" 'De perto, talvez ninguém seja normal’;
por outro lado, de perto, de muito perto, talvez o diabo não seja tão feio quanto se pinta.
O difícil é olhar de perto; afinal a exclusão esconde o insuportável”.
(Tarcísio Matos de Andrade - "A pessoa do usuário de drogas intravenosas")
Para que possamos identificar um usuário de drogas é necessário termos muito claro a definição de droga e usuário. Esclarecidos estes pontos, podemos dizer que identificar um usuário é tarefa muito simples. Quem toma um cafezinho, bebe uma cervejinha, fuma um cigarrinho e toma um remedinho (por conta própria ou por indicação médica), é usuário de droga.
Para muitos isso pode parecer um tanto quanto estranho, afinal o termo droga é sempre associado à maconha, à cocaína e a outras drogas ilícitas, enquanto que o termo usuário é associado única e exclusivamente ao dependente. Porém, ao fazermos isto, perdemos de vista a globalidade, extensão e profundidade do assunto.
Alguns podem argumentar que as substâncias ilícitas são mais perigosas, mais prejudiciais do que as lícitas. Entretanto, tudo é muito relativo.
O que é pior: uma pessoa que cheira cocaína de vez em quando, ou aquela que não vive sem o álcool?
Se analisarmos as duas situações acima a partir da substância, já saberemos a resposta. Se tomarmos como referência o tipo de relação que o usuário mantém com a droga, a análise já se configurará diferente. Se imaginarmos um uso constante, em quantidades relativamente altas, enfocando diferentes dimensões (prejuízos orgânicos causados pelo uso crônico, síndrome de abstinência, incapacitação social e riscos de overdose), comparadas entre as diversas substâncias, a posição relativa das drogas, modificar-se-á drasticamente. A este respeito, Masur e Carlini no livro "Drogas: subsídios para uma discussão", fazem uma visão comparativa dos prejuízos causados a curto e em longo prazo, por cinco substâncias sobre as quais existe mais discussão: cigarro, álcool, maconha, cocaína e heroína.
Bem, o que estamos querendo dizer com tudo isso? Que antes de identificarmos um usuário, ou a droga que ele possa estar usando, seria fundamental entendermos o ser humano: como ele pensa, o que sente, o que deseja, o que o preocupa... Sem julgamentos precipitados, sem preconceitos, sem medo. Tarefa fácil? Não. Pois como disse Andrade: "O difícil é olhar de perto...”. Missão impossível? Também, não. Precisamos ter apenas a consciência de que ao olhar para o outro, estaremos olhando para nós mesmos, para aquilo que mais intimamente, dentro de nós, procuramos evitar um contato.
É interessante como as pessoas acreditam que ao conhecer as drogas (ilícitas) e seus efeitos, saberão lidar com uma situação onde haja um possível uso.
A lista de sinais de uso de drogas, como normalmente encontramos em alguns folhetos, livros e páginas da Internet, parecem valiosas à primeira vista para descobrirmos se alguém é usuário. Mas, na realidade, isso serve apenas de pretexto para que os pais vasculhem os pertences dos filhos e, veladamente, invadam sua privacidade.
A maioria dos itens que constam nas referidas listas compõem mais um manual bem elaborado para que os adultos possam tornar-se detetives ou espiões do que orientá-los, minimamente, a lidar com a situação em si, caso ela exista. Servem como um paliativo para diminuir a angústia que se tem pelo desconhecido. E os desconhecidos não são as drogas ilícitas - embora despertem umas certas curiosidades, permeadas por uma sensação de mistério decorrente do mito que se criou em torno delas - nem muito menos as lícitas, já que são aceitas socialmente e têm seu uso estimulado cotidianamente.
O desconhecido é o ser humano, com sua enorme complexidade. Somos nós mesmos. Assustamo-nos com nossas próprias reações, com nossos limites e com o limite dos outros.
Ao invés de procurarmos identificar um usuário de drogas, seria muito mais interessante e producente se tentássemos melhorar nossas relações com as pessoas. Isto não garantirá que algum membro da família, parente ou amigo não venha a ter alguma experiência com drogas (lícitas e/ou ilícitas). Dar-nos-á, porém, a garantia mínima de um espaço aberto para a comunicação o que, em muito, será útil para o entendimento e encaminhamento mais adequados de situações de uso de quaisquer drogas que, por ventura, possam ocorrer.
Uma primeira experiência com droga ilícita não deve ser tratada com pânico nem desespero. Um uso constante seja qual for a substância, não deve ser ignorado nem banalizado, tal qual habitualmente se faz quando se trata do uso de drogas lícitas.
De outro lado, várias podem ser as causas que justifiquem um olho vermelho, uma boca seca, uma blusa de manga comprida no calor entre outros tantos sinais e marcas elencados para reforçar nossa capacidade de rotular, estigmatizar e discriminar aqueles que, à primeira vista, nos parecem diferentes.
O uso de drogas pode ser um sinal, um sintoma de problemas individuais, familiares e/ou sociais. Em níveis distintos, pode ser uma das respostas, às vezes a única, para esses problemas; uma tentativa de resolvê-los ou, simplesmente, uma experiência que faça parte das descobertas e do crescimento do ser humano.
Qualquer usuário de drogas é, antes de tudo, um ser humano e, como tal, deve ser sempre identificado e respeitado.