Conceito : Doença inflamatória que ocorre como seqüela tardia de uma faringoamidalite pelo estreptococo B-hemolítico do grupo A de Lancefield, em indivíduos geneticamente pré-dispostos, acometendo principalmente as articulações, coração, sistema nervoso central, pele e tecidos subcutâneos.
Epidemiologia :
A incidência na população é de 0,3 a 3%. Ocorre com mais freqüência entre os 5 e 15 anos de idade. A taxa de ataque aumenta para 50% naqueles que já tiveram um surto prévio da doença.
Após a infecção pelo estreptococo, o período de incubação varia de uma a cinco semanas, sendo em média de três semanas. Em torno de 30% dos pacientes a infecção é assintomática.
Etiopatogenia :
Para que ocorra a febre reumática é preciso haver uma faringoamidalite pelo estreptococo B-hemolítico do grupo A.
A febre reumática não ocorre após infecções estreptocócicas em outros locais ou infecções por estreptococos de outros grupos.
A doença apresenta comportamento clínico e evolutivo que se processa em três fases distintas :
1ª) a infecção estreptocócica
2ª) a intermediária assintomática
3ª) surge como uma complicação tardia, ligada à formação de anticorpos
Diagnóstico :
O diagnóstico da febre reumática é clínico, já que não existem exames laboratoriais ou radiológicos patognomônicos da doença. Em 1944 foram elaborados critérios que, quando colocados juntos, direcionam para o diagnóstico de febre reumática.
Esses critérios foram revistos em 1992 e dividem-se em critérios maiores (artrite, cardite, coréia, eritema marginado, nódulo subcutâneo) e critérios menores (artralgia, febre, aumento da VHS, aumento da proteína C-reativa, aumento do intervalo PR).
O diagnóstico da febre reumática é sugerido na presença de dois critérios maiores ou de um critério maior e dois menores, associados a uma evidência de infecção prévia pelo estreptococo do grupo A.
Quadro clínico :
A) Critérios Maiores
Artrite
É a manifestação clínica mais freqüente, ocorrendo em 75% dos casos.
Acomete as grandes articulações de forma migratória, sem qualquer orientação definida de progressão.
A dor é de grande intensidade, levando à incapacidade funcional, característica que a diferencia da artrite reumatóide juvenil.
A artrite costuma ser mais intensa e comum em adultos jovens, quando comparada aos adolescentes e crianças.
Habitualmente é intensa na primeira semana, podendo persistir de forma leve por mais uma ou duas semanas, durando de um a cinco dias em cada articulação.
Evolui para a cura em períodos variáveis de tempo, sem deixar seqüelas.
Cardite
É a manifestação mais importante e a única que pode provocar morte na fase aguda e deixar seqüelas a longo prazo.
Ocorre clinicamente em mais de 50% dos casos.
Os sinais clínicos são : taquicardia, sopros, cardiomegalia, insuficiência cardíaca congestiva e atrito pericárdico.
O sopro é o achado mais freqüente e a pericardite o mais incomum, quase nunca ocorrendo como manifestação isolada.
As válvulas mais acometidas são a mitral e a aórtica.
Coréia (ADança de São Vito@)
Indica o envolvimento do sistema nervoso central.
As meninas são afetadas com maior freqüência que os meninos e sua incidência varia de 10 a 30%.
Caracteriza-se por movimentos descoordenados e involuntários, fraqueza muscular e labilidade emocional, sendo os músculos das extremidades e da face os mais acometidos.
A escrita costuma tornar-se confusa.
A fala pode ficar incompreensível.
Os movimentos são exacerbados por estresse, esforços e cansaço, e desaparecem durante o sono.
É uma condição autolimitada, mas de duração variável. Às vezes, a melhora ocorre em uma a duas semanas, mas a cura completa pode levar de um a dois meses e, em alguns casos, até seis meses.
Eritema Marginado
Sua incidência varia de 5 a 13%, sendo mais freqüente em pacientes com cardite e nódulos subcutâneos e mais comum nos estágios iniciais da doença.
São lesões maculares, eritematosas, de aspecto rendilhado, com o centro mais claro, não são pruriginosas nem endurecidas, são indolores, de duração transitória e recidivante.
Os locais mais comuns são o tronco e região proximal dos membros.
Não ocorrem na face.
Nódulos Subcutâneos
Raros, ocorrem quase que exclusivamente em pacientes com cardite grave e são de aparecimento mais tardio.
São firmes, indolores e móveis, com tamanho variando de alguns milímetros até um ou dois centímetros, e encontrados nas superfícies extensoras dos tendões próximas às proeminências ósseas, como cotovelos, joelhos, tornozelos, processos espinhosos vertebrais, couro cabeludo e fronte.
Duram uma ou duas semanas, e só raramente mais de um mês.
B) Critérios Menores
A febre alta (39° C) está geralmente presente no início da doença. Torna-se mais baixa com o passar dos dias. Pode durar até duas a três semanas e desaparece mesmo sem tratamento.
A artralgia pode vir isolada dos demais sinais inflamatórios. A dor é de grande intensidade, podendo levar à incapacidade funcional, e não é usada como critério menor quando a artrite estiver presente.
Exames Laboratoriais :
Dois tipos de exames são úteis no diagnóstico e na avaliação do estado evolutivo da doença :
1) os que revelam infecção anterior por estreptococo do grupo A;
2) os que medem o estado inflamatório sistêmico presente (reação de fase aguda do soro).
Exame Radiológico :
O estudo radiológico do tórax é útil na avaliação do tamanho da área cardíaca, mas o exame normal não exclui a presença de cardite.
Sinais de congestão pulmonar, como edema intersticial, confirmam a presença de insuficiência cardíaca.
Eletrocardiograma :
O alongamento do intervalo PR é uma modificação importante, sendo considerado um critério menor para o diagnóstico de cardite. Varia de acordo com a idade do paciente e com a freqüência cardíaca, e sua avaliação deve ser feita de acordo com as tabelas próprias.
Tratamento :
O melhor tratamento é a profilaxia primária, baseada em diagnóstico precoce e tratamento dos portadores de infecções estreptocócicas de orofaringe.
O tratamento da febre reumática tem três objetivos básicos :
1) erradicação do estreptococo
2) alívio dos sintomas
3) profilaxia secundária
Erradicação do estreptococo
- tratamento via oral, mantido, no mínimo, por 10 dias, através de antibióticos
Alívio dos sintomas
- repouso no leito que varia de 2 a 6 semanas
- antiinflamatórios
- corticoesteróides
Profilaxia secundária
- aplicação continuada de antibióticos bactericidas ou bacteriostáticos
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Referências bibliográficas
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Corrigan, B. & Maitland, G. D. (2000). Prática clínica. Ortopedia e reumatologia. Diagnóstico e tratamento. São Paulo: Editorial Premier
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Salter, R. (1985). Distúrbios e lesões do sistema musculoesquelético. Rio de Janeiro: Medsi
Filho, T. E. P. de B. & Costallat, L. T. L. (1999). Manual de ortopedia e reumatologia para a prática médica. São Paulo: Lemos Editorial & Gráficos Ltda
FONTE: http://hp.vento.com.br/~rjmaia/reumatoapostila.htm
AUTOR : Ismar Emanuel D’Oliveira Bastos
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