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Dra. Claudia P.M.S. Oliveira Médica pesquisadora da Disciplina de Gastroenterologia da FMUSP |
O tecido adiposo é constituído basicamente por dois tipos celulares: o tecido adiposo unilocular constituído por adipócitos brancos ("white adipocytes"), e o tecido adiposo multilocular ou gordura marrom constituído por adipócitos pardos ("brown adipocytes").
O tecido multinocular é denominado gordura marrom em virtude de sua coloração parda que é determinada pela rica vascularização e presença de grande quantidade de citocromos presentes nas mitocôndrias, conferindo esta coloração. As células deste tecido são menores que as do tecido adiposo comum, têm forma poligonal e formam massas compactas semelhantes a glândulas endócrinas. Além disso, estas células são carregadas de gotículas lipídicas no seu citoplasma e têm numerosas mitocôndrias.
Este tecido tem função importante na termogênese dos mamíferos, pois é local de grande produção de calor. Apresenta-se abundante nos animais que hibernam.
No homem, sabe-se que a gordura marrom tem importância significativa nos primeiros meses de vida, nos quais a quantidade deste tecido é abundante e responsável pela produção de calor, protegendo o recém-nato do frio excessivo. Presente em abundância nas áreas do pescoço, tecido peri-renal e glândulas supra-renais, reduz-se a quantidades mínimas no adulto.
Este tecido (gordura marrom), quando estimulado pelo sistema nervoso simpático presente nas terminações nervosas em torno das células, oxida-se facilmente. As células do tecido multinocular geram energia em forma de calor, muito mais do que em forma de ATP, como as células gordurosas brancas ou comuns.
Estudos recentes têm investigado o papel desta gordura na termoregulação durante o ciclo alimentar tanto em animais de experimentação como em humanos, podendo apresentar um papel importante na fisiopatogênese da obesidade.
A iniciação da alimentação (a fome) parece resultar de uma queda transitória da concentração da glicose sérica e, com isso aciona-se o sistema nervoso simpático com produção de catecolaminas que estimulam a gordura marrom a produzir calor. Após a ingestão alimentar a temperatura atinge um limiar, cessando a vontade e necessidade de continuar a alimentação. Este mecanismo parece ocorrer no recém-nascido.
Tem sido demonstrado em animais que a proteína mitocondrial desacoplada (UCP), que é exclusivamente expressada no tecido adiposo marrom, regula a energia despendida pelos ratos.
Pesquisas em pacientes obesos e não obesos, estudados pelo método de PCR, demonstraram que a proteína mitocondrial desacoplada (UCP), se encontra em menor quantidade no tecido intraperitoneal de pacientes obesos quando comparados aos controles. A UCP do tecido extraperitoneal não foi diferente entre os obesos e não obesos. Este estudo sugere que pacientes obesos apresentam uma quantidade menor desta proteína no tecido intraperitoneal e este fato pode refletir o papel da gordura marrom no controle da obesidade.
Estudos experimentais em ratos demonstraram esse fenômeno, atribuindo à gordura marrom função importante na termoregulação do ciclo alimentar e controle do volume da refeição. A alimentação é vista como um evento termoregulatório e a gordura marrom é um fator importante neste evento. Parece que esta função é perdida em modelos animais de obesidade.
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