A grande maioria das mulheres já passou pela desagradável experiência de uma cistite, seja lá qual for sua etiologia. É esperado, é possível, que uma vez ao ano (a cada 12 meses), ocorra um episódio de cistite aguda na mulher. Se recebo uma cliente nestas condições, já a deixo tranqüila, que apesar de desagradável, pode acontecer. Mais que uma vez entretanto, deve ser investigado.
A somatória dos sintomas citados no texto das ITU, nos dá uma idéia do desconforto experimentado pelo portador de uma cistite, seja homem ou mulher. Por motivos anatômicos, a mulher é mais susceptível às cistites que o homem . A mulher possui uma uretra (canal da urina da bexiga para o exterior) com um quinto ou um sexto do comprimento da masculina, portanto o acesso à cavidade vesical (bexiga) é muito mais fácil pois o caminho é mais curto e a chance do germe (bactéria) aí chegar e multiplicar-se é maior. Dependendo da população inoculada (contaminação), os agentes bactericidas naturais da bexiga não são suficientes para evitar a infecção. Lembro aqui que, a cada 20 minutos a população bacteriana, desde que em meio (ambiente) propício, dobra de número (!!!!), com os sintomas aparecendo em poucos dias. Anatomicamente falando, a uretra feminina localiza-se sobre a vagina e esta por sua vez está acima do ânus, todas estas estruturas ainda cobertas ("abafadas") pelos lábios da vulva, pequenos e grandes. Assim fica fácil entender que neste ambiente "potencialmente contaminado" (existe uma flora (bactérias) normal na vulva) por germes habituais, na maioria das vezes saprófitas (que se alimentam de restos celulares menstruais, espermáticos, etc.), qualquer desequilíbrio populacional entre os germes saprófitas e patogênicos (causam doenças) quem vai sair ganhando é o patogênico, mais resistente e com multiplicação mais rápida. O causador deste desequilíbrio, pode ser um hábito de higiene íntima errônea, como o uso absorventes higiênicos mesmo fora do período menstrual ou as duchas vaginais "anti-sépticas" ou ainda alguma alteração anatômica como a carúncula (ou pilar) himenal, que não permite uma "lavagem" efetiva ("wash-out") da uretra pela urina no pós-coito. O hábito de urinar após a relação sexual é bastante recomendado para todas as mulheres, pois nas penetrações, o entra e sai do pênis da vagina, traz e leva germes para a uretra feminina, inoculando germes que podem se tornar patogênicos ao chegar à bexiga. Alterações do hábito intestinal, principalmente nas mulheres obstipadas (ressecadas) podem facilitar as cistites, bem como alterações hormonais da menopausa, pela profunda dependência de estrogênio que a uretra têm. Ainda, mulheres diabéticas tendem a fazer cistites de repetição e o diabetes deve ser sempre investigado. O (péssimo) mau hábito de não ingerir líquidos, comum entre as mulheres, concentra o meio vesical e o pouco volume faz com que a urina não se troque na "velocidade" correta, dando tempo ao germe de se multiplicar.
Por tudo que foi exposto acima, é claro que o tratamento das cistites vai muito além do antibiótico indicado (deve-se pedir sempre urocultura com antibiograma), pois corrigir alguns hábitos são fundamentais para evitar recidivas.
No homem, as cistites são mais comuns associadas aos problemas obstrutivos da próstata ou situações correlatas, como cálculo vesical, divertículo vesical, estenose de uretra, diabetes, etc. Qualquer ITU do homem deve ser investigada, pois pode levar a diagnósticos mais complexos como os acima citados.