Mitos a respeito das doenças cardiovasculares
Foi publicado, na última edição dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia (Laurenti R e Buchalla CM. Arq Bras Cardiol 2001;76(2):99-104), artigo que, pela sua importância prática, passamos a comentar. Os autores citam que alguns mitos arraigados entre leigos e médicos atrapalham a possibilidade de atuação preventiva adequada, e contestam cada um deles com dados bastante convincentes. Esses mitos estão descritos a seguir.
Mito 1. As doenças cardiovasculares são problemas de países desenvolvidos - Na realidade, os países em desenvolvimento, como o nosso, apresentam número de mortes por doenças cardiovasculares duas vezes maior que os países desenvolvidos. Analisando-se as duas causas mais freqüentes de morte entre as cardiovasculares, verifica-se que, enquanto as causadas pelo acidente vascular cerebral ocorrem com o dobro da freqüência nos países em desenvolvimento em relação aos desenvolvidos, as mortes por "ataques cardíacos" ocorrem em igual número. É prevista, para as próximas décadas, uma epidemia de doenças cardiovasculares nos países menos desenvolvidos, em conseqüência do aumento dos fatores de risco pelo estilo de vida não-saudável das populações e pelo aumento da expectativa de vida.
Mito 2. As doenças cardiovasculares são problemas de pessoas ricas - Atualmente, os ricos, em especial os de áreas urbanas, têm melhor acesso a informações de saúde sobre os fatores de risco para as doenças cardiovasculares e podem modificar seu comportamento para modos de vida mais saudáveis (alimentação sadia, atividade física e abstenção do cigarro). Estudo realizado no Brasil demonstra, claramente, que quanto menor a escolaridade, indício de menor condição socioeconômica, maior a exposição a fatores de risco, como hipertensão arterial, uso de álcool, obesidade, fumo e sedentarismo.
Mito 3. As doenças cardiovasculares são, fundamentalmente, doenças de homens - Embora a doença isquêmica do coração seja menos comum na mulher pré-menopáusica que nos homens, em muitas partes do mundo é a causa mais freqüente de morte de mulheres, inclusive com menos de 65 anos de idade. Em estudo que comparou a mortalidade em cidades brasileiras à de outros países, chama a atenção a alta mortalidade feminina por doença isquêmica do coração em quatro capitais brasileiras (São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e Rio de Janeiro), com taxas superiores a praticamente todos os países desenvolvidos escolhidos para comparação.
Mito 4. As doenças cardiovasculares são problemas de idosos - Embora não reste dúvida que a freqüência das doenças cardiovasculares aumenta com o progredir da idade, nos países menos desenvolvidos, a alta porcentagem de doença cardiovascular que ocorre antes dos 65 anos pode ser considerada conseqüência da má qualidade da assistência médica. É importante salientar que, nesses países, uma parte considerável da população tem dificuldade de acesso a qualquer tipo de assistência.
Mito 5. As doenças cardiovasculares não se prestam a ação preventiva na comunidade - Na verdade, os países que desenvolveram programas para a redução dos fatores de risco têm apresentado, ao longo dos anos, diminuição das taxas de morbidade e mortalidade por doenças cardiovasculares: doença isquêmica do coração e acidente vascular cerebral. Embora boa parte da diminuição da mortalidade seja dependente da introdução de novos e mais eficazes métodos de tratamento, a prevenção, levando à diminuição da morbidade, contribui significativamente para o declínio da mortalidade.
Mito 6. As doenças cardiovasculares deixaram de ser um problema de saúde pública - Embora as doenças cardiovasculares venham declinando nos países industrializados, continuarão a ser problema de saúde pública predominante. Além disso, os países da Europa Oriental passaram a apresentar elevação das taxas de mortalidade por esse grupo de causas e existem afirmativas que irá causar, nos países desenvolvidos, o dobro de mortes em 2020 em relação a 1990. Em nosso meio, esse grupo de doenças tem sido apresentado e discutido como um dos maiores problemas de saúde do país.
Os autores finalizam chamando a atenção para o papel da imprensa leiga na divulgação das informações sobre saúde para todos os níveis sociais da população, o que certamente levará à destruição de mitos arraigados não verdadeiros e que têm contribuído para dificultar a prevenção das doenças cardiovasculares tanto em caráter individual como coletivo.
Por: Dr. Marcelo Bertolami, Ex-presidente da SOCESP
04/05/2003