Infecto-contagiosas/Epidemias - Hepatite C: transmissão entre casais
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Infecto-contagiosas/Epidemias

Hepatite C: transmissão entre casais

20/04/2007

 

 

Norma de Paula Cavalheiro

 

LIM 47 – FMUSP

 

Alter MJ et al. 1989 apresentaram o primeiro trabalho onde a possibilidade de transmissão sexual do HCV foi discutida, sendo evidenciados como fator de risco múltiplos parceiros sexuais. Porém, a contribuição da transmissão sexual do HCV permanece controversa. As informações que circulam variam muito e os números relatados estão entre 0% a 27%. Porém, a grande maioria dos estudos menciona porcentagens de transmissão sexual entre 0% a 3%. Os baixos índices relatados, associados com raros fatores de risco, sugerem que a transmissão sexual apresenta riscos mínimos ou mesmo inexistentes.(1,2) Agora, pensando sobre os pacientes que não pertencem a grupos de risco, mas são portadores do HCV e seus parceiros sexuais. Qual seria o risco de seus parceiros não concordantes serem infectados por via sexual? Esta questão deve ser considerada e avaliada cuidadosamente.(3) A comparação entre parceiros sexuais com outros familiares moradores do mesmo domicílio, tendo um portador do HCV com referência, mostra que o contato familiar é um fator importante na discussão da transmissão do HCV.(2) Outra população que nos gera grande curiosidade seria a que não apresenta fonte definida de aquisição do HCV, em média 30%-40% dos pacientes.(4) Os trabalhos que discutem populações específicas, como clínicas de doenças  sexualmente transmissíveis, atendimento a usuários de drogas, co-infectados com HIV, homossexuais e profissionais do sexo, mostram resultados que diferem da população em geral e os riscos de transmissão sexual para o HCV aumentam consideravelmente.(2) Vários aspectos devem ser considerados quando se discute a transmissão sexual do HCV, entre eles o tempo de convivência, DSTs associadas, número de relações sexuais, traumas durante a relação, compartilhar de utensílios de higiene pessoal, renda per capita, etc. A transmissão sexual veiculada pelas secreções sexuais nas doenças virais sugere que existe um potencial maior de transmissão no sentido homem-mulher. Certamente, traumas na mucosa durante o intercurso sexual aumentam os riscos da transmissão,

assim como altos níveis de viremia e a presença da partícula viral no sêmen.(5)

No Brasil, existem poucos relatos sobre a transmissão sexual do HCV e podemos citar Tengan FM et al. 2001, onde foram avaliados 154 doadores de sangue e seus parceiros sexuais. Nesta população, 11,76% dos parceiros foram considerados, atualmente ou previamente, infectados pelo HCV, sugerindo que a prevalência da infecção entre estes casais poderia ser atribuída, pelo menos em

parte, à transmissão sexual. Outro trabalho de Cavalheiro NP, 2004, agora com observações epidemiológicas respaldadas por análises de cunho virológico, PCR-HCV, genotipagem e análise filogenética do HCV, mostrou ao avaliar 24 casais, ambos com diagnóstico de infecção pelo HCV, que 22 deles apresentaram alta similaridade dentre suas cadeias genômicas, média de 98,3%. Os resultados sugerem que alta similaridade encontrada entre as cadeias genômicas do HCV pode dar suporte a hipótese de transmissão do HCV entre esses casais. Porém, os altos índices de compartilhamento de utensílios de higiene pessoal (lâmina de barbear, escova de dente,

cortador de unhas e alicate de manicure) relatados dificultaram a interpretação dos dados em relação à transmissão sexual do HCV. A hipótese do sentido mais provável de transmissão do HCV, de homem para mulher, foi reforçada nas conclusões deste trabalho.(6,7)

Recomendações

Segundo o CDC (Centro de Controle de Controle de Doenças americano), para parceiros sexuais estáveis, heterossexuais monogâmicos, não seriam necessárias alterações em seus hábitos e o uso de barreira de proteção (condom) deve ser discutido entre os parceiros.(8)

O compartilhar de utensílios de higiene pessoal merece destaque. O questionamento isolado, do marido separadamente da esposa, mostrou que se um deles tem o cuidado de não compartilhar seus utensílios para evitar os riscos de transmissão, não necessariamente o seu par assume a mesma postura. Sendo crucial expor os riscos para o casal em uma única entrevista.(7) Para pacientes HCV positivo, não se pode, até o presente, distinguir claramente entre os que têm potencial de transmitir o HCV por via sexual ou não. Também, para relações de longa duração onde o caso índex claramente apresenta uma baixa viremia e cônjuge discordante, não se pode afirmar que a infecção não será transmitida no futuro.(9)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

1. Alter MJ, Coleman PJ, Alexander WJ, Kramer E, Miller JK, Mandel E, Hadler SC, Margolis HS. Importance of heterosexual activity in the transmission of

hepatitis B and non-A, non-B hepatitis. JAMA 1989;262:1201-15.

2. Memon MI, Memon MA. Hepatitis C: an epidemiological review. J Viral Hepat 2002;9:84-100.

3. Zylberberg H, Thiers V, Lagorce D, Squadrito G, Leone F, Berthelot P, Brechot C, Pol S. Epidemiological and virological analysis of couples infected with

hepatitis C virus. GUT 1999;45:112-6.

4. Flamm SL. Chronic hepatitis C virus infection. JAMA 2003;289:2413-7.

5. Cassuto NG, Sifer C, Feldmann G, Bouret D, Moret F, Benifla JL et al. A modified RT-PCR technique to screen for viral RNA in the semen of hepatitis C

virus-positive men. Hum Reprod 2002;17:3153-6.

6. Tengan FM, Eluf-Neto J, Cavalheiro NP, Barone AA. Sexual transmission of hepatitis C virus. Rev Inst Med Trop São Paulo 2001;43:133-7.

7. Cavalheiro NP, Hepatite C: transmissão entre casais. Tese Doutorado. Universidade de São Paulo. Faculdade de Medicina. Departamento de Moléstias

Infecciosas e Parasitárias. 2004.

8. Recommendations for Prevention and Control of Hepatitis C Virus (HCV) Infection and HCV-Related Chronic Disease. MMWR October 15,

1998;47(RR19):1-39. http://www.cdc.gov/MMWR/preview/mmwhtm/00055154.htm

9. Rooney G, Gilson RJ. Sexual transmission of hepatitis C virus infection. Sex Transm Infect 1998;74:399-404.

 

http://www.infectologia.org.br/anexos/SPI_II%20Consenso%20tratamento%20hepatite%20C%202004.pdf

 

 


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