É uma especialidade da clínica médica que se dedica ao estudo e tratamento das doenças que acometem o sistema osteomioarticular.
É comum que na Reumatologia se apresentem quadros bastante variados que vão desde as doenças difusas do tecido conjuntivo até os reumatismos periarticulares.
São tratadas doenças inflamatórias, como a artrite reumatóide; doenças auto-imunes, como o lúpus eritematoso sistêmico; doenças degenerativas, como a osteoartrite; doenças metabólicas, como a gota; além de dor lombar, fibromialgia, febre reumática e muitas outras enfermidades.
“Reumatismo”
O termo reumatismo é derivado do grego, significando muco (catarro), como se fosse um humor que, fluindo do cérebro, alcançaria as articulações, provocando inchação e dor. Atualmente, a designação de doenças reumáticas, é um termo mais adequado.
Doenças Reumáticas
São aquelas entidades mórbidas em que predominam dor e rigidez em algum setor do aparelho locomotor. Entre elas incluem-se as doenças difusas do tecido conjuntivo.
Classificação das Doenças Reumáticas
I. Doenças Reumáticas
1. Inflamatórias
Febre reumática
Artrite reumatóide
Artrite reumatóide juvenil (Doença de Still)
Síndrome de Sjögren
Espondilite anquilosante
Artrite infecciosa
2. Degenerativas
Osteoartrose
Síndromes do disco intervertebral
3. Metabólicas
Osteoporose
Gota
Doença de Paget
II. Síndromes Dolorosas Regionais e Sistêmicas
Tendinite e Tenossinovite
Fascite
Bursite
Periartrite
Fibromialgia
Mialgia e Miosite
Neurite e Neuralgia
III. Doenças com Componentes Reumáticos
Lupus eritematoso sistêmico
Dermatomiosite (Dermatopolimiosite)
Esclerodermia
Síndrome de Reiter
Exame do Paciente Reumático
Trata-se de um doente eminentemente clínico.
O exame deve ser aprofundado quanto ao aparelho locomotor.
1. Anamnese :
1.1. Identificação do paciente
> Idade
> Sexo
> Raça
> Profissão
> Naturalidade
1.2. Queixas articulares e gerais
> Dor
> Febre
> Lesões cutâneas
> Nódulos
> Manifestações digestivas
> Manifestações cardiovasculares
> Manifestações respiratórias
> Alterações do sistema nervoso
> Afecções gênito-urinárias
2. Exame Físico :
2.1. Exame das articulações
> Inspeção
> Palpação
> Movimentos articulares
- mãos e punhos
- cotovelos
- ombros
- temporomandibulares
- sacrilíacas
- coxofemorais
- joelhos
- tornozelos
- pés
2.2. Exame da coluna vertebral
> Inspeção
> Palpação
> Movimentos da coluna vertebral
2.3. Exame neurológico dos membros inferiores
3. Exames Complementares :
3.1. Imagenologia
3.2. Exames laboratoriais
3.3. Artroscopia
Exame do Paciente Reumático
1. Anamnese
1.1. Identificação do paciente
> Idade
certas patologias têm início numa faixa etária característica ( Legg-Calvé-Perthes de 8 a 12 anos; epifisiólise da cabeça do fêmur de 12 a 15 anos; artrite reumatóide na mulher de 20 a 40 anos)
> Sexo
algumas patologias são mais freqüentes em mulheres (lupus eritematoso sistêmico e artrite reumatóide) e outras nos homens (gota, espondilite anquilosante)
> Raça
algumas patologias são mais freqüentes em determinados grupos raciais (lupus eritematoso sistêmico nos negros, artrite reumatóide nos brancos)
> Profissão
determinadas atividades podem predispor a certas afecções do aparelho locomotor (lesões por esforço repetitivo nos digitadores; De Quervain nos pianistas, nas lavadeiras e nas faxineiras; artrose de coluna e dos membros inferiores nos que exercem atividade pesada; cérvico-dorsalgia nos digitadores e nas costureiras)
> Naturalidade
certas afecções reumáticas são menos freqüentes em determinado grupo e mais freqüentes em outros (gota e coxartrose primária mais freqüente na Europa que no Brasil)
1.2. Queixas articulares e gerais
> dor
é o dado mais freqüente e mais importante no doente reumático, quanto à localização pode ser sistêmica (poliomiosite) ou localizada (gota, gonartrose, artrose das mãos); quanto à manifestação pode ser matinal (rigidez na artrite), vespertina e/ou noturna (artrose), após ingestão de álcool ou refeições fartas (gota), tensionais (tensões emocionais e conflitos internos), associadas a comprometimento do estado geral (leucemia, mieloma múltiplo, formas graves de artrite reumatóide), irradiada (ciatalgia, síndrome do túnel do carpo), referida (comprometimento da coxofemoral com dor no joelho) e posturais
A dor pode sofrer influência do estado emocional e de condições climáticas.
> febre
sinal freqüente nas doenças reumáticas, sendo às vezes, componente essencial do quadro, servindo também como critério de avaliação terapêutica (regressão dos picos febris significa melhora do quadro clínico). Ex : doença de Still (febre elevada), artrite reumatóide (febre baixa às vezes desapercebida), doenças difusas do tecido conjuntivo (febrícula ou franca hipertermia). Não há febre nos processos degenerativos.
> lesões cutâneas
- eritema e febre na doença de Still
- lesão em asa de borboleta na face no lupus eritematoso sistêmico
- lesões eritemato-descamativas na psoríase
- lesões destrutivas das unhas na psoríase
> nódulos
- presentes na artrite reumatóide (10 - 15% dos casos) localizando-se nos cotovelos, joelhos, tendão de Aquiles e nos dedos
- na fase inicial da contratura de Dupuytren
- no dedo em gatilho
- no lupus eritematoso sistêmico (geralmente nos membros inferiores)
> manifestações digestivas
- comprometimento das glândulas salivares (parótidas em especial) na síndrome de Sjögren, o paciente queixa-se de Aboca seca@
- lesões mucosas-labiais e estomatite na síndrome de Reitter
- disfagia por comprometimento da musculatura faríngea na poliomiosite
- diarréia na síndrome de Reitter e na esclerose sistêmica progressiva
> manifestações cardiovasculares
- na febre reumática
- endocardite ou pericardite no lupus eritematoso sistêmico
- pericardite na artrite reumatóide
- angina na poliarterite nodosa
- insuficiência aórtica na espondilite anquilosante
> manifestações respiratórias
- comprometimento cricoaritenóide com rouquidão e dificuldade de fonação na artrite reumatóide
- pleurite e atelectasias pulmonares no lupus eritematoso sistêmico
- fibrose pulmonar difusa na esclerose sistêmica progressiva e na artrite reumatóide
- alterações pulmonares funcionais com diminuição da capacidade vital na espondilite anquilosante
> alterações do sistema nervoso
- cefaléias, zumbidos e desmaios
- compressão medular alta por luxação atlanto-axóidea na artrite reumatóide e na espondilite anquilosante
> alterações gênito-urinárias
- lesão renal no lupus eritematoso sistêmico, na gota avançada e nas angeítes necrosantes
- calculose renal na gota
2. Exame Físico
2.1. Exame das articulações
> inspeção
aumento de volume articular difuso (derrame) ou localizado (cistos, processos inflamatórios); rubor; deformidades articulares
- deve ser feita em várias incidências e em boas condições de visualização, além de estender-se às áreas adjacentes à articulação
> palpação
aumento de temperatura; crepitação; identificação de áreas dolorosas de espessamento sinovial ou das estruturas periarticulares envolvidas e de derrames intra-articulares
> movimentos articulares
movimentos passivos, ativos e contra resistência :
- mobilidade (a limitação ocorre por dor, edema e deformidades)
- força muscular
- estruturas periarticulares
* Mãos e punhos
explorar todos os movimentos de cada articulação, explorar as AVDs
* Cotovelos
explorar todos os movimentos. Funcionalmente a limitação da flexão é mais danosa, pois interfere nas AVDs
* Ombros
explorar as três articulações funcionais (escápulo umeral, acrômio clavicular e escápulo torácica)
* Temporomandibulares
arco normal de 45° (colocar o 21, 31 e 41 dedos entre as arcadas dentárias superior e inferior)
* Sacrilíacas
articulação de pouca mobilidade local dos primeiros sintomas da espondilite anquilosante
* Coxofemorais
testadas com o paciente deitado, ponto de localização das coxartroses
* Joelhos
avaliar a fêmuro patelar e a fêmuro tibial, ponto de localização das gonartroses
* Tornozelos
avaliar a tíbio-társica e a talo calcâneo
* Pés
avaliar metatarsofalangeanas e interfalangeanas
2.2. Exame da coluna vertebral
> inspeção
observar as curvaturas fisiológicas, curvaturas laterais, nivelamento dos ombros e da pélvis e massas musculares paravertebrais
> palpação
explorar os processos espinhosos e a musculatura paravertebral, buscando dores, deslizamentos vertebrais e contraturas musculares
> movimentos da coluna vertebral
flexibilidade anterior, posterior e lateral; rotações
2.3. Exame neurológico dos membros inferiores
> inspeção das massas musculares dos glúteos, das coxas e da panturrilha
> avaliação dinâmica da marcha sobre os antepés e sobre os calcanhares; capacidade de agachar-se e em manter-se sobre um único membro inferior
> reflexos superficiais (Babinsky) e tendinosos (patelar, aquileu)
> sensibilidade cutânea em busca de hipoestesia ou anestesia; Laségue (compressão radicular de L5 ou S1)
3. Exames Complementares
3.1. Imagenologia
Existem várias modalidades de recursos para a realização de diagnóstico por imagens (Rx, TC, RNM, cintilografia, US).
Deve-se sempre optar pelo método mais simples e menos invasivo.
As radiografias simples são, na maior parte das vezes suficientes para diagnosticar e acompanhar a evolução do tratamento.
3.2. Exames laboratoriais
As provas laboratoriais são utilizadas, em Reumatologia, para estabelecer um diagnóstico preciso e para auxiliar no acompanhamento e tratamento dos pacientes. Solicitados e interpretados pelo médico, são sempre associados aos achados da anamnese e do exame físico.
Além dos testes diagnósticos, existem também, provas de atividade inflamatória (VHS, proteína C - Reativa) e provas inespecíficas (hemograma, ácido úrico, sorologia).
Exame do líquido sinovial
Obtido através da artrocentese, o líquido sinovial deve, sempre que possível, ser examinado, pois suas características físicas (aspecto, viscosidade), bioquímicas (proteínas), microscópicas (pesquisa de cristais) e bacteriológicas podem fornecer informações de grande valor para o reumatologista.
3.3. Artroscopia
Método de avaliação articular invasivo, feito baixo anestesia local ou geral. A visão endoscópica articular permite :
1. investigação da estrutura e fisiologia articular (morfologia, vascularização e sensibilidade)
2. investigação da história natural das diversas artropatias
3. avaliação objetiva e direta da eficiência de certos agentes e procedimentos terapêuticos (infiltrações, antiinflamatórios, sinovectomais)
4. orientação visual da tomada de biópsias e registro fotográfico da membrana sinovial e cartilagem articula;
5. avaliação do real estado inflamatório e/ou degenerativo das estruturas intra-articulares, permitindo, às vezes, diagnóstico etiológico
6. avaliação pré-operatória imediata, orientando direção e extensão da abordagem cirúrgica e diagnóstica dos desarranjos internos do joelho.
Referências bibliográficas
Filho, A. C. (1980). Clínica reumatológica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan
Seda, H. (1979). Reumatologia. Vol. I e II. Rio de Janeiro: Cultura Médica Ltda
Moreira, C. & Carvalho, M. A. (1998). Noções práticas de reumatologia. Vol. I e II. Belo Horizonte: Livraria e Editora Saúde Ltda (Health)
Corrigan, B. & Maitland, G. D. (2000). Prática clínica. Ortopedia e reumatologia. Diagnóstico e tratamento. São Paulo: Editorial Premier
Downie, P. (1987). Cash. Fisioterapia em ortopedia e reumatologia. São Paulo: Panamericana
Snider, R. K. (2000). Tratamento das doenças do sistema musculoesquelético. São Paulo: Manole
Salter, R. (1985). Distúrbios e lesões do sistema musculoesquelético. Rio de Janeiro: Medsi
Filho, T. E. P. de B. & Costallat, L. T. L. (1999). Manual de ortopedia e reumatologia para a prática médica. São Paulo: Lemos Editorial & Gráficos Ltda
Ismar Emanuel D’Oliveira Bastos