A fauna ictiológica da Amazônia, certamente, é incomparável, sendo considerada a maior do mundo, dada a variedade substancial desses seres aquáticos de couro também chamados "de pele") e de escamas, atingindo mais de 1.200 espécies de peixes comestíveis, existentes nos rios, nos lagos, nos paranás e nos igarapés, sem esquecer os encontrados nos pântanos e nos igapós e os que vêm direto do mar. À guisa de ilustração, mencionamos _ o que vem aumentar a cifra sobredita _ a grande quantidade de peixes ornamentais, comércio que se desenvolveu, sobremaneira, a partir do empenho de piscicultores norte-americanos, japoneses, europeus e brasileiros.
De tamanhos diversificados se há alguns que medem um dedo de criança e vão, outros, dos cinco aos vinte centímetros, há os que atingem para mais de três metros de comprimento e um metro e meio de circunferência como é o caso das piraíbas, da pirarara e do famoso pirarucu. Um só exemplo desses alimenta muito mais que uma família, embora o caboclo prefira a carne dos "filhotes", ou seja, os mesmos peixes ainda pequenos ou de médio porte, pelo fato de possuírem a carne mais tenra e, por isso mesmo, mais saborosa, além de que, segundo uma crença popular, todo peixe ao atingir a idade adulta, por assim dizer, e cujo nome inicia-se por "pirá" (peixe, em tupi), sendo "de pele", é considerado "reimoso", isto é, que tem reima, que prejudica o sangue, sendo, portanto, transmissor de doenças de pele, inclusive do mal de Hansen.
Embora cientistas renomados tenham, já, procedido a exames minuciosos em muitos desses peixes e concluído que todo esse arrazoado pertença, mesmo, ao mundo das lendas, das crendices, das abusões, o povo da Amazônia, num sentido abrangente, respeita-lhes a opinião, mas permanece firme em suas convicções. Assim, mulher parida; curumim emperebado; gente que passou por cirurgia recente ou sofreu golpe de faca, de machado ou seja lá do que for; homem que pegou "doença do mundo" (gonorréia e afins), comer peixe de pele? Nem pensar!
De carne tenra ou dura: branca, amarela, "encardida" (acinzentada) ou escura; cozidos, assados de brasa ou no moquém, fritos, ensopados, no tucupi, o peixe pontifica na mesa do rico, do remediado e do pobre, soberano, sem nunca perder a majestade, venha servido em bandeja ou terrina de prata; venha enrolado na folha da bananeira sororoca e/ou na humilde e tosca gamela de madeira ou de barro, quem se importa?, o bom mesmo é o aroma que dele se desprende; o bom mesmo é a fome que engrossa e quer ser saciada diante de tão magnífico acepipe.
Dos rios, provêm a gurijuba e a uritinga, de carne amarelada, fibrosa. Por esse motivo, são preparadas cozidas (caldeirada tradicional) e, também, no tucupi adubado com jambu. Interessante observar que, da gurijuba, a parte mais apreciada é a cabeça. Assada de brasa, de forno ou moqueada, rica de carnes mais tenras e gelatinosas, por si só, faz a festa. Dela, prepara-se, a famosa mujica, e a sopa, engrossada com farinha de mandioca, da fina ou, para quem gosta, com farinha de arroz e/ou de macaxeira. Muito condimentada, à base de temperos verdes e pimenta-de-cheiro, é iguaria reputada deliciosa. Come-se, também, mergulhada no tucupi e acompanhada de jambu. A cabeça, depois de retiradas as carnes é, cuidadosamente, limpa, posta a secar e envernizada, constituindo-se objeto de adorno nas lojas de artesanato, posto que na sua parte interna, a ossatura impressiona, figurando um Cristo crucificado, perfeito.
Peixes de rios e, também, de igarapés e paranás, são os acarás, acarauaçus, sardinhas, traíras, sarapós, jandiás, jejus, mandubés, maparás, surubins que se comem cozidos, fritos ou, simplesmente, moqueados, não esquecendo o tambaqui, o tucunaré, o curimatã, o matrinchã, a pratiqueira, a tainha e tantos outros mais.
O tambaqui é altamente nutritivo e um dos mais procurados pela excelência da carne. Peixe de pequeno a médio porte, nutre-se,
principalmente de frutos silvestres, encontrados às margens dos rios e nos igapós e de moluscos espalhados pelas enseadas e sacados (1). Come-se cozido; entretanto, assado no moquém ou achurrascado, é apreciadíssimo.
O preparo do tambaqui achurrascado é muito simples. O peixe é lavado apenas com água, depois de livre das vísceras. Nenhum condimento é usado, nem mesmo o sal e o limão, pois o tempero é a própria gordura do tambaqui que, com o calor das brasas, vai entranhando na carne alva e, o mais importante, retendo os valores nutritivos ganhos a partir da alimentação do peixe que, como já se disse, é a base de sementes, frutos e amêndoas existentes nos igapós. Segundo os ictiófagos mais exigentes, é prato de fino paladar.
Curimatã - É um peixe apreciado, mas há que saber prepará-lo pois, do contrário, o pitiú invade-lhe a carne, desprestigiando-a completamente. A sede do pitiú está em um fio esbranquiçado que se encontra dentro da carne, à semelhança de um nervo com dois filamentos, logo atrás das guelras. A maioria das pessoas renega-o porque não sabe prepará-lo convenientemente e, por isso, é considerado um peixe vulgar, além de que, por ser peixe de lama, o caboclo torce-lhe o nariz. Pura pavulagem!
Na verdade, livre do pitiú, temperado com sal, alho e limão, recheia-se-lhe o ventre com uma farofa feita com farinha fina, de mandioca, na qual se misturam cheiro-verde, chicória, alfavaca e um pouco de pimenta. Não carece colocar óleo nem azeite
português, porque o peixe é gordo e a gordura, junto com a água que dele se solta, vai molhar a farofa enquanto assa, no forno. É uma delícia! Outra maneira excelente de preparar o curimatã é, após limpá-lo e lavá-lo, temperá-lo com sal e limão, enchendo-lhe o ventre com folhas de alfava e chicória. A seguir, embrulhá-lo em folhas de bananeira sororoca e assá-lo no calor e na fumaça de um braseiro, obtendo-se a fumaça ao jogar-se água sobre as brasas vivas. A carne adquire um sabor especial.
Matrinchã e a sarda - São peixes muito gordos e comem-se, geralmente, assados de brasa, depois de limpos e "ticados" dada a muita incidência de espinhas que se espalham pelo meio da carne. São saborosos mas perdem, em paladar, para o mandubé, cuja carne alva e tenra, assada ou cozida, é um pitéu dos deuses.
Surubim - É peixe nobre, de carne delicada, carecendo de espinhas numerosas. Feito caldeirada, moqueca ou, simplesmente, frito é muito apreciado. De porte grande, mede de 2 a 3 metros de comprimento, é abundante não só nos rios da Amazônia como em vários outros do território brasileiro.
Piramutaba - Abundante em nossos rios, é carnívora, alimentando-se de outros peixes menores e, normalmente, junta-se em grandes cardumes. Costuma desovar, nessas ocasiões, em lugares rasos, em rios de água turva, onde há pouca incidência de peixes. Apreciada no estrangeiro, principalmente nos Estados Unidos para onde é fartamente exportada sendo, lá, conhecida pelo nome de Cat Fish (Peixe Gato). Atingindo, em média, 50 cm de comprimento, aduba a mesa cabocla onde é servida cozida ou frita, com tucupi e jambu ou acompanhada de açaí. A mulher cabocla gosta muito, também, de prepará-la, após a salga, ensopada com folhas de vinagreira, jerimum, macaxeira, quiabo e maxixe. Na capital e nas cidades grandes, de um modo geral, torcem-lhe o nariz, sendo considerada um peixe vulgar. Muito difícil fazer parte de cardápios quer caseiros quer de restaurantes que preferem apresentar a familiares e a clientes a dourada e o filhote, mais nobres, de carne saborosa e requisitados pela maioria das pessoas quer na forma da caldeirada tradicional quer com tucupi e jambu ou de outra maneira mais sofisticada.
Tamuatá - Também conhecido pelo nome de cascudo, é peixe antidiluviano. Carne amarela, tenra, saborosa. Mas, há que bem retirar-lhe o forte pitiú. Assim, deixa-se o peixe de molho, por um bom tempo, numa mistura de suco de limão galego, borra de café e um pouco de cachaça. A melhor maneira de prepará-lo é no tucupi, adubado com jambu. Entretanto, cozido, simplesmente, em água e sal com bastante cheiro-verde é saborosíssimo. Peixe sem "faceirices", no dizer do caboclo, dá-se bem em qualquer lugar onde haja água: em charcos, nos campos; em lagoas; em poças mais ou menos fundas e lamacentas nos quintas caseiros e, até mesmo, nas valas das ruas. É interessante o seu comportamento: em períodos de seca (máxime nos campos do Marajó), enquanto outros peixes morrem dada a carência de água, o tamuatá luta pela sobrevivência e, aos pulos, atravessa, por vezes, distâncias consideráveis para um peixe, até encontrar um lugar onde exista água, por pouca que seja. É dono de uma resistência incrível, portanto! E, em conseqüência disso, é garantia segura na mesa dos menos favorecidos.
Na ilha do Marajó, principalmente no lago Arari, nos campos de Cachoeira, a abundância de peixes é famosa, sem contar os peixes do mar, em outros lugares da ilha dada a vizinhança do Atlântico.
Há, ali, peixes com características interessantes. O coró, por exemplo. Apreciado por muitos, no mês de julho, porém, ninguém que o conheça, atreve-se a comer-lhe a cabeça. Não se sabe bem o porquê, mas, àquela época, há uma formação tamanha de fosfato na cabeça do coró que, ele, por assim dizer, nessa região, torna-se venenoso. As pessoas que têm a desven
tura, por desconhecimento, de comer-lhe essa parte do todo, adoecem vítimas de sérias tonturas e vômitos incoercíveis portando-se como se bêbadas estivessem.
Da família dos acangatás, há quatro espécies muito apreciadas: o acangatá jurupiranga, o seludo, o cambéua e o da baía.
Acangatá jurupiranga, por que? Porque é um peixe de cabeça (a'kag) dura (atá) e de boca (juru) vermelha (piranga).
O acangatá ou cangatá seludo é assim denominado por possuir no centro do dorso um osso cujo formato assemelha-se às selas usadas nos cavalos. O cambéua (pewa = chata) por, como o próprio nome indica, possuir a cabeça achatada e o da baía, o maior, porque é pescado na Baía do Marajó. De um modo geral, os acangatás são encontrados mais freqüentemene no Rio Paracauari que banha a cidade de Soure, a mais importante da Ilha do Marajó. Peixes considerados nobres, podem ser preparados cozidos, mas o marajoara prefere-os assados de brasa, simplesmente, ou no tucupi com bastante jambu e pimenta.
Outro peixe interessante é o pacamun cuja incrível parecença com um sapo, mormente a cara, confere-lhe um ar hilário.
O "Cachorrinho de Padre" é, também, muito engraçado de aparência e a alcunha vem-lhe do aspecto: é um peixe muito gordo.
Além desses, o bagre, o mero, as pescadas, além do apaiari, do carataí, os tucunarés, os aracus, os mandubés, os jacundás e as piranhas, abundantes no Lago Arari não esquecendo os espadartes, os tubarões e os cações, dos lados do Atlântico, os três últimos.
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PIRACUÍ, delícia do Baixo Amazonas, substitui os "bolinhos" de bacalhau e pirarucu.
Acari - É peixe cascudo e dele há grande número de espécies. De carne saborosa é considerado alimento de poupança quando moqueado, servindo ao caboclo em viagens longas, porque conserva-se, por muito tempo, sadio. O caboclo, porém, aproveita-o de outra maneira. Assim, após assá-lo, soca-o no pilão, obtendo o famoso "piracuí", isto é, farinha (cuí) de peixe (pirá). Segundo os entendidos o melhor piracuí é procedente de Alenquer onde, além do acari, outros tipos de peixes são utilizados na sua feitura. O piracuí é servido sob forma de bolinhos ou de torta, assada de forno e, também, para engrossar sopas e/ou mujicas, sendo, além de bastante apreciado, muito nutritivo. Em Belém, é fácil encontrar essa farinha nos melhores supermercados da cidade. |
Tainha - É uma das rainhas da fauna ictiológica dos nossos pagos. Peixe nobre, de carne saborosa, o seu grande trunfo são as ovas. Deliciosas, simplesmente cozidas na água e sal, fritas ou assadas, em absolutamente nada ficam a dever às ovas do esturjão das quais é feito o caviar. Até melhores e justifica-se. Ao tempo que moramos em Brasília, tivemos por amigo um diplomata russo que as degustou preparadas por nós. Ele ficou simplesmente maravilhado com o sabor, a leveza e a textura da iguaria. Fizemo-las bem simplesmente, cozidas na água e sal, depois assadas e acompanhadas de um molho onde pontificavam nossos temperos verdes, um pouco de azeite português mais torradinhas quentes. Dos dois quilos que recebemos de Belém, preparamos um e foi a sorte porque nosso amigo não se fez de rogado: comeu todas, raspou o prato, lambeu os beiços e, sem a menor cerimônia, perguntou se não havia mais. Deus que me perdôe porque não somos escassa, muito menos sovina, mas, com a cara mais lavada e o melhor sorriso do mundo, dissemo-lhes que lamentávamos muito, mas, aquelas eram as últimas ovas, ora, ora!
A lista é grande, o espaço é pequeno. Quem nos dera pudéssemos enumerá-los, fotografá-los a modo todos os conhecerem e apresentar as mais deliciosas receitas preparadas com os nossos peixes, porque pequenos, médios, ou grandes; cozidos, assados, moqueados ou como sejam preparados, todos, sem exceção, mesmo os mais humildes, os mais pequeninos, deveriam, poderiam ser servidos em bandejas de ouro ou de prata em banquetes palacianos.
Sem a menor, sem a mínima dúvida!
(1) Lagoa que se forma na época da enchente, no Rio Amazonas e em seus afluentes ocidentais, de um lado pela sinuosidade do leito fluvial e, de outro, pelo impulso da água, que tende a correr em linha reta, convertendo em lençóis de água as curvas forçadas que as margens apresentam.
TV Liberal