A perda de memória é uma dos sintomas mais assustadores da doença de Alzheimer, que afeta sobretudo as pessoas idosas. Ligações cruciais entre neurónios, que nos permitem recordar um rosto ou um acontecimento, perdem-se com esta doença neurodegenerativa. Mas cientistas norte-americanos apresentaram, no congresso anual da Academia Americana de Neurologia, um estudo feito com macacos em que uma terapia genética foi usada para restabelecer essas ligações entre neurónios.
Os cientistas da Universidade da Califórnia em San Diego chegaram à conclusão que o processo normal de envelhecimento provoca uma diminuição em 28 por cento na densidade de algumas redes de células cerebrais - normalmente as ligações de neurônios colinérgicos, que se situam nas camadas mais interiores do cérebro. Pensa-se que estas células desempenham um papel determinante na memória e em outros processos mentais, que se degradam lentamente com o envelhecimento, mas de forma muito mais rápida quando surge a doença de Alzheimer - que está aliás associada a uma degradação especialmente notória deste tipo de neurônios.
Como todas as células cerebrais, estes neurônios comunicam entre si através de longas fibras, chamadas axônios, que servem de redes de transporte de impulsos nervosos. O que a equipe fez foi tentar repor a densidade das ligações dos neurônios colinérgicos com outras células das camadas superiores do cérebro dos macacos envelhecidos, transplantando células cerebrais geneticamente manipuladas de forma a produzirem uma proteína que promove o desenvolvimento dos axónios.
"Mostramos que conseguimos reverter as perdas de ligações neuronais relacionadas com a idade através com este fator de crescimento", disse Mark Tuszynski, investigador no Centro de Reparação Neuronal da Universidade da Califórnia e principal autor da comunicação, citado num comunicado da Academia Americana de Neurologia.
"Não seria correto dizer que podemos tratar os efeitos do envelhecimento normal. Mas não seremos muito atrevidos se dissermos que esta técnica poderá ser útil para o tratamento da doença de Alzheimer", afirmou o investigador.
O próximo passo, disse, será determinar se as funções mentais dos macacos foram também restabelecidas, ao serem repostas as redes neuronais. Se os resultados forem positivos, o objetivo é avançar para a fase de ensaios clínicos, para determinar se esta terapia pode ajudar a combater a doença de Alzheimer nos seres humanos, adiantou Tuszynski.
A doença de Alzheimer caracteriza-se por perda de memória, desorientação, depressão e deterioração de funções corporais em geral. Não existe cura para esta doença, que afeta cerca de dez por cento das pessoas com mais de 65 anos e metade dos indivíduos com mais de 85 e causa cerca de 100.000 mortes por ano. O tempo médio que decorre entre o diagnóstico e a morte é de oito a dez anos.
O sinal biológico mais evidente da doença de Alzheimer é a presença de placas de proteínas nas regiões do cérebro que controlam a memória e a aprendizagem - que não se sabe se serão causa ou consequência da doença, embora a primeira hipótese seja a que os cientistas consideram mais viável.
Fonte: Expresso - Portugal