As células-tronco pluripotentes são imortais: elas não sofrem perda de telômeros e produzem telomerase continuamente. Mas, no momento em que
começam a se diferenciar, tornam-se mortais. Alterar o gene da produção da telomerase - deixando-o ativado - poderia também tornar as células dos tecidos imortais. Os tecidos que combinam precisamente com os de seus receptores poderiam ser cultivados e transplantados, e, então, permanecer jovens para sempre.
“Estamos perto de transferir as características imortais das células-tronco para nossos corpos e eliminar, essencialmente, o envelhecimento,\" diz West. “Isto soa espetacular, mas acredito que esses são os fatos.”
Antes disso tudo acontecer, alguém precisará decodificar os sinais químicos que dizem para as células-tronco se diferenciar em tecidos específicos - um resultado, afirma William Haseltine, que a Human Genome Sciences vem perseguindo. Outros laboratórios dos EUA já conseguiram progressos. Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington orientaram as células-tronco de camundongos para a produção de neurônios. Outros laboratórios estão tentando orientar células-tronco humanas para produzir células do coração. Vítimas de ataques cardíacos poderiam receber, em breve, remendos de tecido para consertar o músculo cardíaco danificado e, como os remendos conterão o próprio DNA do paciente (graças à transferência nuclear), seus corpos não os rejeitariam.
West, Haseltine e Harley concordam em que a prática eticamente atacada de colher células-tronco de embriões acabará se tornando desnecessária. Uma vez decodificados os sinais adequados, nossas próprias células serão reprogramadas para voltar a ser troncos, e depois reprogramadas para se transformar nos tecidos que quisermos.
Os remendos são apenas o começo. \"Eu ficaria espantado se em 50 anos não formos capazes de construir estruturas em 3-D em escalas úteis para tecidos mais complexos e os rudimentos de sistemas orgânicos,\" diz Donald Ingber, professor da Escola de Medicina de Harvard e membro do Centro de Engenharia Biomédica do MIT.
Ingber criou sua própria empresa, a Molecular Geodesics, para modelar a arquitetura que poderia tornar possível tais substituições de órgãos e tecidos. Ele pretende usar a estrutura básica de tensão e flexibilidade existente em células e tecidos para criar uma espécie de modelo com que desenvolver tecidos novos. Uma equipe do Scripps Research Institute em San Diego, já está usando a arquitetura de colágeno em 3-D a fim de desenvolver novas ilhotas pancreáticas para pacientes de diabetes. Os primeiros transplantes poderão acontecer de três a cinco anos.
Se Ingber estiver certo, poderemos acumular reservas para uma revisão mais tarde em nossas vidas. Nossos novos órgãos serão produzidos do mesmo modo como a Ford produz virabrequins. Eles terão a telomerase permanentemente ativada para uma juventude eterna. Dessa maneira, diz Haseltine, nossos corpos vão se renovar perpetuamente.
Na verdade, por que não poderiam melhorar? \"Se podemos imaginar meios de melhorar a arquitetura,\" argumenta Ingber, \"poderemos obter propriedades melhoradas, como retardar o envelhecimento ou tecidos com funções que nunca possuiram antes. Precisamos começar agora para chegar lá, e o que estamos fazendo agora é tomar a iniciativa nessa direção.\"
Para encontrar-se um adepto potencial dessas mudanças revolucionárias, basta deter-nos em Natasha Vita-More. Ela e o marido, Max More, são de meia-idade – e já gastaram longas horas malhando e engolindo suplementos alimentares para tentar estancar o processo de envelhecimento. Se tudo o mais falhar, eles também se inscreveram na preservação criônica. Para alguns, isso pode beirar a obsessão, mas Vita-More diz que ela e marido estão simplesmente na vanguarda, fazendo o que podem para antecipar o dia em que a imortalidade finalmente chegar. Ela acha que a imortalidade virá a tempo de salvá-la, pois espera viver para ver \"o corpo como arte, usurpando outras formas de arte.\"
\"Adoro moda,\" diz Vita-More. \"Nossos corpos serão o próximo grito da moda; vamos projetá-los com todos os tipos de combinações interessantes de textura, cores, tons e luminosidade.
Projetar um corpo? Pode ser possível. “Posso fazer qualquer coisa”, alardeia Kevin Montgomery. “Não somos limitados pelas restrições do mundo real.” Montgomery é um engenheiro de computação, e está-me contando isto metido num emaranhado de fios emendados com fita adesiva e entranhas de computadores num porão da National University. O recinto inexpressivo abriga o Centro Nacional de Biocomputação, um centro de pesquisa patrocinado pela Nasa que poderá trazer o tipo de revolução na cirurgia – especialmente na cirurgia plástica – que algum dia poderá realizar os sonhos de Vita-More.
A Nasa criou o centro porque antevê o dia em que os astronautas viajarão para Marte. É uma longa viagem e as acomodações, muito provavelmente, serão espartanas e acanhadas demais para levar um cirurgião de vôo. Seria possível, imaginou a Nasa, quantificar procedimentos médicos num programa de realidade virtual? E poderia um astronauta instruído com alguns procedimentos médicos básicos usar um tal programa para agir como médico a bordo de um vôo a Marte?
Independentemente do destino de uma missão a Marte, Montgomery e o Centro Nacional de Biocomputação já estão fornecendo resultados úteis para o domínio da cirurgia plástica. Depois de divertir-se com seus fios e comutadores, Montgomery acessa um programa mostrando como suas simulações de realidade virtual foram usadas para reconstruir o rosto de um menino, cujas feições foram devastadas pelo câncer. As simulações de Montgomery, baseadas em dados de imagens obtidas por computador, permitiram que cirurgiões imaginassem exatamente como era a estrutura óssea, como as modificações nos tecidos moles se ajustariam aos ossos, e como as alterações ficariam após a cirurgia. Como os médicos sabem previamente o que esperar, diz Montgomery, as cirurgias são realizadas com maior rapidez e, mais importante, com melhores resultados.
Com o aumento do poder da computação, o centro logo será capaz de trabalhar em rostos completos e Montgomery prevê que o projeto do corpo inteiro chegará em aproximadamente 25 anos – tempo justo, talvez, para uma setentona como Natasha Vita-More obter o levantador de soma final.
Mesmo agora, a tecnologia poderia permitir que cirurgiões plásticos obtenham implantes cosméticos sob medida. Dentro de duas décadas, acredita Haseltine, os implantes parecerão primitivos. A própria convergência de célula-tronco, imortalidade celular e tecnologias de engenharia genética que nos vai possibilitar uma recauchutagem com órgãos jovens, também vai eliminar os implantes. Criaremos nossos próprios acréscimos da mesma maneira como criamos nossos fígados. Os acréscimos serão nós mesmos. Serão reais. E graças a recursos de CAD como o de Montgomery, serão o que quisermos que eles sejam.
Aumentos de seios virão de células-tronco orientadas por sinais químicos e crescerão numa estrutura artificial. Nada de \"síndrome do seio duro-como-pedra, mas seios carnudos, macios, bonitos,\" diz William Haseltine. \"E o corpo pode ser reestruturado. Você poderá ter a aparência e a cor que quiser.\"
Se as células-tronco crescerem adquirindo uma forma qualquer ditada por uma estrutura arquitetônica dada, qualquer número de variações será possível - inclusive as nunca vistas antes em qualquer criatura - realizando a visão do corpo como uma tela de Vita-More. Com a possibilidade de obter virtualmente qualquer acréscimo do corpo, inclusive a fusão de formas biológicas e não biológicas, a própria idéia de beleza poderá mudar.
\"Você poderá anotar seu corpo de uma maneira biológica cambiável ,\" diz Shaun Jones, da Darpa. \"Usaremos novas formas de auto-expressão com relação aos nossos corpos. Os eqüivalentes de tatuagens e piercings na constelação cosmética surgirão claramente. A engenharia xenogenética, a manipulação das paredes- guarda-fogo existentes entre espécies, poderá ser possível.\"
\"Há um enorme futuro nas manipulações corporais biológicas , como não,\" concorda Michael Rose da UC de Irvine. \"Isso vai acontecer. O futuro é agora, com relação a isso.\"
Vita-More tem algumas mudanças em mente. \"Talvez eu possa parecer por algum tempo com um quadro da Renascença, ou com uma imagem puntilista, ou cubista, com um Picasso,\" diz ela. Sou fisiculturista, por isso adoro esculpir músculos. Músculo é lindo, e nossos corpos futuros terão músculos modelados em toda sorte de formas interessantes - novos tipos de membros, novos tipos de estruturas ósseas cinzeladas.\"
É concebível que um número significativo de pessoas (ainda que não certamente extropianas) opte por dispensar esses avanços. Essas pessoas (Vita-More refere-se a elas como \"humanish - você sabe, como Amish\") escolherão envelhecer e se aferrar às cartas que a natureza e seu meio ambiente lhes deram.
É possível também que nenhum desses milagres venha a acontecer. Os debates esquentam. Alguns pesquisadores da longevidade argumentam que a imortalidade continua no plano da ficção científica. Eles se referem a pessoas como Haseltine com uma piscadela e um abano de cabeça, chamando-o de \"o cara Big Science”
Mas Jones acha que algumas inovações dramáticas serão inevitáveis: \"Podemos estar no vértice de um ponto de inflexão. \'Bio\' poderá ser o prefixo da nova era: bioagrícola, bioindustrial, bioinformático. Pode-se argumentar que já passamos do ponto de inflexão.\"
Enquanto estou sentado no escritório de Calvin Harley, na Geron, ocorre-me que ele é um dos guardiães desse ponto de inflexão. Quero, então, pressioná-lo, perguntar-lhe sobre ultra-humanos e imortalidade. Mas falta a Harley o dom da especulação de Vita-More. É uma pessoa extremamente séria. Tem relatórios a estudar e um orçamento para examinar. Tem também um conselho de diretores e acionistas para agradar, e eles querem produtos comercializáveis logo, e não conversas sobre super-seios e peles de polímero - e certamente não querem conversas sobre a imortalidade.
\"Há cinqüenta anos, a estrutura do DNA não era sequer conhecida,\" diz Harley. \"Hoje em dia, podemos manipulá-la e usá-la para tudo, da engenharia de alimentos ao tratamento de doenças genéticas e a engenharia de tecidos. A capacidade de usar células-tronco pluripotentes está apenas começando. Em 50 anos estaremos fazendo coisas difíceis de imaginar hoje.\"
Fonte: O Estado de São Paulo