uma das características da fácies de tabagismo, contra 56% dos fumantes. Já 44% dos fumantes mostraram duas ou mais características da fácies do tabagismo, contra 21% dos não fumantes.

Uma vez bem caracterizado o envelhecimento facial devido ao tabagismo, procurou-se determinar se outras variáveis poderiam ter significado entre os pacientes.

Em relação ao sexo, é conhecido na literatura o fato de que as mulheres são mais susceptíveis ao envelhecimento pelo tabagismo do que os homens.4,5 Isso seria devido à diminuição do hormônio feminino na pele, causada pela nicotina. O estudo, porém, não mostrou essa diferença.

O mesmo ocorreu quando foram comparados o tempo de prática e o consumo de cigarros, ou seja, não houve diferença significativa de envelhecimento facial entre os que fumaram mais em relação aos que fumaram menos. Esses dois fatos observados no trabalho contrariam a literatura. Entretanto, é possível que casuística maior pudesse mostrar outras evidências.

Pôde-se observar, pela análise multivariada, que o tabagismo possui efeito significante no escore da fácies, independente da idade e da cor da pele, ou seja, um fumante com a mesma idade e cor que um indivíduo não tabagista, apresentará envelhecimento facial mais evidente. A probabilidade de uma pessoa tabagista apresentar escore >1 é 3,5 vezes superior à de uma pessoa não tabagista.

Fato interessante é que os pacientes da cor branca obtiveram escore de envelhecimento mais pronunciado do que os não brancos. A literatura aponta efeito sinérgico do sol em relação ao envelhecimento pelo tabagismo. É possível que esse resultado mostre que a cor da pele de tabagistas não brancos possa atenuar a aparência do envelhecimento determinado pelo tabagismo, em função de sua proteção solar natural. A probabilidade de uma pessoa branca apresentar escore >1 é oito vezes superior à de uma pessoa não branca.

Como esperado, a idade também é fator independente no envelhecimento cutâneo, sendo que a cada acréscimo de um ano na idade do indivíduo sua probabilidade de escore > 1 aumenta em 20% (OR=1,211).

Este trabalho mostra que a cor, o tabagismo e a idade são variáveis independentes para o envelhecimento facial. Portanto, como demonstrado no gráfico 1, a probabilidade de uma pessoa tabagista e branca apresentar escore > 1 é maior do que a de uma pessoa tabagista e não branca, bem como a de um indivíduo não fumante branco em comparação a um não fumante não branco, sendo este último o mais protegido do envelhecimento conforme a idade entre todos esses grupos.

 

CONCLUSÃO

Os resultados deste trabalho reafirmam os efeitos cutâneos do cigarro, constituindo mais uma argumentação na luta contra o tabagismo, podendo tornar-se motivação efetiva para os mais preocupados com a aparência do que com os perigos internos.

 

REFERÊNCIAS

1. Yach D, Onzivu W. Bulletin of the WHO. Special Theme - Tobacco. Bull World Health Organ. 2000; 78: 866-948.

2. Skurnik Y, Shoenfeld Y. Health Effects of Cigarette Smoking. Clin Dermatol. 1998; 16; 545-56.
        [ Medline ]

3. Jensen JA, Goodson WH, Hopf HW, Hunt TK. Cigarette smoking decreases tissue oxygen. Arch Surg. 1991; 126:1131-4.

4. Bridges RB, Chow CK, Rehm SR. Micronutrient status and immune function in smokers. Ann NY Acad Sci. 1990; 587:218-31.

5. Francès C. Smoker´s wrinkles: Epidemiological and pathogenic considerations. Clin Dermatol. 1998; 16; 565-70.
        [ Medline ]

6. Model B. Smoker´s face: An underrated clinical sign? BMJ.1985; 291:1760-2.

7. Ippen M, Ippen H. Approaches to a prophylaxis of skin aging. J Soc Cosmet Chem. 1965; 16: 305-8.

8. Daniell HW. Smoker´s wrinkles: a study in the epidemiology of crow´s feet. Ann Intern Med. 1971; 75:873-80.

9. Allen HB, Johnson BL. Smoker’s wrinkles? JAMA. 1973; 225:1067-9.

 

 

Endereço para correspondência:
Letícia Yumi Suehara
Av. Lins de Vasconcelos, 3111 - apto. 44B - Vila Mariana
04112-012 - São Paulo - SP
E-mail: lsuehara@ig.com.br

Recebido em 03.06.2005.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 16.01.2006.
Conflito de interesse declarado: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado pela Clínica de Dermatologia da Santa Casa de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

 

 Sociedade Brasileira de Dermatologia
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0365-05962006000100004&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt


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