Infecto-contagiosas/Epidemias - Doença de Chagas e transmissão oral
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Infecto-contagiosas/Epidemias

Doença de Chagas e transmissão oral

28/04/2008

Edição 42 - Janeiro/Fevereiro/Março de 2008

MEIO AMBIENTE (SM pág. 15)


Doença de Chagas e transmissão oral. Total descaso das autoridades com o meio ambiente e a saúde

Doença de Chagas

Transmissão por via oral nunca foi investigada com profundidade e evidencia negligências nas ações ambientais e de saúde no país

A transmissão por ingestão, identificada como causa dos últimos surtos de Doença de Chagas Aguda (DCA), nunca foi investigada com profundidade até a sua recente incidência no país. Embora o Brasil tenha conquistado em 2006 o certificado de interrupção da transmissão vetorial e transfusional pelo Triatoma infestans, pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), não há clima para comemoração. Entre maio de 2005 e agosto de 2006, foram registrados 15 surtos da doença nos Estados do Pará, Amazonas e Amapá, pelo consumo de suco de açaí. Lidar com a transmissão oral é a nova preocupação do Ministério da Saúde. De acordo com o Instituto Evandro Chagas, de 1968 a 2005 registrou-se o aumento de 867% dos casos na região. A subnotificação é apontada como uma das razões para esse aumento, visto que desde 2005 passou a ser feito um exame de rotina para a detecção de Chagas, junto com a malária. Outro fator que pode ter provocado a explosão de casos por ingestão é o desmatamento.

Tradicionalmente a Doença de Chagas era transmitida pelo Triatoma infestans (barbeiro), que elimina em suas fezes o parasita Trypanossoma cruzi. A excreção entra em contato com a corrente sangüínea pelo orifício da picada ou por alguma ranhura epidérmica. Outra forma de transmissão era por transfusão de sangue contaminado. Ao mesmo tempo em que o Brasil caminhava para erradicar os casos de doença de Chagas por picada e por via transfusional, iniciavam os focos por via oral. O primeiro apareceu em Santa Catarina, em 2005, ocasião em que se registraram 24 pessoas infectadas, contabilizando três óbitos. Nesse episódio, turistas de um balneário catarinense contraíram a doença devido ao consumo de caldo de cana-de-açúcar. Após essa ocorrência, muitos casos de contaminação por ingestão continuaram a ser diagnosticados na região Norte do país.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Parasitologia, casos como esses haviam sido registrados anteriormente, mas sem maiores investigações. Há registros na literatura   brasileira de surtos epidêmicos por via oral nas cidades de Teutônia (Rio Grande do Sul) e Catolé do Rocha (Paraíba). O primeiro caso foi descrito na década de 1960, quando alunos e professores de um curso de Agronomia adquiriram a doença após a ingestão de alimentos contaminados. O segundo, na década de 1980, atribui-se à contaminação por consumo de caldo de cana infectado com fezes de barbeiro.

O médico Abilio Augusto Fragata Filho, doutor em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo, e chefe do Setor de Miocardiopatias do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, acrescenta que as contaminações por via oral refletem, ainda, a falta de higiene no armazenamento, manuseio e preparo dos produtos e descuidados básicos como a lavagem e a inspeção dos alimentos. Outra hipótese é a de que os alimentos podem ter sido contaminados pela urina de mamíferos que se encontravam na fase aguda da doença.  

De hábitos noturnos, o barbeiro é encontrado em quase todos os países da América do Sul. Tradicionalmente, o inseto costuma procurar habitações humanas para se alocar, principalmente casas de pau-a-pique. Ele se instala em locais em que se encontra protegido de predadores (insetos maiores e aves). Investigações realizadas pela Fundação Oswaldo Cruz – FioCruz, estabeleceram uma relação entre os casos ocorridos na região Norte e o desmatamento. A ausência de predadores, ocasionada pelo desequilíbrio ambiental, teria possibilitado a mudança de hábitos do inseto que passou a se alojar em cachos de açaí.

O pesquisador titular da Fundação FioCruz, João Carlos Dias Pinto, relata que nos últimos cinco anos surgiram entre 50 e 100 novos casos da doença no Brasil, em sua grande maioria na região amazônica. “Não obstante a progressão desses indicadores, a doença de Chagas ainda mata mais no Brasil que a malária e a dengue. São quatro mil mortes ao ano”, diz o pesquisador.  Membro do Comitê de Doenças Parasitárias da Organização Mundial da Saúde, Dias Pinto destaca que o “problema básico é que a doença ocorre em regiões rurais e pobres, acometendo pessoas humildes, o que lhe condiciona baixa demanda social e baixa prioridade política”. Dias Pinto alerta que é preciso estimular o esclarecimento definitivo sobre os mecanismos de transmissão da doença e o aprimoramento de sua abordagem e prevenção. 

Etiologia

A Doença de Chagas localiza-se na América Latina, apesar de haver casos descritos na Europa e nos Estados Unidos. Carlos Chagas, dois anos após descrever a doença, em 1909, aventou também a possibilidade de transmissão por via transplacentária. A suspeita foi posteriormente confirmada pelo pesquisador venezuelano L. Dao, em 1949 – mas são raríssimos os casos, estima-se que ocorra em apenas 1% das gestações de mulheres enfermas.

A enfermidade é dividida em duas fases, aguda e crônica. No estágio agudo, são predominantes os quadros inflamatórios e a intensa parasitemia, apesar da baixa demonstração sintomática. Com duração de 8 a 10 semanas, o processo inflamatório e a parasitemia regridem, apesar de perenes. Tem início a fase crônica, que se estabelece por toda a vida do paciente. Em 70% dos casos apresentam apenas exames de sangue positivos, sem outra manifestação. Os demais infectados sofrerão comprometimento cardíaco e/ou do aparelho digestivo (megacolon e/ou megaesôfago).
 
De apresentação muito diversificada, a cardiopatia vinculada à Doença de Chagas reflete desde uma ligeira anormalidade eletrocardiográfica a sérias arritmias e cardiomegalia, onde se caracteriza a insuficiência cardíaca congestiva. Quanto a esse último quadro, vale salientar que sua peculiaridade consiste em estágios mais avançados, em que o comprometimento direito é mais nítido e proeminente. Nessa cardiopatia apenas 10% dos enfermos se encontram em estado grave, com menos chances de sobrevida. Recursos mais sofisticados são aconselháveis a esses pacientes, inclusive o transplante de coração.

Nos casos agudos da doença, o tratamento parasiticida é efetuado com Benznidazol, composto só fornecido atualmente pelas secretarias estaduais de saúde. O tratamento parasiticida da fase crônica causa muita controvérsia no campo científico. Em todo caso, a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da  Saúde autorizam o tratamento, se houver acompanhamento dos pacientes tratados.

Segundo Fragata, uma pesquisa envolvendo vários países da América Latina, incluindo o Brasil, está em curso. O estudo é multicêntrico, prospectivo, duplo-cego, randomizado e controlado por placebo. Seus resultados são esperados até 2012 e buscam avaliar as vantagens do tratamento etiológico da Doença de Chagas nos doentes com a cardiopatia já instalada.

 

 

Fonte:

 

http://www.cremesp.com.br/?siteAcao=Revista&id=348

 

 

 


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