Vascular/Cirurgia Vascular/Circulação - Varizes- uma revisão
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Vascular/Cirurgia Vascular/Circulação

Varizes- uma revisão

24/10/2003
As varizes são veias superficiais anormais, dilatadas, cilíndricas ou saculares, tortuosas e alongadas, caracterizando uma alteração funcional da circulação venosa do organismo.

Como mostrado no conceito acima, não existem "varizes internas", pois as veias são superficiais. As veias profundas não podem ser consideradas varicosas, mas podem sofrer trombose. As varizes estão sempre situadas no tecido subcutâneo, ou no território intradérmico, e, portanto, são sempre visíveis e, na maioria das vezes, palpáveis.

É uma das doenças mais comuns da humanidade. No Brasil, ocorrem em 35% das pessoas acima de 15 anos. Este número aumenta com a idade. Estima-se que uma em cada cinco mulheres e um em cada 15 homens sejam portadores desta moléstia, que, além de deformidade estética, pode ser incapacitante com complicações e seqüelas graves. Estudos realizados em Israel e nos EUA mostram que 3% dos homens e 20% das mulheres têm varizes aos 30 anos de idade. Aos 70 anos, 70% dos indivíduos apresentam algum tipo de varicosidade.

A maior incidência no sexo feminino está bem estabelecida, variando de duas a cinco vezes a mais que no sexo masculino, de acordo com as estatísticas dos mais diferentes trabalhos.

A insuficiência venosa acarreta grave implicação socio-econômica, uma vez que é uma das enfermidades que mais provocam afastamento temporário da atividade profissional do indivíduo.

São classificadas em varizes essenciais ou primárias e varizes secundárias. As primárias, mais comuns, não têm um fator causal aparente, e as secundárias são assim denominadas por serem consequentes a uma fístula arteriovenosa (comunicação anormal congênita ou adquirida entre uma artéria e uma veia), ou a alteração no sistema venoso profundo, como malformação das veias ou válvulas, trombose venosa profunda ("entupimento" das veias profundas, que são responsáveis pela drenagem de 80% a 85% do sangue venoso nos membros inferiores, fazendo com que este retorno se dê através das veias superficiais, as safenas magnas e as safenas parvas) e síndrome pós-flebítica (complicação terrível da doença).

Assim como os problemas da coluna vertebral, as varizes também se enquadram no alto preço que o homem paga por ser um animal bípede.

No nosso organismo possuímos três tipos de circulação: a arterial, que leva o sangue do coração ao resto do corpo; a venosa, que é responsável pela drenagem do sangue das extremidades do corpo para o coração; e a linfática, cuja função é drenar o interstício.

De acordo com a Lei da Gravidade, e tomando-se como ponto zero o coração, podemos notar que o sangue venoso, nos membros inferiores (pés, pernas e coxas), "corre" contra a ação da gravidade e também contra a pressão do abdome; por isso precisa lançar mão de certos subsídios para impedir o refluxo sanguíneo, ou seja, que o sangue que já subiu não desça novamente.

Os mecanismos anti-refluxo são: o "bombeamento" do sangue pela musculatura da panturrilha ("batata da perna"); a estrutura da parede das veias superficiais nos membros inferiores, cuja espessura é normalmente resistente à dilatação; e a presença das válvulas (pequenas formações saculares dentro das veias), as quais não permitem o refluxo sanguíneo e direcionam o fluxo de baixo para cima.

Não existe nenhuma relação estabelecida entre a formação de varizes e depilação ou uso de salto alto, assim como não há influência com relação a carregar peso; todavia, subir escada pode ser considerado até um exercício físico, portanto, ajuda a incrementar o retorno venoso.

A ginástica, desde que recomendada pelo médico e acompanhada por professores de educação física, não só não provoca varizes como também é bastante aconselhável para evitá-las. Quanto à musculação, desde que não seja exagerada, não tem contra-indicação. No entanto, atletas podem ter varizes, caso possuam fatores de risco compatíveis. Os remadores, halterofilistas e fisiculturistas têm maior predisposição para ocorrência de tal enfermidade, pois nesses exercícios exige-se grande aumento da pressão intra-abdominal.

As condições que propiciam surgimento de varizes são todas as situações intrínsecas ou extrínsecas capazes de debilitar a parede venosa, aumentar a pressão dentro do vaso e/ou acometer a função das válvulas. Portanto, os principais fatores de risco são:

  • Raça - a população afro-asiática é notoriamente menos acometida pela doença varicosa;
  • Idade - influi na tonicidade dos tecidos;
  • Sexo - a maior freqüência entre as mulheres possivelmente se deve ao hormônio feminino;
  • Predisposição hereditária - um componente genético tem sido relacionado ao aparecimento das varizes, o que faria com que o indivíduo já nascesse com a tendência para tal;
  • Obesidade - também influência o tônus tecidual;
  • Hábitos alimentares - a dieta pobre em fibras levam à constipação intestinal (prisão de ventre) e, conseqüentemente, ao aumento da pressão abdominal;
  • Hábitos posturais - a permanência por mais de seis horas por dia na posição em pé ou sentado favorece o edema postural dos membros inferiores c a doença varicosa;
  • Gravidez — as varizes ocorrem não somente devido à elevação exacerbada das taxas dos hormônios femininos, mas também pela compressão da veia cava inferior pelo útero gravídico, dificultando o retorno venoso. O risco de varizes é maior em mulheres multíparas (aquelas que tiveram duas ou mais gestações);
  • Uso de anticoncepcionais;
  • Traumatismo
  • Moda - cintas abdominais apertadas podem aumentar a pressão intra-abdominal e dificultar o retorno venoso;
  • Trombose Venosa Profunda;
  • Tabagismo - favorece a formação de trombes no organismo. Este risco aumenta muito quando associado ao uso de anticoncepcionais;
  • Problemas ortopédicos, como pé plano;
  • Sedentarismo.

O paciente varicoso não necessita do médico para saber o nome de sua doença. O simples diagnóstico de varizes é de tal modo evidente que é feito pelo próprio paciente.

O paciente acometido por varizes procura o médico por três motivos principais: pelo sofrimento que causam, pela preocupação estética e pelo temor das complicações.

As principais queixas clínicas dos pacientes são: dor tipo "queimação" ou "cansaço", sensação das pernas estarem pesadas ou ardendo, edema (inchaço) das pernas, principalmente ao redor do tornozelo, que, freqüentemente, melhoram com a elevação dos membros inferiores e agravam-se no fim do dia, quando se permanece por longo tempo em pé ou sentado, no calor, nos períodos próximo ou durante a menstruação e também durante a gravidez.

Os flebotônicos e linfocinéticos mais utilizados aumentam o tônus vascular, diminuem a permeabilidade capilar, reduzem o processo inflamatório, aliviam a dor e incrementam a atividade linfo-cinética.

Para o bom resultado do tratamento, medidas gerais devem ser consideradas, tais como: emagrecer, praticar exercícios físicos (preferencialmente a natação, a hidroginástica e as caminhadas), evitar o uso de anticoncepcionais, evitar ficar de pé parado por muito tempo, não usar cintas abdominais apertadas, ingerir dieta rica em fibras e corrigir problemas ortopédicos.

O tratamento específico das varizes depende, fundamentalmente, da sua natureza (primárias ou secundárias) e difere de acordo com o calibre (grossura) da veia a ser tratada. Aqueles cordões varicosos, salientes e visíveis, que elevam a pele são de tratamento cirúrgico, enquanto as microvarizes (pequenas veias de trajeto tortuoso ou retilíneo, de aproximadamente 1 mm a 2 mm de largura, que não causam saliência na pele, são de tratamento microcirúrgico. Já as telangiectasias ou aranhas vasculares, que são finos vasos encontrados com mais freqüência na região externa ou interna das coxas devem ser tratadas pela escleroterapia (injeção de solução alcoólica ou hipertônica dentro destes vasos, que irrita suas paredes fazendo com que se contraiam e desapareçam).

Nos casos em que há a concomitância de veias calibrosas com telangiectasias, a cirurgia deve ser realizada em primeiro lugar. Geralmente, após um mês da operação dá-se o início do tratamento escleroterápico das veias residuais, que em muitos casos são pequenos trajetos que foram interrompidos. Isto se deve ao fato de que, após este intervalo de tempo, já ocorreu a reabsorção das equimoses (extravasamento de sangue no tecido subcutâneo alterando sua coloração).

Há ainda a possibilidade do uso do laser, que pode ser indicado isolado ou associado à escleroterapia; é indicado particularmente nas telangiectasias de coloração avermelhada ou nas chamadas "manchas vinhosas".

Naqueles pacientes que não querem ou não podem fazer nenhum dos tipos de tratamento citados, pode ser empregado o tratamento clínico com medicamentos, elevação dos membros inferiores e, fundamentalmente o uso de meia elástica.

As injeções de substâncias escleroterápicas costumam ser bem toleráveis, embora o conceito de dor seja algo bastante subjetivo e variável.

É importante ressaltar que este não é um tipo de tratamento inócuo e, portanto, deve ser feito por um angiologista ou cirurgião vascular. O paciente deve precaver-se diante de tratamentos "milagrosos" veiculados na mídia.

O tratamento cirúrgico é complexo. Quando as veias forem bastante grossas, há a necessidade de se abrir um pequeno corte para retirá-las. Isto também acontece quando é preciso retirar as veias safenas.

Nas veias não tão calibrosas, faz-se um pequeno furo (incisão de cerca de 1mm) com o bisturi e com a ajuda de uma agulha de crochet retira-se a variz. Para o tratamento das veias perfurantes (veias que comunicam o sistema venoso profundo com o superficial) insuficientes, que podem causar grande edema, eczema, lipodermatoesclerose e úlcera também usamos a cirurgia, que dá bons resultados, de um modo geral. Recentemente foi desenvolvida técnica cirúrgica videoendoscópica, que tem se mostrado bastante promissora no tratamento de ulcerações gigantes e de longa data.

As veias que são retiradas, por estarem doentes, não colaboram para a circulação; ao contrário, sua retirada causa melhoria na drenagem venosa dos membros inferiores, aliviando sintomas, melhorando a estética e prevenindo as complicações da evolução da doença, que clinicamente se expressa por: acentuação dos trajetos varicosos; hiperpigmentação cutânea (manchas ocres) ocasionada pelo extravasamento de sangue no tecido subcutâneo, eczema varicoso provocado pela presença de hemoglobina livre no tecido subcutâneo, que causa processo inflamatório crônico (vermelhidão) e exsudativo (transpira secreção), flebite superficial (veias varicosas inflamadas contendo coágulos dentro delas); que podem levar a hipercromia (tingimento) das varizes e/ou formação de um "cordão endurecido" no local; prurido (coceira); erisipela (infecção da pele); lipodermatoesclerose (pele e tecido subcutâneo endurecidos e espessados); e hemorragia, que geralmente é de grande volume de sangue, devido à hipertensão venosa da variz que rompeu, mas que é de fácil controle com a compressão digital (dedo da mão) local e a elevação dos membros inferiores; úlcera varicosa ou de estase (ferida geralmente localizada na porção interna dos tornozelos em regiões já alteradas pela hiperpigmentação e eczema).

Atualmente, há um cuidado bastante grande a fim de se preservarem as veias safenas magnas, pois podem ser necessárias como "pontes" no coração, no tratamento da angina do peito e do infarto do miocárdio, ou "pontes" nos membros inferiores, salvando-os de gangrena e amputação. Entretanto, as veias safenas muito dilatadas e/ou a presença de refluxo autorizam sua retirada para tratamento da doença varicosa, mesmo porque, neste caso, são imprestáveis como "ponte".

As veias retiradas cirurgicamente ou esclerosadas não voltam, porém outras veias varicosas poderão surgir no futuro, uma vez que a medicina não conhece a causa exata da doença e só é capaz de tratar aquela circunstância da enfermidade, além de ajudar na prevenção.

Quando o procedimento é realizado por cirurgião vascular, as complicações têm muito baixa incidência, lembrando-se que o risco existe em qualquer ato cirúrgico, podendo ocorrer:

  • Infecção => extremamente rara;
  • Lesão nervosa => quando acontece traz distúrbio da sensibilidade, podendo provocar áreas de parestesia (dormência) ou de hiperestesia (área muito sensível à dor) na região anterior do 1/3 inferior da perna, geralmente transitórios;
  • Linforréia => extravasamento de linfa (líquido incolor do vaso linfático) por uma cicatriz;
  • Linfocele ==> extravasamento de linfa no subcutâneo;
  • Edema persistente;
  • Quelóide ==> mais comum em indivíduos de pele escura;
  • Cicatriz hipertrófica ==> cicatriz exacerbada num grau menos intenso que o quelóide;
  • Sangramento;
  • Hematoma;
  • Tromboflebite superficial.

Obs.: Todas estas complicações são devidas à constituição do indivíduo, e não da técnica.
Indivíduos que apresentam grande quantidade de varicosidades freqüentemente necessitam de mais de uma operação para completar seu tratamento. Normalmente, um dia de internação é suficiente. Dependendo da quantidade de veias varicosas que precisem ser retiradas, pode ser feita operação com anestesia local, com ou sem sedação, ou anestesia peridural. Não há impedimento para realização da operação durante o período menstrual.

Dicas úteis para evitar varizes:

  • Evitar ganhos exacerbados de peso. EMAGREÇA!!!
  • Dieta rica em fibras para evitar a constipação intestinal.
  • Procurar não permanecer muito tempo parado em pé ou sentado.
  • Não usar cintas abdominais apertadas.
  • Realizar caminhadas e/ou exercícios físicos com supervisão médica.
  • NÃO FUMAR!!!
  • Utilizar sistematicamente meias elásticas, principalmente durante a gravidez.
  • Evitar hormônios anticoncepcionais.
  • Consulte regularmente seu angiologista/cirurgião vascular!

SBACV-RJ - Sociedade Brasileira de Cirurgia Vascular


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