A família, responsável primária pela transmissão de crenças e condutas relativas à saúde, deve participar do tratamento do
adolescente que abusa de drogas, visto que a construção de vínculos saudáveis entre pais e filhos ajuda a combater comportamentos anti-sociais. Se as atitudes dos pais em relação aos filhos estão baseadas na cordialidade e na vigilância, então os adolescentes se inserem em um sistema de reciprocidade que os ajuda a resolver conflitos sem consumir drogas. Por outro lado, pais autocráticos ou permissivos têm dificuldade de transmitir aos filhos normas sociais saudáveis, o que pode aumentar a probabilidade de desvios na conduta dos adolescentes.
Essa é a conclusão de um estudo realizado pelas pesquisadoras Miriam Schenker - do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Atenção ao Uso de Drogas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da pós-graduação em saúde da criança e da mulher do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) - e Cecília Minayo - do Centro Latino-Americano de Estudos da Violência (Claves/Fiocruz). Os resultados do trabalho foram publicados na última edição da revista Ciência & Saúde Coletiva.
"Neste trabalho, parte-se do entendimento da adolescência como um período do ciclo vital em que a curiosidade por experiências novas e a troca e a influência do grupo de amigos são fundamentais. O uso das drogas aqui se inclui como fonte de socialização e como uma linguagem do adolescer e, quando acontece de forma abusiva, constitui-se num problema que pode repercutir em todo o processo posterior de vida do jovem", diz o artigo. O abuso das drogas pode acarretar problemas físicos, psicológicos e financeiros, perda do emprego e ruptura familiar, além de aumentar os índices de acidentes e violências.
Miriam e Cecília fizeram uma revisão bibliográfica sobre a relação entre adolescência, família e transtornos no uso de substâncias. Na análise do material coletado, elas adotaram a teoria sistêmica, segundo a qual "o sintoma do uso indevido ou abusivo da droga irrompe quando o contexto familiar e sociocultural oferecem condições de possibilidades para o seu surgimento e desenvolvimento".
De acordo com essa teoria, portanto, para tratar um adolescente que se tornou dependente de substâncias, são necessárias mudanças no sistema familiar.
Trabalhos analisados por Miriam e Cecília mostram que problemas de auto-estima, depressão, estresse, família pouco coesa e amigos que usam drogas estão associados aos distúrbios no consumo de psicoativos pelos adolescentes.
"Vínculos e ajustes saudáveis com a família e com a escola previnem a associação do jovem com as ditas 'más companhias' na adolescência", diz o artigo das duas pesquisadoras.
Na adolescência, os filhos começam a buscar sua independência e, nessa busca, questionam os valores dos pais e passam a valorizar mais os amigos. O problema é que nem sempre os adultos estão preparados para lidar com essa situação. "O conflito intenso entre pais e adolescentes, além de não ser a norma, dificulta o desenvolvimento da identidade desse ser em formação. A transição positiva para a adolescência se faz através da negociação de mudanças nas relações entre pais e filhos, em busca da autonomia. Quando isto não acontece, o adolescente poderá se distanciar dos pais de forma hostil para conseguir manter o controle sobre sua independência", afirma o artigo.
Por isso, "um dos principais objetivos das intervenções baseadas na família com adolescentes envolvidos com uso abusivo de drogas deve ser o da reconstrução do vínculo emocional dos pais em relação ao jovem, de forma a atender às necessidades de ambos", também diz o artigo. Trabalhos analisados por Miriam e Cecília mostram que o adolescente adere ao tratamento contra as drogas principalmente quando os pais reconhecem os problemas e acreditam que o filho pode superá-los através do empenho na escola.
Fernanda Marques
Fiocruz