5.Tratamento
De tudo o que foi dito se pode concluir que a DIETA SEM GLÚTEN é a base do tratamento: Só excluindo totalmente esta substância da alimentação é possível impedir o aparecimento das lesões intestinais nos indivíduos susceptíveis e não há qualquer outra solução ou medicamento com o mesmo efeito. Como o glúten se encontra no TRIGO, CENTEIO, CEVADA e AVEIA, a dieta para ser eficaz não poderá conter nenhum destes 4 cereais ou seus derivados.
Mas atenção: a resposta do intestino é geralmente rápida e por isso não se deve fazer qualquer restrição alimentar ANTES DA CONFIRMAÇÃO DO DIAGNÓSTICO PELA BIÓPSIA. Com esta regra evitam-se confusões difíceis de resolver e grandes prejuízos para os doentes.
Nos casos mais graves (com desnutrição evidente) é possível que existam carências de várias ordens pelo que pode ser necessário administrar suplementos vitamínicos ou ferro nos primeiros tempos de tratamento. Contudo, isto só deve ser feito se o médico o achar necessário.
Depois da retirada do glúten é freqüente verificar-se o aparecimento de um apetite voraz, o que é um bom sinal e entusiasma os pais da criança celíaca. Deve manter-se porém uma certa prudência pois a ingestão excessiva de alimentos em geral não é bem tolerada por um intestino incompletamente recuperado, além de que poderá conduzir a um aumento de peso exagerado. Não parece lógico que à subnutrição deixemos suceder um estado de obesidade!
Quando a dieta é cumprida a criança poderá levar UMA VIDA INTEIRAMENTE NORMAL: os celíacos podem (e devem!) crescer e desenvolver-se como os outros, não devendo por isso ser impedidos de praticar ginástica, atletismo, natação ou quaisquer outros exercícios físicos adequados à sua idade.
Há sobretudo que evitar olhar para eles como uns "doentinhos": tal como certas pessoas não podem comer mariscos, carne de porco ou outras coisas, estas crianças não toleram o glúten pelo que precisam apenas de uma alimentação sem os 4 cereais já conhecidos.
Temos de reconhecer porém que esta dieta nem sempre é fácil, até porque estes alimentos fazem parte do dia-a-dia de todas as famílias. Por outro lado, embora existam no mercado muitos produtos sem glúten, eles são habitualmente caros e a sua distribuição pelo país é bastante irregular.
Isto não quer dizer que não se possa fazer uma dieta sem glúten perfeitamente equilibrada e apetitosa: basta encarar o problema de frente e introduzir algumas adaptações nos nossos cozinhados.
Acima de tudo há que contar com a compreensão de TODOS OS MEMBROS DA FAMÍLIA já que a sua colaboração É INDISPENSÁVEL para o cumprimento integral da dieta e para a educação do doente.
Há quem proponha mesmo que para simplificar o trabalho de casa, todos passem a fazer o mesmo tipo de alimentação. Não há qualquer inconveniente nesta solução a qual pode ajudar a diminuir uma eventual "diferença" na atitude perante diferentes irmãos.
Para além das ementas de todos os dias haverá também que imaginar soluções práticas para problemas concretos como a alimentação na escola, as festas de anos, as viagens, os restaurante, etc.
E se apesar de todos os cuidados acabar por surgir uma falha isolada, ela não deve ser motivo de preocupação exagerada mas servir sobretudo para reflexão e para evitar futuras repetições.
Algumas crianças (principalmente os mais jovens) respondem intensamente à ingestão de pequenas quantidades de glúten o que serve de "aviso" para o "infrator". Em muitos casos, infelizmente, à medida que o tempo passa, os sintomas relacionados com as falhas na dieta vão-se tornando cada vez mais discretos e às vezes quase que desaparecem (pelo menos por algum tempo).
Isto não quer dizer que o doente ESTEJA CURADO como erradamente algumas pessoas pensam por vezes: se as falhas se mantiverem iremos encontrar mais tarde ou mais cedo sintomas que vão confirmar esse fato. É fácil de compreender que enquanto as queixas não forem muito importantes é por vezes difícil convencer o celíaco a manter a dieta. Estes problemas são particularmente agudos na adolescência onde a "contestação" é mais fácil e os sintomas mais raros. Será útil então uma conversa franca com o médico assistente...e uma boa dose de paciência!
Hoje admite-se que a doença celíaca possa favorecer o aparecimento de tumores no tubo digestivo, principalmente nos casos em que a dieta não é cumprida. Embora esta associação não se possa afirmar com uma segurança absoluta, parece lógico admitir que um intestino que é "agredido" de forma continuada por uma substância nociva (neste caso o glúten) possa a certa altura "perder o controlo" e originar um tumor.
Deve concluir-se pois que após confirmado o diagnóstico de doença celíaca, a dieta DEVE MANTER-SE DEFINITIVAMENTE.
Como já se disse, isto não é razão para que a alimentação não seja agradável e equilibrada como a que fazemos habitualmente. É bom lembrar que há regiões do mundo onde, por tradição, os cereais com glúten não são utilizados e não consta que estas populações sejam menos felizes por isso!