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Microbiology of severe aspiration pneumonia in institutionalized elderly El-Solh AA, Pietrantoni C, Bhat A et al. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine 2003;167:1650-1654.
Introdução
A pneumonia aspirativa é comum em pacientes idosos em função deles apresentarem tosse ineficaz, comprometimento dos mecanismos de clareamento das vias aéreas, dificuldade no manejo das secreções de orofaringe e co-morbidades que favorecem a colonização da orofaringe por bactérias patogênicas. Nesse estudo os autores avaliam as características clínicas e etiológicas dessas pneumonias.
Métodos
Foram estudados prospectivamente todos os pacientes com idade igual ou maior que 65 anos, provenientes de asilos, internados com suspeita de pneumonia aspirativa grave, entre 2000 e 2002. O diagnóstico de pneumonia aspirativa grave foi estabelecido pelos seguintes critérios:
· surgimento de novo infiltrado radiográfico compatível com pneumonia;
- sintomas e sinais sugestivos de infecção respiratória - pelo menos um maior e dois menores:
o maiores: tosse, produção de escarro, febre ou hipotermia
- menores: dor torácica, dispnéia, delirium, hipoxemia, leucocitose ou leucopenia ou desvio a esquerda
- necessidade de ventilação mecânica;
- presença de fator de risco para aspiração – dificuldade de deglutição documentada, secundária a doença neurológica, ou a alteração na junção esofagogástrica ou a alterações de vias aéreas superiores.
O diagnóstico etiológico foi pesquisado através de hemoculturas, pesquisa de antígeno urinário para legionela e pneumococo, cultura de líquido pleural e cultura do lavado broncoalveolar (>103).
Resultados
Foram avaliados 95 pacientes com pneumonia aspirativa grave, 43 causadas por bactérias aeróbicas, 11 por anaeróbicas e 41 de etiologia indeterminada. Não houve diferenças importantes em relação à apresentação dos sintomas e às alterações radiográficas conforme a etiologia fosse aeróbica ou anaeróbica (tabela a seguir). Embora classicamente se diga que a etiologia anaeróbica não é comum em pacientes sem dentes, entre os onze pacientes que a apresentaram, três não tinham dentes.
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Características clínicas das pneumonias |
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. |
Aeróbicas |
Anaeróbicas |
Indefinidas |
|
Tosse |
30% |
18% |
12% |
|
Febre |
67% |
63% |
80% |
|
Dispnéia |
86% |
91% |
88% |
|
Delirium |
47% |
64% |
44% |
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Características radiográficas das pneumonias |
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Multilobar |
28% |
36% |
46% |
|
Bilateral |
23% |
18% |
39% |
|
Derrame pleural |
2% |
0% |
10% |
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Progressão em 24 horas |
33% |
36% |
41% |
Os agentes etiológicos mais freqüentes foram os bacilos entéricos gram-negativos (49%), seguidos das bactérias anaeróbicas (16%) e do S. aureus (12%). Não foram identificados agentes atípicos. Todos os agentes identificados estão ilustrados no quadro a seguir.
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Agentes etiológicos identificados |
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. |
Grupo aeróbico |
Grupo anaeróbico |
|
Cocos gram-positivos |
|
· S. pneumoniae |
5 |
0 |
|
· Streptococcus spp |
6 |
0 |
|
· S. aureus |
8 |
0 |
|
Bacilos gram-negativos |
|
· H. influenzae |
2 |
0 |
|
· E. coli |
11 |
2 |
|
· K. pneumoniae |
8 |
2 |
|
· Serratia spp. |
7 |
1 |
|
· P. mirabilis |
6 |
1 |
|
· Enterobacter cloacae |
1 |
0 |
|
· P. aeruginosa |
2 |
0 |
|
Anaeróbicos |
|
|
|
· Prevotella spp. |
0 |
6 |
|
· Fusobacterium spp. |
0 |
3 |
|
· Bacteroides spp |
0 |
1 |
|
· Peptostreptococcus spp. |
0 |
1 |
O quadro abaixo ilustra o perfil de sensibilidade das bactérias anaeróbicas aos principais antibióticos anaerobicidas.
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Sensibilidade das bactérias anaeróbicas aos antibióticos |
|
. |
Penicilina sensível/resistente |
Metronidazol sensível/resistente |
Clindamicina sensível/resistente |
|
Prevotella spp. |
4/2 |
5/1 |
6/0 |
|
Fusobacterium spp. |
3/0 |
3/0 |
3/0 |
|
Bacteroides spp. |
1/0 |
1/0 |
1/0 |
|
Peptostreptococcus spp |
0/1 |
1/0 |
1/0 |
Não houve diferenças em relação à duração da ventilação mecânica e da internação na UTI, bem como na mortalidade, entre as pneumonias por bactérias aeróbicas ou anaeróbicas.
Conclusões
As bactérias anaeróbicas mostraram-se importantes agentes etiológicos nesse grupo de pacientes idosos com pneumonia aspirativa grave. Como as características clínicas e radiográficas das pneumonias por esses agentes são similares às pneumonias por bactérias aeróbicas, a cobertura contra anaeróbico deve ser incluída no tratamento antimicrobiano empírico.
Comentários
Esse estudo tem o grande mérito de comprovar a importante participação das bactérias gram-negativas e das anaeróbicas, seguidas do S. aureus, na etiologia da pneumonia aspirativa grave em pacientes idosos institucionalizados. Como as bactérias anaeróbicas foram isoladas, em muitos pacientes, concomitantemente com bacilos entéricos gram-negativos, não se pôde caracterizar, com certeza, o papel desses agentes na patogênese da pneumonia aspirativa. Esse questionamento é reforçado pelo fato de que alguns pacientes melhoraram clinicamente mesmo sem receber tratamento específico contra anaeróbios. Até que essas dúvidas sejam esclarecidas, do ponto de vista prático, o tratamento empírico deve incluir, nesses casos, antibióticos anaerobicidas.
Outro dado interessante, que já vem sendo mostrado nas diferentes etiologias de pneumonias comunitárias, é que as apresentações clínica e radiográfica não são suficientes para se estabelecer a participação de um ou outro grupo de agentes. Daí a necessidade, nas formas graves, de esquemas empíricos inicialmente amplos, que podem ser reduzidos após a chegada de um resultado microbiológico confiável. |