Contribuições da pobreza, raça e residência em centros urbanos como fatores de risco na asma em crianças.
Risk factors for pediatric asthma. Contributions of poverty, race, and urban residence.
Aligne CA, Auinger P, Byrd RS, Weitzman M.
American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, 2000, 162:873-877.
Introdução: a asma é a doença mais comum na infância, havendo relatos de aumentos em sua incidência, morbidade e mortalidade. Diferenças na prevalência da asma são descritas em função de fatores ambientais, raça e fatores genéticos. Neste estudo, os autores testam a hipótese de que residir em centros urbanos é um fator de risco independente para a asma, mesmo após controle de outros fatores, tais como raça, pobreza, variáveis demográficas e ambientais.
Métodos: foram estudadas informações de 17.110 crianças, com idade entre 0 e 17 anos, obtidas em um banco de dados de um órgão de estudo em saúde dos EUA (National Health Interview Survey). A definição de asma usada no estudo foi a partir do relato dos pais, quando os mesmos diziam que a criança já teve asma e que a teve nos últimos 12 meses. As principais variáveis estudadas como fatores de risco para asma foram: raça, pobreza (dividida em três categorias: pobreza, "quase pobreza", e não pobreza, definidas por critérios de renda americanos) e residência em um centro urbano (considerada como sendo residir na maior cidade de cada região urbana americana).
Resultados: a prevalência de asma na população estudada foi de 4,2% (747 em 17.110 crianças). Quando a raça foi analisada isoladamente, a negra foi identificada como fator de risco para asma, mas quando controlada para pobreza e residência em centros urbanos, ela não mais se constituiu em fator de risco. A residência em centros urbanos, independentemente da raça e do nível de pobreza, constituiu-se em fator de risco para asma. A tabela abaixo mostra os efeitos de se residir em centros urbanos em relação ao risco de se ter asma na infância.
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Residência em centros urbanos, em conjunto com raça e pobreza, como fator de risco para asma na infância |
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OR para asma |
(IC 95%) |
p |
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Residência urbana
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1,4* 1,2*
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(1,1-1,9) (1,01-1,5)
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0,003 0,04
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Residência não urbana
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1,2 -
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(0,8-1,6) -
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0,38 -
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Residência urbana
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1,4* 1,2*
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(1,1-2,0) (1,004-1,5)
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0,02 0,04
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Residência não urbana
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1,03 -
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(0,7-1,5) -
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0,85 -
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OR - razão de riscos; IC - intervalo de confiança
* estatisticamente significante (p<0,05)
residência não urbana + raça branca, residência não urabana + não pobreza foram as referências com as quais as demais situações foram comparadas
Conclusões: os autores concluem que a maior incidência de asma entre crianças negras nos EUA não se deve ao fator racial, mas sim a uma maior associação dessas crianças com níveis sócio-econômicos mais baixos e residência em grandes centros urbanos. Além disso, a residência em centros urbanos, independentemente da raça e do nível sócio-econômico, é um fator de risco para o desenvolvimento de asma na infância. Esses resultados sugerem a necessidade de estudos sobre o impacto de fatores ambientais presentes nos centros urbanos na asma em crianças.
Comentários: os resultados deste estudo mostram a importância dos fatores ambientais relacionados à urbanização no desenvolvimento da asma em crianças, o que pode explicar, pelo menos em parte, o aumento da incidência e da gravidade dessa doença em paralelo com o desenvolvimento da civilização. Alguns autores sugerem que a sensibilização dependente de Ig-E, com posterior hiperreatividade e inflamação das vias aéreas, pode ocorrer durante a vida intra-útero e precocemente na infância, e é maior nas grandes cidades.
Por outro lado, o componente racial tem sido revogado como fator importante na asma. As freqüentes miscigenações já apontam para uma menor importância das raças como fatores de risco específicos nas doenças. Além disso, estudos mostram que determinadas "preferências raciais para doenças" alteram-se nos grupos raciais que migram para outras regiões. Por exemplo, imigrantes da Índia, país com baixa prevalência de asma, que vivem em países de alta prevalência da doença, como a Inglaterra ou a Austrália, passam a apresentar asma em taxas semelhantes às destes países.
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