1. Quando se fala em doença celíaca (DC) poucas pessoas sabem o que isso é! Será que é uma doença nova?
Não. Tudo leva a crer que já era conhecida há pelo menos 1800 anos! Se agora se fala mais dela é porque existem meios seguros para se fazer o seu diagnóstico e também porque se conhecem melhor as suas causas e implicações.
2. O diagnóstico de DC não pode ser feito sem biópsia?
Infelizmente não. Há outras doenças que se podem confundir com ela e só a biópsia permite distinguir umas coisas das outras.
3. Mas para que servem então as análises que os médicos pedem nestas situações?
Na DC não tratada as funções do intestino podem estar muito alteradas. As análises que se fazem habitualmente permitem detectar estas alterações e as suas conseqüências.
4. Existem celíacos em todo o mundo?
Sim, embora em maior quantidade numas regiões que noutras. Esta distribuição irregular pode ter a ver com fatores raciais mas também com os hábitos alimentares já que há povos que não utilizam habitualmente os cereais com glúten na sua alimentação.
5. É verdade que existem "famílias de celíacos"?
Os fatores genéticos que condicionam a ocorrência da doença levam a que cerca de 15% dos familiares diretos de um celíaco possam ser também doentes. Isto quer dizer que numa família podem existir vários casos embora por vezes com sintomas de intensidade diferente.
6. Pode então dizer-se que a DC é uma doença hereditária?
Os fatores genéticos já referidos criam apenas uma "predisposição", um "bom ambiente", para o aparecimento da doença. A sua expressão plena depende contudo de outros fatores como infecções, alimentação, etc.
7. Então a DC pode ser provocada por um micróbio?
Alguns trabalhos mostram que um vírus (Adenovirus tipo 12) infecta com freqüência exagerada os doentes celíacos. Isto pode querer dizer que esse vírus tenha um papel mais ou menos importante no desencadear da doença mas o assunto não está ainda completamente esclarecido.
8. Um celíaco pode esperar ter uma vida igual à das outras pessoas?
Claro que sim...desde que cumpra a dieta! há campeões de ginástica e atletismo, cientistas, operários, diplomatas que fazem uma vida perfeitamente normal e que só se distinguem porque não utilizam o glúten na sua alimentação.
9. E no que toca à sua vida sexual, há alguma limitação?
Também aqui não há qualquer motivo para receios: desde que a dieta seja cumprida o celíaco pode ter uma vida sexual idêntica à de qualquer outra pessoa.
Quando a restrição de glúten não é respeitada estão descritos quadros de baixa fertilidade, impotência, irregularidade nos períodos menstruais, etc.
10. O malte aparece muitas vezes mencionado na composição dos produtos comerciais. Estes produtos podem comer-se?
O malte e o extrato de malte são substâncias obtidas a partir da cevada que é germinada em água. O MALTE CONTÉM GLÚTEN e tem pois riscos potenciais para o intestino do celíaco. o extrato de malte já é um produto que contém apenas produtos solúveis em água. Ora, como o glúten é insolúvel na água, O extrato DE MALTE NÃO CONTÉM GLÚTEN.
11. Então as bebidas alcoólicas, a cerveja e o whisky?
o vinho, vinhos generosos, licores, Porto e cidras são fabricados inteiramente com produtos que não contêm glúten. O whisky é produzido a partir do malte. Técnicas de análise recentes revelam que poderá conter pequenas quantidades de glúten pelo que deve evitar-se. A cerveja é obtida a partir da cevada, mas no processo de fabrico estes produtos são degradados em substâncias inofensivas para os celíacos. Alguns vestígios de glúten que possam ainda restar são removidos na fase de clarificação. No entanto, em alguns países, existem cervejas de fabrico "caseiro" que são um pouco turvas. Essas cervejas não devem ser consumidas.
12. A dextrina-maltose é outra substância que aparece muitas vezes mencionada. Também faz mal?
Ao contrário do que o nome parece sugerir, esta substância pode ser utilizada sem riscos na alimentação do celíaco.
13. Com tantas coisas nas prateleiras dos supermercados, como é possível distinguir o que é bom do que é mau para um celíaco?
Por lei todos os produtos embalados devem indicar a sua composição. Há que lê-la com atenção para ver se há alguma referência ás substâncias que contêm glúten (trigo, centeio, cevada, aveia, malte).
Tudo seria mais fácil se os produtos sem glúten fossem assinalados com um emblema próprio; infelizmente isso só acontece com alguns.
14. Nessa composição há por vezes palavras que deixam dúvidas. Como fazer então?
A regra de ouro do celíaco é: em caso de dúvida não consumir até conseguir o esclarecimento adequado.
Mas pode dizer-se que os conservantes e os emulsionantes não têm geralmente qualquer risco enquanto que o amido ou os espessantes podem referir-se a substâncias com glúten e que não devem portanto ser utilizadas.
15. Pode portanto ter-se confiança total nestas "composições" impressas nas embalagens?
Em princípio sim. Há que lembrar contudo que elas não são feitas a pensar nos celíacos pelo que é de admitir que possam existir por vezes pequenas quantidades de glúten sem que isso seja mencionado.
16. A composição de uma determinada marca de produtos não é sempre a mesma?
Não e sofre por vezes alterações significativas sem que isso implique a sua modificação. Por isso o celíaco se deve habituar a consultar a composição dos produtos para ter a certeza de que tudo continua em ordem.
17. As partículas distribuídas na Comunhão são feitas com farinha de trigo. Isto significa que um celíaco não pode comungar?
Uma vez que não é autorizada a fabricação de partículas com outro tipo de farinha, o celíaco não deve de fato receber a Comunhão sob a espécie de pão. A igreja Católica autoriza contudo que estes doentes comunguem sob a espécie de vinho, bastando para isso expor o problema ao sacerdote que distribui a Comunhão.
18. Não haverá um modo de evitar o aparecimento da DC?
Uma vez que não se conhecem completamente as causas da doença, é difícil imaginar um processo para evitar o seu aparecimento. Com esta finalidade, contudo, a ESPGAN propôs que a introdução do glúten na alimentação da criança só se faça depois dos 6 meses.
A eficácia desta medida está por demonstrar.
19. O aparecimento da DC tem alguma coisa a ver com os problemas de gravidez e do parto?
Não. Algumas mães têm por vezes a tentação de se "acusarem" por terem feito isto ou aquilo (fumar, beber, manter atividades físicas violentas, etc.) durante a gravidez.
Não há qualquer razão para esses receios pois não há relação com a doença celíaca.
20. E a alimentação ao peito não tem nenhuma influência no aparecimento da doença?
Tudo parece indicar que a amamentação pode ser um "fator projetor" embora não funcione com uma segurança absoluta.