Cardiologia/Coração/CirurgCardíaca - Prescrição de dieta na insuficiência cardíaca crônica: por que não fazemos?
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Cardiologia/Coração/CirurgCardíaca

Prescrição de dieta na insuficiência cardíaca crônica: por que não fazemos?

08/03/2010

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

 

Arq. Bras. Cardiol. vol.93 no.5 São Paulo nov. 2009

doi: 10.1590/S0066-782X2009001100003 

EDITORIAL

 

Prescrição de dieta na insuficiência cardíaca crônica: por que não fazemos?

 

 

Adriana Lopes Latado

Hospital Universitário Professor Edgard Santos; Hospital Ana Neri; Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA - Brasil

Correspondência

 

 


Palavras-chave: Prescrição não medicamentosa, dieta, insuficiência cardíaca.


 

 

Programas de tratamento para pacientes portadores de insuficiência cardíaca crônica são eficazes em reduzir desfechos clínicos, especialmente reinternações. Equipes multidisciplinares participam desses programas, incluindo médicos clínicos e cardiologistas, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, entre outros1. Em anos recentes, tem sido reconhecida a importância da nutrição no prognóstico e no tratamento de pacientes com insuficiência cardíaca. Witte e cols.2, em ensaio clínico controlado, demonstraram um efeito significante da suplementação de uma combinação de micronutrientes na função ventricular, além de aparente melhora na qualidade de vida dos portadores de insuficiência cardíaca.

A insuficiência cardíaca crônica está associada à ingestão inadequada de calorias e proteínas, além de reduzida disponibilidade energética para atividade física3. Deficiências de micronutrientes e vitaminas já foram descritas e decorrem de fatores comuns na síndrome (baixa ingestão, depleção por uso de diuréticos e, em algumas situações, gasto excessivo), além de, por outro lado, poder desencadear ou piorar a doença cardíaca4.

Muitos esforços têm sido despendidos na pesquisa clínica sobre terapias farmacológicas da insuficiência cardíaca nas últimas décadas. Contudo pouca atenção tem sido dada ao seu tratamento não farmacológico, particularmente a orientação nutricional.

O artigo de Lourenço e cols.5 traz novamente a questão dos distúrbios nutricionais que acompanham pacientes com insuficiência cardíaca estável crônica, em uma amostra composta por indivíduos atendidos em clínica especializada. Esses autores demonstraram a ocorrência de depleção das reservas musculares e inadequação da ingestão de diversos nutrientes da dieta, como magnésio, zinco, ferro, tiamina, cálcio, potássio e sódio.

Apesar de a maioria dos pacientes ter relatado ingestão de carboidratos, lipídeos e proteínas dentro das recomendações atuais6, 38,4% dos casos apresentaram depleção ou risco de depleção das reservas musculares, medida por meio da área muscular do braço. Ainda nesse subgrupo, a maioria dos pacientes tinha Índice de Massa Corpórea (IMC) dentro dos limites normais (24,2 ± 3,2kg/m2), chamando a atenção para a limitação do emprego do IMC como marcador de adequação da ingestão calórica em pacientes com insuficiência cardíaca.

A insuficiência cardíaca é caracterizada por hipercatabolismo3. A inadequação da ingestão calórica comporta-se como estado catabólico adicional, propiciando a deterioração progressiva das concentrações de glicogênio e aminoácidos intracelulares e a degradação da proteína muscular7. A evolução desse processo culminaria na instalação da caquexia cardíaca, importante fator prognóstico de qualidade de vida e sobrevida da insuficiência cardíaca3,7.

A ingestão inadequada de micronutrientes (minerais e tiamina) também ocorreu em significativo percentual de pacientes no estudo de Lourenço e cols5. Deficiências em micronutrientes são comuns em pacientes com insuficiência cardíaca crônica, e sua origem parece ser multifatorial4. As ingestões de cálcio, potássio e magnésio foram descritas como abaixo do recomendável na quase totalidade dos pacientes avaliados; ao contrário do sódio, cuja ingestão esteve acima do nível, sendo considerada adequada em 84% dos indivíduos pesquisados5.

O estudo de Lourenço e cols.5 tem limitações, algumas já citadas pelos autores: dados colhidos retrospectivamente a partir de relato dos pacientes, sujeitos a vieses de lembrança e de classificação; e a não-utilização de variáveis bioquímicas na avaliação nutricional dos pacientes, limitando-se às interpretações dos dados antropométricos.

Outros aspectos também são relevantes. O tamanho amostral é pequeno, limitando a validade de algumas associações descritas. Existe uma carência de informações clínicas e de exames complementares acerca da amostra estudada. Isso poderia, direta ou indiretamente, interferir nos achados descritos, a exemplo de etiologia da insuficiência cardíaca, fração de ejeção do ventrículo esquerdo, classe funcional, presença de insuficiência renal, entre outros.

Pacientes com falência renal significativa apresentam alterações humorais e metabólicas que, por si, interferem no estado nutricional8. Pacientes com insuficiência cardíaca secundaria à doença de Chagas estão sujeitos aos efeitos do nível socioeconômico mais baixo, que podem afetar diretamente os hábitos dietéticos. Apesar de o grau da disfunção sistólica ventricular esquerda não se associar ao nível de desnutrição dos pacientes com insuficiência cardíaca em alguns estudos prévios9,10, essa é uma questão ainda controversa, visto que a perda de peso desses pacientes está vinculada a alterações neuro-humorais e imunológicas mais intensas9.

De qualquer modo, o trabalho de Lourenço e cols.5 é importante por reforçar a ideia da necessidade de se avaliar sistematicamente o estado nutricional de pacientes portadores de insuficiência cardíaca crônica, no contexto da assistência multidisciplinar, cujos benefícios já são bem estabelecidos. Estudos clínicos controlados e randomizados são necessários para investigar a eficácia de reposições específicas de nutrientes no prognóstico desses pacientes.

 

Referências

1. Stewart S, Marley JE, Horowitz JD. Effects of a multidisciplinary, home-based intervention on unplanned readmissions and survival among patients with chronic congestive heart failure: a randomized controlled study. Lancet. 1999; 354: 1077-83.         [ Links ]

2. Witte KKA, Nikitin NP, Parker AC, von Halhling S, Volk HD, Anker SD, et al. The effect of micronutrient supplementation on quality-of-life and left ventricular function in elderly patients with chronic heart failure. Eur Heart J. 2005; 26: 2238-44.         [ Links ]

3. Aquilani R, Opasich C, Verri M, Boschi F, Febo O, Pasini E, et al. Is nutritional intake adequate in chronic heart failure patients? J Am Coll Cardiol. 2003; 42: 1218-23.         [ Links ]

4. Witte KKA, Clark AL, Cleland JGF. Chronic heart failure and micronutrients. J Am Coll Cardiol. 2001; 37: 1765-74.         [ Links ]

5. Lourenço BH, Vieira LP, Macedo A, Nakasato M, Marucci MF, Bocchi EA. Estudo nutricional e adequação da ingestão de energia e nutrients em pacientes com insuficiência cardíaca. Arq Bras Cardiol. (In Press).         [ Links ]

6. Food and Nutrition Board. Dietary reference intakes for energy, carbohydrate, fiber, fat, fatty acids, cholesterol, protein, and amino acids. Washington (DC): National Academic Press; 2005.         [ Links ]

7. Opasich C, Aquilani R, Dossena M, Foppa P, Catapano M, Pagani S, et al. Biochemical analysis of muscle biopsy in overnight fasting patients with severe chronic heart failure. Eur Heart J. 1996; 17: 1686-93.         [ Links ]

8. Cuppari L, Draibe AS, Ançäo MS, Sigulem D, Sustovich DR, Alzen H, et al. Avaliação nutricional em pacientes renais crônicos em programa de hemodiálise: estudo multicêntrico. AMB Rev Assoc Med Bras. 1989; 35 (1): 9-14.         [ Links ]

9. Anker SD, Negassa A, Coats AJS, Afzal R, Poole-Wilson PA, Cohn JN, et al. Prognostic importance of weight loss in chronic heart failure and the effect of treatment with angiotensin-converting enzyme inhibitors: an observational study. Lancet. 2003; 361: 1077-83.         [ Links ]

10. Veloso LG, Oliveira Jr MT, Munhoz RT, Morgado PC, Ramires JAF, Barreto ACP. Repercussão nutricional na insuficiência cardíaca avançada e seu valor na avaliação prognóstica. Arq Bras Cardiol. 2005; 84: 480-5.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Adriana Lopes Latado
Rua Rosa dos Ventos, 39/1002 - Ed. Pedra Alta – Brotas
40286-040 Salvador, BA - Brasil
E-mail:adrianalatado@cardiol.br, abraga@ufba.br

 


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