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Alergia ao látex

12/11/2007

Revista Brasileira de Anestesiologia

Rev. Bras. Anestesiol. v.53 n.5 Campinas set./out. 2003

 

EDITORIAL

 

 

 

Latex allergy

 

 

Maria Anita Costa Spíndola Bez Batti, TSA

Membro do Comitê de Saúde Ocupacional da SBA e Membro do NARTAD HU UFSC

Endereço para correspondência

 

 

Somente nas últimas duas décadas é que a alergia ao látex, IgE mediada, mereceu atenção como um problema de saúde clínico e ocupacional 1,2.

É de particular interesse para o anestesiologista, como profissional que poderá deparar-se com reações de gravidade variável no período perioperatório ou como paciente, por também sermos nós profissionais de risco para o desenvolvimento de alergia ao látex como doença ocupacional 3,4.

A alergia ao látex pode manifestar-se como eczema, urticária, simples rinite ou conjuntivite, angioedema, asma e até choque anafilático.

Nas reações intra-operatórias há que se destacar o aspecto mais característico que é o início de ação mais retardado, o qual pode ser explicado pelo tempo para o contato entre superfícies internas, membranas mucosas e as luvas do cirurgião 5.

Além das mucosas, a absorção do látex dá-se através do trato respiratório e até mesmo da pele íntegra. A absorção dos alergenos do látex pelo trato respiratório, veiculados através do pó lubrificante das luvas, não deve ser subestimada, quer como via de sensibilização, quer como forma de desencadear uma anafilaxia 6. Eckout e Ayad 6 relataram o caso de uma primigesta de 32 semanas, ao lado da qual a enfermeira descalçou luvas de látex e, em minutos, a paciente apresentou urticária generalizada, dispnéia rapidamente progressiva e hipotensão arterial com conseqüente bradicardia fetal.

Após a promulgação das Precauções Universais em 1987, para prevenir a disseminação do HIV, verificou-se um aumento expressivo da exposição ao látex em pacientes e profissionais de saúde. O aumento da demanda por luvas e outros produtos contribuiu para alterar as práticas de colheita do látex e manufatura dos produtos levando a uma alteração do conteúdo protéico e da alergenicidade das luvas 1,7.

Estima-se que a incidência de alergia ao látex seja maior em países como EUA 7 e França 8, que usam luvas com pó, do que no Reino Unido, que além de adotar luvas sem pó estabeleceu, por seu Department of Health orientações para que somente sejam adquiridas luvas que obedeçam especificações definidas e sejam manufaturadas de acordo com padrões de qualidade estabelecidos 7.

A alergia ao látex é a principal causa de reações anafiláticas intra-operatórias em crianças 5,8.

Para um grupo de 467 pacientes estudados, com idades entre 1 e 90 anos, (com aproximadamente 11% até os 20 anos, estudados pelo GERAP (Group d’ Etudes de Réactions Anaphylactoides Peranesthésiques) que apresentaram reações alérgicas entre janeiro de 1997 e dezembro de 1998, o látex foi responsável por 12,1% (59 casos), sendo suplantado apenas pelos bloqueadores neuromusculares (n = 336; 69,2%) 9.

Embora não se tenham estatísticas brasileiras os grupos de alto risco estão bem definidos: o denominador comum é a freqüente exposição ao látex 3.

Nesse grupo estão incluídos pacientes com Spina bífida, que requerem múltiplas cirurgias e freqüente cateterização vesical, bem como outros pacientes (cirurgias ortopédicas por problemas congênitos, paralisia cerebral) submetidos à exposição precoce ao látex 10, e os profissionais de saúde (médicos, dentistas, enfermeiros).

Diante da importância do problema a Sociedade Americana de Anestesiologia (ASA), através do 1997 Annual Meeting Resolution nº 17 e considerando que:

· Aproximadamente 8% da população em geral é alérgica ao látex e sujeita a reações perioperatórias graves;

· 20% dos anestesiologistas desenvolvem sensibilidade ao látex, tornando-se vulneráveis a reações alérgicas, quer como pacientes, quer como profissionais;

· O alerta do National Institute of Occupational Safety and Health a respeito da exposição ocupacional aos produtos de látex resolveu criar um comitê para formular e publicar recomendações para proteger os anestesiologistas da exposição ao látex 11.

Holzman (Harvard Medical School) e Katz (Yale University School of Medicine) 11 sugerem como medidas adicionais:

1) Evitar o uso de luvas com pó e produtos com alto conteúdo antigênico por pacientes e profissionais;

2) Rotular os produtos de látex natural;

3) Pesquisar produtos alternativos;

4) Reafirmar o papel das instituições em dar suporte e aconselhamento para a readaptação profissional.

Embora não tenhamos no Brasil uma epidemia de alergia ocupacional ao látex 12 nem estatísticas de pacientes com alergia ao látex o problema requer algumas reflexões: do que foi citado anteriormente, o que se aplica a nossa realidade? O que pode ser aproveitado? O que precisa ser modificado? Qual a conduta da SBA?

Não são conhecidas, até o momento, orientações ou esclarecimentos ditados pela SBA com relação a luvas com pó, que proporcionam altos níveis de aeroalergenos nos ambientes cirúrgicos. Já está claro que as luvas sem pó e aquelas rotuladas de baixa proteína (menor conteúdo antigênico) são efetivas em reduzir os níveis de aeroalergenos da proteína do látex a níveis comparáveis aos dos dias sem cirurgia 8.

Quantos são os hospitais no Brasil nos quais os anestesiologistas opinam sobre o tipo e a qualidade das luvas a serem utilizadas?

Outra questão a ser abordada diz respeito à necessidade de se organizar uma lista mínima de materiais e equipamentos isentos de látex (luvas, material para via aérea, equipamento intravenoso, de monitorização, para bloqueios, entre outros) e manter-se um estoque mínimo destes materiais para emergências de pacientes alérgicos.

Em virtude dos pacientes atendidos pelo NARTAD-HU-UFSC (Núcleo de Avaliação de Reações do Tipo Alérgico a Drogas - Hospital Universitário - Universidade Federal de Santa Catarina) há aproximadamente três anos temos sistematicamente procurado esse material nas feiras dos Congressos e Jornadas. A busca não tem sido fácil. A dificuldade começa pela leitura dos rótulos, extremamente inadequados, por não trazerem informações precisas sobre os materiais utilizados nos produtos ou equipamentos. Muitos produtos, embora de utilização em ambiente hospitalar, estão isentos de registro no Ministério da Saúde (p. ex.: bolsas de colostomia, urostomia), o que dificulta o controle.

A firma que comercializa um sistema de Bain latex-free o traz com um balão de látex. O balão de silicone (outra marca, outra distribuidora) não se adapta perfeitamente ao sistema, requerendo adaptações intermediárias.

As luvas sem látex (vinil, neoprene) não são fabricadas no Brasil, sendo importadas por uma distribuidora que nem sempre as tem para pronta entrega. Outra empresa, que comercializa produtos para pessoas alérgicas, oferece luvas sem qualquer indicação de material, marca ou procedência; no rótulo consta apenas o nome e endereço da firma que esteriliza o produto com o óxido de etileno.

Talvez ainda não seja o momento de questionar o papel das instituições em dar apoio e aconselhamento para a readaptação profissional e sim entender melhor a alergia ao látex.

A veracidade do diagnóstico como doença ocupacional chega a ser questionada mesmo por profissionais da área médica, por não entenderem a variabilidade do quadro clínico 3. Em alguns dias os alérgicos poderão estar bem, em outros apenas com rino-conjuntivite e em outros com crise de asma. Outros poderão desenvolver sinusite secundária 4.

O quadro clínico é influenciado por diversos fatores (além da resposta individual), tais como: lote de luvas utilizadas por todos no ambiente, com maior ou menor carga antigênica 1, condições de ventilação. Deve ser entendido que o tratamento do profissional afetado não se resume a que apenas ele deixe de usar luvas isentas de látex.

Dos doze pacientes com alergia ao látex atendidos pelo NARTAD, com diagnóstico baseado em história clínica, testes cutâneos positivos a dois extratos comerciais diferentes (um nacional e outro francês) e IgE específica para o látex 13,14, três são médicos, duas enfermeiras e uma outra, que apresentou choque durante cirurgia, havia sido funcionária da limpeza em um hospital.

Dos três médicos (naturais de outros estados, apenas dois residindo em SC) o que era obstetra teve que abandonar a especialidade. Quanto ao anestesiologista, em tratamento constante sob os cuidados de um alergista, trabalhava utilizando máscaras denominadas respiradores, tipo mergulhador, com lente, diafragma especial de voz (que permite a comunicação sem retirar a máscara), capa nasal e filtros. O patologista conseguiu adaptar a área de trabalho e continua na especialidade. Das duas enfermeiras, uma foi transferida para serviços burocráticos e outra, de diagnóstico recente, está avaliando a possibilidade de aposentadoria pela piora progressiva do quadro. Esses números não são expressivos como os de Brown e col. 15, mas é angustiante lidar com colegas nossos e não apenas com estatísticas impessoais.

Diante do exposto cabe a pergunta: quais as estratégias que podem ser adotadas pela SBA? Listamos a seguir, algumas sugestões.

A Diretoria Científica e a Comissão de Saúde Ocupacional poderiam:

· Introduzir o tema, sob seus diversos aspectos, em jornadas, congressos;

· Esclarecer o risco ao qual estão sujeitos profissionais com alergia ao látex e que continuam trabalhando;

· Estimular a comprovação diagnóstica dos casos suspeitos, segundo normas estabelecidas 13,14;

· Orientar para a adoção de luvas sem pó e de baixa proteína. Esta medida que pode ser justificada em bases clínicas e não requer a documentação dos níveis de aero-alergenos da proteína do látex 1;

A Comissão de Normas Técnicas desempenharia importante papel junto ao Ministério da Saúde, solicitando a padronização dos rótulos de inúmeros produtos empregados em anestesia e cirurgia 7,16 (Anexo 1).

Os rótulos deverão conter:

1) Especificação dos materiais utilizados em todos os componentes do produto.
Exemplo: Ressuscitador manual (Ambu):

· Material da ampola;

· Material da válvula.

2) Utilizar na embalagem expressões claras:

· Com látex natural;

· Sem látex natural.

* Existe látex sintético, que não contém as proteínas naturais, imunologicamente ativas, desencadeantes da alergia.
Em algumas situações o produto em si não contém látex mas a embalagem, ou o processo da embalagem, não é isento e deve conter o aviso:
Atenção: A embalagem desse produto contém látex natural que pode causar reações alérgicas.

3) Banir o equívoco termo hipoalergênico em produtos contendo látex. No Brasil o termo é utilizado para luvas de látex (e em alguns esparadrapos), processados de forma diferente do habitual com relação aos aditivos químicos, responsáveis pela reação tipo IV, célula mediada. Esses produtos não apresentam diminuição de risco para o desencadeamento de uma reação do tipo I, IgE-dependente;

4) Estabelecer critérios para que os produtos contendo látex ostentem no rótulo a expressão baixa proteína.

O FDA permite a utilização do termo baixa proteína para luvas que contenham menos que 50 µg/g, com métodos de controle estabelecidas pela American Society of Testing and Materials (ASTM D5712) 1.

As sugestões aqui apresentadas constituem-se apenas numa proposta inicial do trabalho a ser realizado pela SBA.

Contribuições serão muito bem aceitas.

Atenciosamente.

 

Maria Anita Costa Spíndola Bez Batti

 

REFERÊNCIAS

01. Meade BJ, Weissman DN, Beezhold DH - Latex allergy: past and present. International Immuno-pharmacology, 2002;2:225-238.

02. Kam PCA, Lee MSM, Thompson JF - Latex allergy: an emerging clinical and occupational health problem. Anaesthesia, 1997;52:570-575.

03. Zucker-Pinchoff B, Stadmauer GJ - Latex allergy. The Mountsinai Journal of Medicine 2002;69:88-95.

04. Kelly KJ, Walsh-Kelly CM - Latex allergy: a patient and health care system emergency. Ann Emerg Med, 1998;32:723-729.

05. Murat I - Anaphylactic reactions during paediatric anaesthesia; results of the survey of the French Society of Pediatric Anaesthetists (ADARPEF) 1991-1992. Paed Anaesth, 1993;3: 339-343.

06. Eckout GV, Ayad S - Anaphylaxis due to airborne exposure to latex in a primigravida. Anesthesiology, 2001;95:1034-1035.

07. Dakin MJ, Yents SM - Latex allergy: a strategy for management. Anaesthesia, 1998;53:774-781.

08. Murat I - Latex allergy: where are we? Paed Anaesth, 2000;10: 577-579.

09. Laxenaire MC, Mertes PM - Anaphylaxis during anaesthesia. Results of a two-year survey in France. Br J Anaesth, 2001;87: 549-564.

10. Burrow GH, Vicent KA, Krajbich JI et al - Latex allergy in non-spina bifida patients: unfamiliar intraoperative anaphylaxis. Aust NZJ Surg, 1998;68:183-185.

11. Holzman RS, Katz JD - Occupational latex allergy: the end of the innocence. Anesthesiology, 1998;89:287-289.

12. Hunt LW, Fransway AF, Reed CE - An epidemic of occupational allergy to latex involving health care workers. Journal of Occupational and Environmental Medicine, 1995;37:1204-1209.

13. Prévention du risque allergique peranesthésique. Ann Fr Anesth Réanim, 2001;20:56-69.

14. Mertes PM, Laxenaire MC - Allergic reactions occurring during anaesthesia. Eur J Anaesthesiol, 2002;19:240-262.

15. Brown RII, Schauble JF, Hamilton RG - Prevalence of latex allergy among anesthesiologists. Anesthesiology, 1998;89:292-299.

16. Allarcon JB, Malito M, Linde H et al - Alergia ao látex. Rev Bras Anestesiol, 2003;3:97-113.

 

 

Endereço para Correspondência
Rua Frei Caneca, 180/1001 Bloco B
88025-000 Florianópolis, SC

 

Sociedade Brasileira de Anestesiologia

 

 

 

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