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Sabões e detergentes-descrição

06/11/2003

 

O sabão é conhecido há mais de 2.500 anos. Os fenícios se banhavam fazendo uso de uma pasta obtida fervendo banha de cabra com cinzas de madeira. Os antigos romanos apreciavam muito os diferentes e perfumados tipos de sabões em suas termas, mas com a queda do império ninguém mais ouviu falar de tal produto. O sabão só veio reaparecer no século IX na cidade de Savona, Itália (eis aí a origem de seu nome), mas apenas pelos nobres. A difusão em larga escala do sabão só veio a ocorrer cerca de dez séculos depois; onde o químico alemão Justus von Liebig declarou que o grau de civilização era diretamente proporcional à quantidade de sabão consumida.

Mas, afinal, por que o sabão limpa? De que ele é feito? Normalmente usamos os sabões para remover partículas oleosas que estavam suspensas no ar e se agarram às superfícies. Como a água é um solvente covalente polar não consegue dissolver os óleos e/ou gorduras, que são compostos covalentes apolares. Hã? O que isso quer dizer? Simples: Coloque um pouco de óleo em água e veja. O óleo não se mistura com a água; então, precisamos de um emulsificante (alguma substância que sirva como diluente) que faça o dito óleo se dissolver. Ao se dissolver, a mistura pode ir esgoto abaixo. Como se consegue isso? Muito fácil, basta eu ter uma substância que tenha uma parte que seja covalente polar (ou que tenha afinidade com a água) e outra que seja covalente apolar (que tenha afinidade com os óleos e gorduras).

Os óleos são ácidos graxos com uma cadeia carbônica grande. Se eu utilizar um outro ácido graxo, como o esteárico - C17H35COOH - e neutralizar o hidrogênio ionizável (o da extremidade ~OH) com uma base como o hidróxido de sódio (NaOH) eu vou obter o estearato de sódio - C17H35COONa - O radical ~ONa será hidrófilo (possui afinidade com a água) enquanto que o restante da molécula será hidrófobo (possui afinidade com o óleo). O que acontecerá é fácil de prever: a cadeia carbônica ficará voltada para a gordura enquanto que a extremidade do sal (sim, pois este estearato é um sal sódico do ácido esteárico) ficará voltada para fora e será envolvida pela água, perfazendo a emulsão.

Bom, da mesma forma podemos ter o seguinte raciocínio: Se eu utilizar uma base forte, eu poderei saponificar a substância oleosa e a transformarei em sabão. Muito lógico! Às vezes este método é utilizado, mas nem sempre é conveniente por causa de danos à saúde que possa vir a causar. Você gostaria de se banhar em soda cáustica para tirar o cascão? De qualquer forma, os sabões possuem um pH acima de 7 (pH básico), mas não muito, que o auxilia ainda mais na remoção das partículas oleosas.

Contudo, nem tudo é perfeito. Se o sabão entrar em contato com uma água que contenha sais de cálcio e/ou magnésio, o sabão se depositará no fundo com resíduo insolúvel de estearato de cálcio (ou de magnésio). Para sanar esta eficiência foram criados os “detergentes sintéticos”. São compostos de propriedades semelhantes aos sais de ácidos graxos, com a diferença de que estes são obtidos pela neutralização de derivados do benzeno. Estes derivados são obtidos pela reação do benzeno com ácido sulfúrico, depois recebem um radical de cadeia longa. Assim, obtemos o famoso ácido dodecil-benzeno sulfônico; cujo sal sódico é visto na figura abaixo:

Dodecil-benzeno sulfonato de sódio

A vantagem dos detergentes sintéticos reside no fato de que os sais de cálcio e magnésio não têm efeito sobre ele. Os detergentes sintéticos também são melhores que os sabões comuns, pois estes últimos não são atacados pelas bactérias; assim, elas não conseguem “quebrá-los” em porções menores. Desse modo, podemos dizer que os sabões não são biodegradáveis e acabam contribuindo para com a poluição da águas. Os detergentes sintéticos têm várias aplicações; desde o nosso bom e velho detergente de louça até detergentes empregados em indústrias, passando pelo nosso sabão em pó etc.

Agora vamos à parte curiosa do negócio. Na nossa caixinha de sabão em pó, somente cerca de 5% constitui o sabão propriamente dito. A ele é juntado um corante (claro! Uma corzinha é sempre agradável à visão), perfume, branqueador óptico entre outras coisas. Aliás, este “branqueador óptico” é algo muito engenhoso. Trata-se apenas de uma substância que tem a propriedade de absorver a luz ultra-violeta, realçando a coloração branca (que é a soma de todas as cores do espectro). Falando português claro: este composto não contribui em nada na limpeza, apenas disfarça a sujeira; e assim se consegue o branco mais branco.

Uma das coisas mais notáveis do sabão é a espuma. Dá pra fazer muitas brincadeiras com ela. A espuma nada mais é do que a emulsão de ar no sabão e nada tem a ver com a limpeza. Ter maior ou menor grau de espuma não é indicativo de poder de limpeza. As donas-de-casa não sabendo disso acabam iludidas. Por isso, as indústrias adicionam um composto chamado lauril-éter sulfato de sódio, que tem a finalidade de aumentar a produção de espuma. E mais uma vez o consumidor é passado para trás.

No detergente líquido (aquele que se usa para lavar louça), é adicionado ainda um composto chamado comercialmente de amida de côco. Sua função? Ora, deixar o líquido mais viscoso (também dito “grossinho”); dando a impressão de um produto “mais concentrado”. Tudo conversa fiada. Mas, agora vocês já sabem, e espero que sejam mais críticos ao que verem e ouvirem nas propagandas. Ah, e não deixem de usar uma boa esponja, pois o atrito é muito útil na limpeza, pois não existe material de limpeza milagroso que faça a sujeira desaparecer de uma hora para outra.

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Publicado por: Dra. Shirley de Campos
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