Pneumologia/Pulmão - Características das pneumonias aspirativas graves em idosos
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Pneumologia/Pulmão

Características das pneumonias aspirativas graves em idosos

28/06/2003

 

Microbiology of severe aspiration pneumonia in institutionalized elderly
El-Solh AA, Pietrantoni C, Bhat A et al.
American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine 2003;167:1650-1654.

Introdução

A pneumonia aspirativa é comum em pacientes idosos em função deles apresentarem tosse ineficaz, comprometimento dos mecanismos de clareamento das vias aéreas, dificuldade no manejo das secreções de orofaringe e co-morbidades que favorecem a colonização da orofaringe por bactérias patogênicas. Nesse estudo os autores avaliam as características clínicas e etiológicas dessas pneumonias.

Métodos

Foram estudados prospectivamente todos os pacientes com idade igual ou maior que 65 anos, provenientes de asilos, internados com suspeita de pneumonia aspirativa grave, entre 2000 e 2002. O diagnóstico de pneumonia aspirativa grave foi estabelecido pelos seguintes critérios:

·         surgimento de novo infiltrado radiográfico compatível com pneumonia;

  • sintomas e sinais sugestivos de infecção respiratória - pelo menos um maior e dois menores:

o        maiores: tosse, produção de escarro, febre ou hipotermia

    • menores: dor torácica, dispnéia, delirium, hipoxemia, leucocitose ou leucopenia ou desvio a esquerda
  • necessidade de ventilação mecânica;
  • presença de fator de risco para aspiração – dificuldade de deglutição documentada, secundária a doença neurológica, ou a alteração na junção esofagogástrica ou a alterações de vias aéreas superiores.

O diagnóstico etiológico foi pesquisado através de hemoculturas, pesquisa de antígeno urinário para legionela e pneumococo, cultura de líquido pleural e cultura do lavado broncoalveolar (>103).

Resultados

Foram avaliados 95 pacientes com pneumonia aspirativa grave, 43 causadas por bactérias aeróbicas, 11 por anaeróbicas e 41 de etiologia indeterminada. Não houve diferenças importantes em relação à apresentação dos sintomas e às alterações radiográficas conforme a etiologia fosse aeróbica ou anaeróbica (tabela a seguir). Embora classicamente se diga que a etiologia anaeróbica não é comum em pacientes sem dentes, entre os onze pacientes que a apresentaram, três não tinham dentes.

Características clínicas das pneumonias

.

Aeróbicas

Anaeróbicas

Indefinidas

Tosse

30%

18%

12%

Febre

67%

63%

80%

Dispnéia

86%

91%

88%

Delirium

47%

64%

44%

Características radiográficas das pneumonias

Multilobar

28%

36%

46%

Bilateral

23%

18%

39%

Derrame pleural

2%

0%

10%

Progressão em 24 horas

33%

36%

41%

Os agentes etiológicos mais freqüentes foram os bacilos entéricos gram-negativos (49%), seguidos das bactérias anaeróbicas (16%) e do S. aureus (12%). Não foram identificados agentes atípicos. Todos os agentes identificados estão ilustrados no quadro a seguir.

Agentes etiológicos identificados

.

Grupo aeróbico

Grupo anaeróbico

Cocos gram-positivos

·  S. pneumoniae

5

0

·  Streptococcus spp

6

0

·  S. aureus

8

0

Bacilos gram-negativos

·  H. influenzae

2

0

·  E. coli

11

2

·  K. pneumoniae

8

2

·  Serratia spp.

7

1

·  P. mirabilis

6

1

·  Enterobacter cloacae

1

0

·  P. aeruginosa

2

0

Anaeróbicos

 

 

·  Prevotella spp.

0

6

·  Fusobacterium spp.

0

3

·  Bacteroides spp

0

1

·  Peptostreptococcus spp.

0

1

O quadro abaixo ilustra o perfil de sensibilidade das bactérias anaeróbicas aos principais antibióticos anaerobicidas.

Sensibilidade das bactérias anaeróbicas aos antibióticos

.

Penicilina
sensível/resistente

Metronidazol
sensível/resistente

Clindamicina
sensível/resistente

Prevotella spp.

4/2

5/1

6/0

Fusobacterium spp.

3/0

3/0

3/0

Bacteroides spp.

1/0

1/0

1/0

Peptostreptococcus spp

0/1

1/0

1/0

Não houve diferenças em relação à duração da ventilação mecânica e da internação na UTI, bem como na mortalidade, entre as pneumonias por bactérias aeróbicas ou anaeróbicas.

Conclusões

As bactérias anaeróbicas mostraram-se importantes agentes etiológicos nesse grupo de pacientes idosos com pneumonia aspirativa grave. Como as características clínicas e radiográficas das pneumonias por esses agentes são similares às pneumonias por bactérias aeróbicas, a cobertura contra anaeróbico deve ser incluída no tratamento antimicrobiano empírico.

Comentários

Esse estudo tem o grande mérito de comprovar a importante participação das bactérias gram-negativas e das anaeróbicas, seguidas do S. aureus, na etiologia da pneumonia aspirativa grave em pacientes idosos institucionalizados. Como as bactérias anaeróbicas foram isoladas, em muitos pacientes, concomitantemente com bacilos entéricos gram-negativos, não se pôde caracterizar, com certeza, o papel desses agentes na patogênese da pneumonia aspirativa. Esse questionamento é reforçado pelo fato de que alguns pacientes melhoraram clinicamente mesmo sem receber tratamento específico contra anaeróbios. Até que essas dúvidas sejam esclarecidas, do ponto de vista prático, o tratamento empírico deve incluir, nesses casos, antibióticos anaerobicidas.

Outro dado interessante, que já vem sendo mostrado nas diferentes etiologias de pneumonias comunitárias, é que as apresentações clínica e radiográfica não são suficientes para se estabelecer a participação de um ou outro grupo de agentes. Daí a necessidade, nas formas graves, de esquemas empíricos inicialmente amplos, que podem ser reduzidos após a chegada de um resultado microbiológico confiável.

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