Combinação inédita de fisioterapia e choques elétricos na medula conseguiu devolver parcialmente a capacidade de andar ao carpinteiro americano Ken Paulson, 43, tetraplégico há três anos e meio. Ele já consegue se deslocar mais de 150 metros com baixo esforço, sem ajuda.
A terapia, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual do Arizona, pode ser uma promessa na reabilitação de pacientes com lesão na medula espinhal – pelo menos 8 mil no Brasil apenas no ano 2000, segundo o Ministério da Saúde.
Os responsáveis pela façanha, os pesquisadores Richard Herman e Jiping He, afirmam que não se trata de milagre. O que eles fizeram foi modificar e unir duas técnicas já conhecidas de estimulação dos movimentos.
Uma delas consiste em treinamentos de andar coordenado numa esteira, usando um sistema que suspende parcialmente o paciente e, assim, diminui o peso sobre os membros. A outra, em implantar eletrodos na medula abaixo da lesão e carregá-la eletricamente.
"Isso [a estimulação elétrica] já vinha sendo usado para controlar dor. Mas nós instalamos os eletrodos na medula e mudamos a frequência dos pulsos", disse Herman à Folha, por telefone.
Segundo o médico, o objetivo da pesquisa era determinar se pacientes com lesão medular, que dependem de cadeira de rodas, podiam ter andar funcional.
Paulson, que sofreu lesão parcial entre a 5ª e a 6ª vértebra do pescoço devido a um acidente de carro, manteve alguma sensibilidade nos membros, mas nenhum de seus músculos tem força suficiente para sustentá-lo.
Após um ano de fisioterapia somada ao implante de eletrodos ele já pode deixar a cadeira de rodas e realizar várias tarefas pontuais. "Ele pode fazer o que quiser: ir ao banheiro, à cozinha, sair de casa e entrar no carro, ir a um shopping center ou a um restaurante", disse o médico americano.
O sucesso obtido com o carpinteiro está fazendo o grupo de Herman e He pensar em estender a terapia a pacientes com lesões mais severas. "O segundo indivíduo no qual fizemos o implante é virtualmente paralisado", afirmou.
Artigo descrevendo o tratamento e a recuperação de Paulson foi publicado na edição de fevereiro da revista médica "Spinal Cord" (www.nature.com/sc).
Antes de receber os eletrodos, Paulson já estava sendo submetido a sessões de caminhada na esteira. A fisioterapia, iniciada em janeiro de 2000, melhorou a coordenação motora em caminhadas curtas fora da esteira (de até 15 metros), mas o paciente levava 2,5 minutos para realizar o trajeto.
Depois de treinado na esteira, Paulson foi operado para a implantação de um par de eletrodos, que são acionados por ele mesmo por meio de um controle remoto ligado a um receptor implantado no abdome -antes de andar, ele aperta um botão e "carrega" a própria medula.
Segundo os pesquisadores, os impulsos elétricos deram a Paulson uma sensação de "leveza". Ele passou a caminhar sem o sistema de suspensão parcial e a cobrir distâncias de até 270 metros. O tempo gasto para percorrer os 15 metros do exercício inicial caiu para menos de um minuto um ano após o início do tratamento.
Apesar da independência adquirida, Paulson não largará a cadeira de rodas. Segundo Herman, o tratamento, ainda em fase experimental, deve estar comercializável em dois anos. n (FSP).