Notícias da Dra. Shirley - Cnen esclarece sobre efeitos da radiação natural na Amazônia
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Notícias da Dra. Shirley

Cnen esclarece sobre efeitos da radiação natural na Amazônia

20/06/2003



Equipe da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) esteve em Monte Alegre, Pará, de 9 a 13 de junho. Moradores viviam assustados, crendo que o urânio do subsolo aumentava os casos de câncer na cidade

Luís Machado, da Cnen, informa:

Uma equipe da Cnen pôde levar uma boa notícia aos moradores de Monte Alegre, município localizado no Baixo Amazonas, interior do Pará.

Os níveis de radiação natural da cidade são semelhantes aos registrados em várias outras regiões do Brasil e do Mundo e não podem ser considerados a causa de um suposto aumento dos casos de câncer.

Há vários anos havia o medo de que o urânio do subsolo emitisse um nível de radiação capaz de provocar a doença.

Estudo da Cnen, que comparou as medidas da radioatividade natural da cidade com recomendações internacionais do setor nuclear, mostrou que não há motivos para a preocupação.

Equipe do Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD) da Cnen esteve em Monte Alegre de 9 a 13 de junho.

Os técnicos apresentaram suas conclusões, realizaram novas medidas e discutiram o assunto em reunião pública com mais de 400 pessoas, entre lideranças políticas, religiosas, empresariais, professores, estudantes e demais segmentos.

O verdadeiro pânico que se instaurou na cidade fez muita gente literalmente perder o sono. A irmã Márcia Fernandes, que trabalha na escola Imaculada Conceição, em Monte Alegre, esteve na reunião pública.

Após as palestras dos técnicos do IRD, comentou que sua congregação chegou a pedir que fosse embora da cidade em razão do medo de que ela desenvolvesse algum tipo de câncer.

'Agora sei que não tenho motivos para sair daqui. Fico muito mais tranqüila e vou voltar a dormir em paz', disse.

A diretora da Escola Municipal Orlando Costa, Mary Leal, ficou triste ao lembrar episódios em que visitantes de fora da cidade evitavam apertar as mãos dos montealegrenses.

'Era bastante triste. E tudo por causa da boataria do câncer. Vou conversar com os meus alunos para colocar um ponto final nisto'.

Para entender como o assunto tomou estas dimensões é preciso saber que o urânio é uma fonte radioativa natural da crosta terrestre, assim como o tório e o potássio.

O homem sempre conviveu com níveis naturais de radiação decorrentes destes elementos. Daí a origem do termo radioatividade natural.

Há regiões que apresentam maior concentração de urânio, como ocorre a 20 quilômetros do centro de Monte Alegre, na área abrangendo a comunidade Inglês de Souza.

Casas, ruas, calçadas e outras obras da cidade utilizaram rochas e terra do local. Foi o que bastou para alimentar a idéia de que os habitantes vinham sendo vítimas fatais da radiação.

O medo da população aumentou quando jornais, TVs e a imprensa em geral, baseados em estudo imprecisos realizados por instituições de pesquisa do Norte do país, passaram a dar destaque aos níveis de radiação da cidade e apontá-los como causas de câncer.

A Câmara de Vereadores de Monte Alegre encaminhou um pedido à Cnen para que visitasse a cidade e esclarecesse os moradores.

'Sempre houve um pânico na população e a cidade sofreu prejuízos', disse o prefeito de Monte Alegre, Jardel Vasconcelos.

A Cnen, integrante do Ministério da C&T, é o órgão responsável no Brasil pela regulamentação e controle do setor nuclear. O IRD, com mais de trinta anos de atuação, é o centro de referência brasileiro na proteção das radiações.

Tem seus trabalhos reconhecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea). Foi por esta experiência que conseguiu a confiança da população de Monte Alegre e pôde resolver dúvidas e medos que existiam.

As conclusões que a Cnen apresentou na cidade resultaram de medições feitas em 95 da radiação encontrada em alimentos, solo e água e dos níveis do radônio, gás radioativo resultante do urânio.

As unidades de medida de radiação são pouco difundidas e ninguém é obrigado a conhecê-las.

Para uma análise mais genérica, basta saber que a Comissão Internacional de Proteção Radiológica recomenda intervenção em casos onde a concentração média de radônio se encontre na faixa de 200 a 600 Bq/m³ (Bequeréis por metro cúbico).

Em 33 residências da zona urbana de Monte Alegre constatou-se uma concentração média de 75 Bq/m³. Os valores ficaram entre 22 e 188 Bq/m³.

Em 19 casas da comunidade Inglês de Souza a concentração média ficou em 116 Bq/m³. A variação foi de 40 a 338 Bq/m³.

O responsável pelas medidas realizadas em 1995, Vicente Melo (mestre em biofísica ambiental), explica que um cálculo onde são considerados os níveis do radônio e os da radiação registrada no solo, água e alimentos permite estimar a dose anual de radiação de uma população.

A unidade usada é o Sievert. Em Monte Alegre foi calculada uma dose de 3,1 miliSievert por ano (mSv/ano).

O Comitê Científico das Nações Unidas Sobre Efeitos da Radiação estima que a dose média mundial esteja em torno de 2,4 mSv/ano. 'A cidade está bastante próxima da dose média mundial', observa Melo.

Para o coordenador da equipe da Cnen em Monte Alegre, Horst Monken Fernandes (doutor em geoquímica ambiental), 'os valores médios de radiação natural em Monte Alegre são compatíveis com os de outras cidades no Brasil. Não há evidências científicas que permitam associá-los a um aumento dos casos de câncer'.

Além de apresentar as avaliações, a equipe da Cnen aproveitou a viagem para coletar amostras. Entre elas estão água e sedimento de rios, água de poços, solos e também frutas, legumes e grãos da região. Todas serão analisadas pelo IRD para reforçar as conclusões do laudo que será emitido sobre a situação da cidade.

A Cnen não pode afirmar que a incidência de câncer na cidade esteja aumentando ou diminuindo.

Não existem estudos na região que possam demonstrar de forma científica alguma variação. Integrante da equipe da Cnen em Monte Alegre, Lene Holanda Veiga (doutoranda em epidemiologia do câncer), publicou um estudo comparativo entre a taxa de mortalidade por câncer na região de Monte Alegre e a do estado do Pará.

Ela concluiu que 'a taxa de mortalidade por câncer em Monte Alegre não é maior que o padrão estadual '. A pesquisadora observa, porém, que existe a necessidade de se avaliar a incidência do câncer, uma vez que a mortalidade não é um bom indicativo.

É importante ressaltar que o câncer já é a terceira causa de mortes no Brasil (12,32% dos óbitos). Há vários fatores que precisam ser levados em consideração quando se procura entender um possível aumento de casos em determinada região.

As mudanças no mundo moderno e nos hábitos das pessoas podem estar relacionadas à doença.

Entre elas se destacam o tabagismo, consumo de álcool, envelhecimento da população, alimentação, medicamentos, fatores ocupacionais, hábitos sexuais e exposições ambientais.

 

Jornal da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência


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