Conceito : É um distúrbio metabólico que sofre importante influência genética, manifestada por níveis elevados de ácido úrico sérico, crises recorrentes de artrite aguda, formação crônica de agregados de cristais nas articulações, bainhas sinoviais, bursas, tecido subcutâneo e outros, como o rim, envolvendo o interstício, os túbulos renais e formação de cálculos renais.
Epidemiologia :
Acomete principalmente os homens (95% dos casos) entre 30 e 60 anos de idade, sendo que as mulheres costumam apresentar a doença após a menopausa (3 a 7% dos casos).
História familiar de gota está presente em cerca de 40% dos pacientes.
Não há associação definida com fatores étnicos, geográficos e climáticos.
Pode ser primária ou secundária.
Etiopatogenia :
A gota primária decorre de um erro inato do metabolismo das purinas com superprodução de ácido úrico e/ou defeito intrínseco na excreção renal de urato (principal mecanismo da gota primária).
A gota secundária se relaciona a outras condições que concorrem para o acúmulo de ácido úrico corporal ou para a sua hipoexcreção.
Quadro clínico :
A gota passa por três fases distintas - artrite gotosa aguda, períodos intercríticos e gota tofácea crônica, embora às vezes ocorra uma superposição de sintomas entre elas.
Artrite gotosa aguda
O pico de idade de início coincide com a quarta década de vida, sendo incomum antes dos 30 anos.
Apresenta dor mono ou oligoarticular, de início súbito, de duração contínua, geralmente de forte intensidade e acompanhada por calor, rubor e edema.
O quadro às vezes é tão intenso que o paciente não suporta o contato das roupas e do lençol com a região afetada.
A articulação mais acometida é a metatarsofalangeana do hálux (podagra), sendo também envolvidas as outras articulações dos demais pododáctilos, as tarsometatarsianas, as tíbio-társicas, os joelhos, os punhos, as mãos e os cotovelos. Pode ocorrer também o envolvimento de bursas e tendões.
A duração da crise aguda é curta, de horas a poucos dias, depois o paciente entra numa fase assintomática, chamada período intercrítico.
Período intercrítico
É de duração muito variável.
Na maioria das vezes, um segundo ataque de gota pode ocorrer depois de 6 meses a 2 anos, em outros casos, o próximo ataque só ocorrerá de 5 a 10 anos depois, e alguns pacientes nunca sofrerão um segundo ataque.
As crises de gota aguda não tratadas ou mal cuidadas favorecem a instalação de períodos intercríticos cada vez menores e ataques subseqüentes mais graves e prolongados.
Gota tofácea crônica
O acúmulo de cristais nos tecidos resulta na formação e tofos, que são nódulos intra-articulares e subcutâneos.
Desaparecem os períodos intercríticos e o paciente passa a ter dor contínua em várias articulações, de intensidade moderada e com poucos sinais inflamatórios, surgindo as deformidades.
Os tofos são em geral indolores, mas podem causar limitação e destruição articular.
Quando são superficiais, podem sofrer ulceração e drenar uma substância esbranquiçada semelhante a pó de giz molhado, favorecendo a instalação de infecção secundária.
Localizam-se nas extremidades dos membros, hélice e anti-hélice das orelhas, mas podem se desenvolver em qualquer articulação do corpo, na superfície ulnar do antebraço, nas bursas, nos tendões e na superfície anterior da tíbia.
Diagnóstico :
Além do quadro clínico muito sugestivo de gota, temos os exames laboratoriais e a radiografia para a comprovação diagnóstica.
Laboratório
- dosagem do ácido úrico no sangue e na urina de 24 horas
- estudo do sedimento urinário, da função renal, glicemia, lipidograma, hemograma e provas inflamatórias de fase aguda
- pesquisa de cristais no líquido sinovial e/ou nos tofos
Radiografia
- na fase inicial apresenta aumento de partes moles (inflamação articular e justarticular)
Tratamento
Os principais objetivos são :
- a superação da crise aguda
- a profilaxia de novas crises
- a redução da concentração de urato sérico
- a reabsorção dos tofos
- a prevenção da deposição de cristais
Além disso, deve-se controlar a obesidade, a hipertensão arterial e a dislipidemia.
Colocar a articulação afetada em repouso.
Colchicina, na dose de 0,5 mg, quatro vezes ao dia, associada a antiinflamatório não-hormonal e/ou analgésico.
Controlar a alimentação evitando : bebidas alcoólicas, peixes, frutos do mar, miúdos, vísceras, enlatados, conservas, defumados, carnes vermelhas e gordas.
A prevenção do cálculo renal pode ser feita através da ingestão de grande quantidade de líquidos.
Ricardo Fuler