Agência FAPESP – O arqueólogo e explorador norueguês Thor Heyerdahl (1914-2002) é particularmente lembrado pela expedição Kon-Tiki. Foi em 1947, quando junto com outros cinco companheiros cruzou 7 mil quilômetros pelo Pacífico, do Peru à Polinésia, em uma jangada rústica na qual um dos únicos sinais de modernidade era um rádio. Até mesmo a base da alimentação foram peixes capturados no caminho.
Depois de 101 dias de viagem, a Kon-Tiki chegou às ilhas Tuamotu, reforçando a teoria de Heyerdahl de uma colonização sul-americana na Polinésia anterior à migração a partir do continente asiático. O feito do norueguês também colocou em evidência a hipótese de que, muito antes das grandes navegações feitas pelos europeus a partir do século 15, outros povos cruzaram os oceanos.
Entretanto, evidências posteriores à expedição – particularmente na forma de análises genéticas – mostraram que a Polinésia foi colonizada por grupos que se deslocaram no sentido contrário, vindos do sudeste asiático. A pergunta então passou a ser outra: será que esses primeiros polinésios continuaram a navegar até chegar à América do Sul?
Um novo estudo, feito a partir de datação por carbono e da análise de DNA de 12 ossos antigos, destaca evidências de que os polinésios teriam sido os primeiros a introduzir frangos na América do Sul. Os resultados da pesquisa, feita no sítio arqueológico de El Arenal, no Chile, serão publicados esta semana no site e em breve na edição impressa da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas).
Segundo o estudo, feito por pesquisadores da Nova Zelândia, Austrália, Chile, Canadá e Estados Unidos, aves descendentes de linhagens polinésias foram introduzidas no Chile pelo menos um século antes da descobrimento da América por Cristóvão Colombo, em 1492.
O debate sobre a origem dos frangos no continente é antigo. Há diversas hipóteses, sendo que a mais comum até o momento sugere que as aves domesticadas teriam sido trazidas por espanhóis e portugueses no período de colonização. Entretanto, documentos indicam que quando o conquistador espanhol Francisco Pizarro chegou ao atual Peru, em 1532, teria encontrado frangos no local, inclusive como parte de cerimônias religiosas.
Galináceos à parte, o principal ponto do novo estudo, coordenado pela neozelendeza Alice Storey, do Departamento de Antropologia da Universidade de Auckland, é reforçar que o contato entre a Polinésia e a América do Sul é anterior à chegada dos europeus.
Segundo os pesquisadores, os resultados das análises feitas por eles “fornecem a primeira evidência inequívoca para uma introdução pré-européia de frangos na América do Sul e indicam, por evidência de DNA antigo, que a origem mais provável da introdução foi a Polinésia”.
Os cientistas destacam que o estudo não sugere que a região de El Arenal, ou mesmo o Chile, teria sido o ponto de entrada dos frangos no continente. Segundo eles, mais estudos serão necessários para descobrir e examinar eventuais pontos de contato entre polinésios e sul-americanos.
O artigo Radiocarbon and DNA evidence for a pre-columbian introduction of polynesian chickens to Chile, de Alice Storey e outros, poderá ser lido em breve por assinantes da Pnas em www.pnas.org.
http://www.agencia.fapesp.br:80/boletim_dentro.php?id=7252
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