Nutrologia/Alimentos/Nutrição - Aspectos sócio-culturais dos transtornos alimentares
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Nutrologia/Alimentos/Nutrição

Aspectos sócio-culturais dos transtornos alimentares

09/01/2009

Luciene Helen da Silva

Joane Jardim Dias

Adriana Amaral do Espírito Santo

 

Os transtornos alimentares são freqüentemente considerados quadros clínicos ligados à modernidade, mas uma breve revisão histórica evidencia a existência dessas patologias ao longo do tempo e retoma a velha discussão psicopatológica do essencial e do acessório, do patogenético e do patoplástico, enfim das relações entre a doença e a cultura.

A etiologia desses transtornos é multifatorial, ou seja, eles são determinados por uma diversidade de fatores que interagem entre si de modo complexo, para produzir e, muitas vezes, perpetuar a doença. Classicamente, distinguem-se os fatores predisponentes, precipitantes e os mantenedores dos transtornos.

Os fatores predisponentes são aqueles que aumentam a chance de aparecimento do transtorno alimentar, mas não o tornam inevitável. Entre eles, estão as questões individuais e familiares e características sócio-culturais.

 Os fatores que precipitam a doença marcam o aparecimento dos sintomas dos transtornos alimentares, incluindo a dieta alimentar e eventos estressores na vida.

Finalmente, os fatores mantenedores determinam se o transtorno vai ser perpetuado ou não, abrangendo também questões fisiológicas, psicológicas e culturais.

Neste artigo, faremos algumas considerações a respeito dos aspectos sócio-culturais que contribuem para o surgimento de distúrbios com relação à alimentação, desde os mais brandos até os mais graves, como anorexia nervosa, bulimia e obesidade.

 

Ditadura da magreza e outros fatores

Os aspectos socioculturais dos transtornos alimentares têm sido amplamente estudados. O interesse pelo tema decorre de observações, encontradas já nas primeiras descrições contemporâneas destes transtornos, de que a extrema valorização da magreza nas sociedades ocidentais desenvolvidas estaria fortemente associada à ocorrência de anorexia nervosa e bulimia nervosa.

Estudos epidemiológicos demonstram um aumento na incidência destes transtornos concomitante à evolução do padrão de beleza feminino em direção a um corpo cada vez mais magro. Os dados revelam também que anorexia nervosa e bulimia nervosa parecem ser mais prevalentes em países ocidentais e são claramente mais freqüentes entre as mulheres jovens, especialmente aquelas pertencentes aos estratos sociais mais elevados destas sociedades, o que fortalece sua conexão com fatores socioculturais.

Estas informações levaram alguns pesquisadores a conceberem os transtornos alimentares como "síndromes ligadas à cultura" (culture-bound syndromes). De acordo com esta concepção, a pressão cultural para emagrecer é considerada um elemento fundamental da etiologia dos transtornos alimentares, que interage, como colocado anteriormente, com fatores biológicos, psicológicos e familiares para gerar a preocupação excessiva com o corpo e o pavor doentio de engordar, característicos da bulimia e anorexia nervosa. A influência dos aspectos socioculturais é marcante.

 

Transtornos Alimentares e a Cultura Ocidental

Nas sociedades ocidentais, ao mesmo tempo em que observamos uma oferta abundante de alimentos de alto teor calórico e de rápido consumo, e a vida cotidiana se torna cada vez mais sedentária, as modelos e atrizes de sucesso, representantes dos padrões ideais de beleza feminina, são extremamente magras e muitas vezes apresentam um corpo de pré-adolescente, com formas poucos definidas.

Assim, este padrão se impõe especialmente para as mulheres, nas quais a aparência física representa uma importante medida de valor pessoal. Proliferam novas e miraculosas dietas para emagrecimento; as academias de ginástica apresentam inúmeras opções de exercício e revelam o alto investimento tecnológico para o desenvolvimento de técnicas de exercício físico. São notáveis também os avanços da indústria cosmética no desenvolvimento de produtos e técnicas cirúrgicas que auxiliem na busca pela magreza e pelo corpo perfeito.

Duas crenças falsas acompanham a busca do corpo ideal. A primeira delas é a noção de que o corpo é infinitamente maleável e que este ideal estético pode ser atingido por qualquer um que siga as prescrições culturais de exercícios e dieta adequados. Nega-se a particularidade do corpo de cada um e as limitações impostas pela biologia e genética. Acredita-se que a boa forma física depende apenas do esforço pessoal. Além disso, a imagem do corpo ideal é acompanhada de conotações simbólicas de sucesso, auto-controle, auto-disciplina, liberação sexual, classe e competência. O fracasso em se atingir este ideal passa a ser equacionado com falta de força de vontade, preguiça e fraqueza. A segunda crença falsa diz respeito justamente a idéia de que aqueles que atingirem este padrão de forma corporal alcançarão tudo o que buscam, desde sucesso na profissão, nos relacionamentos sociais e até nos relacionamentos amorosos.

Embora a aparência física seja um elemento fundamental da imagem da mulher em diversas épocas e culturas, a extrema magreza nem sempre foi o ideal almejado. Uma passagem rápida pela história da arte revela que a Renascença valorizava mulheres de corpo cheio, com quadris grandes e abdomens avantajados. Nas décadas de 40 e 50, estrelas de Hollywood como Marylin Monroe eram mulheres de seios fartos e corpos curvilíneos, valorizadas por seu sex appeal. Mesmo em épocas que preconizavam um padrão mais longilíneo, nem sempre a dieta era o principal recurso para atingi-lo. Na década de 20, por exemplo, as mulheres usavam faixas para tornar o tórax mais achatado e os seios menos aparentes. Em outras épocas, espartilhos eram amplamente utilizados para reduzir a cintura das mulheres. Atualmente dietas e exercícios parecem ser os principais meios para se modificar o corpo, conforme nos revela a alta prevalência destes comportamentos. E os ideais de beleza cultuados pela juventude em especial são de atrizes e celebridades anoréxicas como Vitória Beckham, Mary-Kate Olsen, Nicole Richie  e Kate Moss.

O impacto deste padrão no comportamento revela-se no desejo generalizado, especialmente entre as mulheres, por um corpo mais magro. A discrepância entre o peso real e o ideal levam a um estado de constante insatisfação com o próprio corpo e as dietas para perder peso tornam-se extremamente freqüentes. Surge assim um campo fértil para o desenvolvimento dos transtornos alimentares.

Dada esta relação, pode-se levantar a hipótese de que existe um "continuum de preocupação com o corpo" levando à dieta e outros métodos drásticos de controle do peso. Deste ponto de vista, os transtornos alimentares seriam a expressão máxima, numa relação linear e direta, da "cultura do corpo" predominante em algumas sociedades. Contudo, esta hipótese é questionável na medida em que apenas uma pequena parcela de todos os que fazem dieta chegam a desenvolver um transtorno alimentar. A etiologia dos transtornos alimentares é hoje concebida como multidimensional e inúmeros outros fatores parecem mediar o impacto da cultura no comportamento individual, entre eles as vulnerabilidades psicológica e biológica.

Na população brasileira observa-se o reconhecimento crescente de casos de transtornos alimentares na última década, motivando a criação de serviços especializados para seu atendimento em centros universitários.

 

Indicações Bibliográficas

Cordása, T. A. & Claudino, A. M. Transtornos alimentares: fundamentos históricos. In www.scielo.br

Claudino, A. M. & Borges, M. B. F. Critérios diagnósticos para os transtornos alimentares: conceitos em evolução.  In www.scielo.br

Appolinario, J. C. & Bacaltchuk, J. Tratamento farmacológico dos transtornos alimentares. In www.scielo.br

Morgan, C. M., Vecchiatti, I. R. & Negrão, A. B. Etiologia dos transtornos alimentares: aspectos biológicos, psicológicos e sócio-culturais. www.scielo.br

Morgan, C. M.  &  Azevedo, A. M. C. Aspectos Sócio-Culturais dos Transtornos Alimentares

www.scielo.br

www.veja.com.br

www.psicosite.br

 

Fonte:

 

http://br.geocities.com/consultoriopsi3/TranstornosAlimentares.htm

 

 

 


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