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gastronomia

Prazeres inconfessáveis

27/06/2003
 
Em São Paulo e no Rio supermercados transformam-se em paraíso dos gourmets e saciam paladares sofisticados

MAX PINTO

Balcão da Casa Santa Luzia: compras finas, às vezes com culpa

CHANTAL BRISSAC

Todas as sextas-feiras eles se encontram à hora do almoço na casa de um dos integrantes do grupo ou em um restaurante - em geral, o Fasano, em São Paulo - para degustar iguarias regadas por vinhos como o Le Pin, da região de Pomerol, em Bordeaux (R$ 1,5 mil a garrafa), ou o Chateau Petrus, na mesma faixa de preço. Nas reuniões dessa confraria masculina, quase secreta, formada por figuras como Edemar Cid Ferreira, presidente da Fundação Bienal de São Paulo, Fulvio Pileggi, diretor-geral do Incor, o industrial Ivo Rosset e o senador Gilberto Miranda, produtos como o caviar iraniano Beluga, o autêntico foie gras ou as preciosas trufas negras, colhidas nos campos franceses com a ajuda de porcos selvagens, são triviais, como o são, para a maioria dos brasileiros, os tradicionais arroz e feijão.

"Nos finais de semana, costumo fazer um café da manhã reforçado, com caviar, creme azedo e champanhe", diz o empresário Max Abdo. Ele é o típico cliente de supermercados finos, casas que se posicionam como gourmets stores, onde os homens são os fregueses mais empolgados e generosos. O Empório Santa Maria, em São Paulo, se encaixa perfeitamente nesta categoria de templo do alto consumo. Até é possível encontrar, entre as gôndolas, produtos básicos como leite de caixinha, purê de tomate e papel higiênico, mas o que realmente atrai a clientela que deixa à mão dos manobristas reluzentes carros importados é a coleção de itens que vêm de outros países, importados pela Expand, empresa ligada à casa. O vinho Romanée- Conti safra 1971 (conhecida como uma das melhores do século) é a estrela mais cintilante dessa constelação milionária. Não é para menos. Peça raríssima, ele é vendido por nada menos que R$ 7 mil a garrafa. É Elídio Lopes Cavalcanti, diretor de marketing da Expand, quem coordena pessoalmente as compras dessas garrafas, conservadas em uma adega climatizada e tratadas como obras de arte. "É um vinho que entra em seu apogeu depois de 15 anos e conta com poucas unidades: a vinícola só produz cinco mil por ano", diz Lopes. "Tudo o que se consegue importar desses vinhos sai." Dessas garrafas especiais, com preços entre R$ 5 mil e R$ 10 mil, ele vende cerca de 50 por ano. De safras como a de 1992 (o Romanée-Conti deste ano custa R$ 1,2 mil) saem mais que o dobro. O prefeito Paulo Maluf, conhecido por ser dono de uma das adegas mais bem fornidas de São Paulo, é um assíduo cliente da casa. Para acompanhar, há uma linha de frios importados, queijos que vêm da França a cada 15 dias, patês, caviar e uma série de verduras e legumes fornecida por Lita Pinheiro, dona de uma horta em Itatiba, no interior do Estado. Só de alface são 36 variedades. Há ainda 16 tipos de pimenta, seis de cenoura, aspargos frescos, mache, uma verdura que é moda na França, endívia, basílico etc. "Compro sementes da França, Itália, Estados Unidos, Holanda e Japão", diz Lita. Os preços, surpreendentemente, se equiparam aos de feiras e supermercados.

JUCA RODRIGUES

Romanée-Conti/92 - R$ 1.200

A tradicional Casa Santa Luzia, nos Jardins, aberta há 70 anos, é conhecida pela gama variada de itens importados, um show colorido e aromático, que atrai clientes como Roberto Carlos, que manda seus secretários diariamente ao supermercado para abastecer as despensas da família. Entre os 17 mil produtos, oito mil são importados e respondem pela metade do faturamento da casa. Não faltam tops como caviar, morilles (um cogumelo francês raríssimo), salmões, trufas, azeites trufados e curiosidades como flores comestíveis, vendidas a R$ 300 o quilo.

Carlos Gonçalves, um dos gerentes, conhece os fregueses mais assíduos pelo nome. Também tem na ponta da língua uma galeria de histórias que ilustram bem o sentimento de culpa que norteia essas compras luxuosas. Uma dona de casa frequente, ele revela, chega a ter o trabalho de passar as compras em dois diferentes caixas, para não revelar à empregada que sempre a acompanha o valor descomunal daquelas latinhas e garrafas. São os homens que se permitem mais prazer nessas compras, guardadas depois para almoços ou jantares especiais. Heloisa Saddi Ayres, proprietária da importadora Sadima, e com uma loja no Bar des Arts, em São Paulo, pode comprovar essa tese na prática. Sua requintada lista de produtos, que inclui, além de caviar Beluga e morilles, magret de canard e foie gras frescos, ambos franceses, é cortejada com mais vigor por um público masculino bastante versátil. Quem pensa que só empresários e políticos se refestelam com esse cardápio, engana-se. Alternativos como o artista plástico e performer Fernando Zarif são fiéis à loja. Zarif tem uma paixão incontida por foie gras, que devora em noites lânguidas e solitárias. Heloisa também fornece trufas, mostardas francesas diversas e o salmão norueguês Balik, considerado o melhor do mundo. "Ele é defumado na Suíça pela técnica dos czares. Quem experimenta não quer saber de outro."

JUCA RODRIGUES

Centolla chilena - R$ 36 (1 kg)

Os amantes da boa mesa não se importam de gastar tanto dinheiro nos chamados perecíveis. O publicitário carioca Ruy Rodrigues, 46 anos, acha que é um bom investimento. "Ficar com água na boca é um pecado", diz ele. Rodrigues pretende abrir no aniversário do filho Bruno, 14 anos, em dezembro, uma das garrafas de Chateau Petrus, safra 81, que comprou há algum tempo e está devidamente guardada a sete chaves. "Vou iniciá-lo no mundo etílico, mas ele vai começar com uma colher de sobremesa." O publicitário costuma fazer compras na Lidador, no centro do Rio, casa de 72 anos que chega a vender, em um único dia, cinco garrafas de Chateau Petrus safra 92 (R$ 750 cada). O proprietário Joaquim Cabral Guedes acompanha satisfeito o tilintar das caixas registradoras, enquanto desfila pela loja num terno impecável, entre baforadas de um charuto Alonzo Menendes. "Não precisa ser rico para comer ou beber bem. Precisa é ter o gosto apurado."

Os produtos importados também têm crescido em grandes redes de supermercados como o Pão de Açúcar, onde hoje ocupam 30% das prateleiras. Há três anos, eram 10%. No Pão de Açúcar do shopping Market Place em São Paulo encontram-se cerca de três mil itens como os patês da famosa marca francesa Fauchon e terrines de fígado de ganso trufado da linha Ducs de Gascogne, além de morangos e damascos americanos, endívias e cogumelos dinamarqueses.

Colaborou Valéria Propato -Terra


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