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Psiquiatria e Psicologia

Depressão e diabetes: relação de causa ou efeito?

04/07/2011
Diabetes e depressão são duas condições de alto impacto na saúde

Por Naylora Troster
Médica Psiquiatra pela Associção Brasileira de Psiquiatria (ABP-TEP)


A associação frequente entre diabetes e depressão, inicialmente descrita para depressão maior, é objeto de estudo recente, que relaciona também as formas mais brandas de transtorno depressivo com a emergência da doença crônica

Diabetes e depressão são duas condições de alto impacto na saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o diabetes é a décima segunda causa de morte em todas as idades1, e a depressão unipolar é a primeira causa de incapacitação em ambos os sexos2. Projeções indicam que o diabetes mellitus (DM) aumentará sua participação mundial na perda de anos de vida por morte prematura e incapacitação, tornando-se a sétima causa de morte em 2030. No Brasil, o DM promove incapacitação ainda maior, em comparação a outros países, em razão da maior prevalência de complicações como retinopatia e neuropatia3.

Nas últimas décadas, foi constatada a associação frequente entre depressão e diabetes. Descrita, inicialmente, para depressão maior, a comorbidade foi também identificada recentemente,em suas formas mais brandas de transtorno depressivo, em populações de diferentes etnias4-8. Embora a associação pareça bidirecional, há mais evidências de que a depressão desencadeie diabetes do que o contrário9,10. De acordo com metanálise recente, a depressão está associada a um aumento de 60% no risco de diabetes tipo 2 (DM2), enquanto o risco de depressão relacionado a DM2 é modesto11.








A depressão clinicamente significante
está associada ao aumento de 65% no
risco de diabetes, enquanto quadros
depressivos podem desempenhar um
papel no desenvolvimento do DM,
predominantemente na população
idosa. Transtornos depressivos de
baixa gravidade, porém persistentes,
também se relacionam com a
emergência de novos casos de diabetes







Um estudo espanhol investigou o efeito de características da depressão encontrada na comunidade - classificada como depressão moderada, depressão persistente e depressão não tratada - sobre o risco de incidência do DM. O ensaio integrou o Projeto ZARADEMP, da Universidade de Zaragoza, sobre incidência, prevalência e fatores de risco para demência e depressão na população idosa. Uma grande amostra de adultos com idade ≥ 55 anos (N = 4.803) foi avaliada em três etapas (na linha de base e após 2,5 e 5 anos). Na linha de base, foram identificados 379 casos de depressão, que apresentaram, ao seguimento, risco mais elevado de incidência de DM, mesmo após o controle de potenciais interferências, incluindo fatores de risco para DM. A taxa estimada de DM atribuível à depressão foi de 6,87%. O aumento do risco de DM foi também associado a quadros depressivos de baixa gravidade, persistentes e não tratados. O tratamento com antidepressivos não foi associado a aumento do risco de DM. Os autores concluíram, neste estudo, que a depressão clinicamente significante está associada ao aumento de 65% no risco de DM e que características da depressão encontradas frequentemente na comunidade podem desempenhar um papel no desenvolvimento do DM, predominantemente na população idosa12.

Editorial do American Journal of Psychiatry, onde o estudo foi publicado, atribui sua relevância a três razões: a confirmação de uma estimativa do risco de DM atribuível à depressão da ordem de 7%, próximo do valor de 9% encontrado anteriormente por Mezuk e colaboradores11, indicando uma relação significante entre depressão e DM; a inesperada constatação de que síndromes depressivas de menor gravidade podem acarretar maior risco de DM, talvez porque sejam menos tratadas; e o fato de que o ensaio descreve características depressivas específicas que acarretam maior risco de DM. Os resultados indicam que o tratamento de todas as formas clinicamente significantes de depressão poderia impactar a incidência de diabetes em âmbito populacional9.

As causas da associação são ainda desconhecidas

A depressão poderia desencadear fatores de risco para diabetes, como obesidade, inatividade física e aumento de cortisol por estresse crônico9,13. Acredita-se que o acúmulo visceral de tecido adiposo ativa mecanismos imunes inatos, aumentando a secreção de mediadores inflamatórios, principalmente interleucina 6 (IL6) e fator de necrose tumoral alfa (TNF-alfa), que resultam em acúmulo de leucócitos no tecido adiposo. Tal reação desencadearia um estado inflamatório crônico,reconhecidamente associado a condições como doença cardiovascular, âncer e diabetes14.

Publicações recentes apontam, entretanto, a hiercortisolemia associada ao estresse crônico como a hipótese etiológica mais provável para explicar a relação entre depressão e diabetes, considerando resultados de estudos longitudinais, indicativos de que não apenas a depressão, mas também a ansiedade, os problemas de sono, a raiva e a hostilidade são associados ao desenvolvimento do DM215.

Alterações do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, com aumento do cortisol, têm importante efeito metabólico. Hipercortisolemia crônica pode causar resistência à insulina, o que pode explicar a associação entre depressão e DM2 e vice-versa.

Estresse crônico e hipercortisolemia têm sido implicados como fatores etiológicos da doença de Alzheimer (DA), pois resistência à insulina no cérebro está associada a acúmulo de substância beta-amiloide e hiperfosforilação da proteína-Tau. Sintomas depressivos frequentemente precedem a DA13. Em conclusão, a evidência disponível indica que transtornos depressivos, incluindo quadros de baixa gravidade, porém persistentes, estão significantemente relacionados à emergência de novos casos de diabetes. Dada a prevalência de ambas as condições e a eficácia dos tratamentos disponíveis, esse achado reforça a relevância para a saúde pública do diagnóstico adequado e do tratamento vigoroso da depressão.


Referências

1. The global burden of disease: 2004 update. Part      2. Causes of death. Disponível em: http://www.who.int/healthinfo/global_burden_disease/
GBD_report_2004update_part2.pdf. Acessado em 4 Set 2010.

2. The global burden of disease: 2004 update. Part 3. Disease incidence, prevalence and disability. Disponível em: http://www.who.int/healthinfo/global_burden_disease/GBD_report_2004update_part3.
pdf. Acessado em: 4 Set 2010.

3. Oliveira AF, Valente JG, Leite Ida C, et al. Global burden of disease attributable to diabetes mellitus in Brazil. Cad Saude Publica. 2009;25:1234-44.

4. Adriaanse MC, Bosmans JE. Diabetes prevalence, diabetes regimen and co-morbidity in depressed patients compared with non-depressed patients in primary care in the Netherlands. Diabet Med. 2010;27:718-22.

5. Pouwer F, Geelhoed-Duijvestijn PH, Tack CJ, et al. Prevalence of comorbid depression is high in outpatients with Type 1 or Type 2 diabetes mellitus. Results from three out-patient clinics in the Netherlands Diabet Med. 2010;27:217-24.

6. Yu R, Y-Hua L, Hong L. Depression in newly diagnosed type 2 diabetes. Int J Diabetes Dev Ctries. 2010;30:102-4.

7. Perveen S, Otho MS, Siddiqi MN, et al. Association of depression with newly diagnosed type 2 diabetes among adults aged between 25 to 60 years in Karachi, Pakistan. Diabetol Metab Syndr. 2010;2:17.

8. Disdier-Flores OM. Association of major depressionand diabetes in medically indigent Puerto Rican adults. P R Health Sci J. 2010;29:30-5.

9. Lyketsos CG. Depression and diabetes: more onwhat the relationship might be. Am J Psychiatry. 2010;167(5):496-7. Comment on: Am J Psychiatry. 2010;167(5):580-8.

10.Golden SH, Lazo M, Carnethon M, et al. Examininga bidirectional association between depressive symptoms and diabetes. JAMA. 2008;299(23):2751-9.

11.Mezuk B, Eaton WW, Albrecht S, et al. Depression and type 2 diabetes over the lifespan: a meta-analysis. Diabetes Care. 2008;31:2383-90.

12.Campayo A, de Jonge P, Roy JF, et al; ZARADEMP Project. Depressive disorder and incident diabetes mellitus: the effect of characteristics of depression. Am J Psychiatry. 2010;167:580-8. Epub 2010 Feb 1.

13.Peter R, Jasmin B, Gerd L, et al. Diabetes Type II: a risk for depression-Parkinson-Alzheimer? Neurotox Res. 2010 Jun 15 [Epub ahead of print].

14.Shelton RC, Miller AH. Eating ourselves to death (and despair): the contribution of adiposity and inflammation to depression. Prog Neurobiol. 2010;91(4):275-99. Epub 2010 Apr 22.

15.Pouwer F, Kupper N, Adriaanse MC. Does emotionalstress cause type 2 diabetes mellitus? A review from the European Depression in Diabetes (EDID) Research Consortium. Discov Med. 2010;9(45):12-8.




Fonte:

http://www.torrentonline.com.br/novoportal/tema/saudemental/?12044/depressao-e-diabetes-relacao-de-causa-ou-efeito

 

 


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