
Grupo de pesquisadores rejeita
alertas, menospreza riscos e
afirma que iniciará em novembro
uma experiência com 200 mulheres
para produzir o primeiro clone humano

Daniel Hessel Teich e Ana Santa Cruz
Começou a contagem regressiva para a mais ousada, arriscada e polêmica experiência biológica de todos os tempos. Anuncia-se agora a produção por clonagem de um ser humano em laboratório. Na semana passada, o médico italiano Severino Antinori e seus associados afirmaram durante uma reunião na Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, em Washington, que a primeira clonagem humana tem início em novembro. Duas centenas de voluntárias já contratadas terão implantados no útero embriões produzidos artificialmente por um método que só há poucos anos vem sendo tentado em animais, com resultados estatisticamente desencorajadores. Mesmo assim, o italiano vai tentar produzir a cópia idêntica de uma pessoa a partir de uma célula comum retirada da pele. Depois do anúncio, a França e a Alemanha pediram à ONU que inicie imediatamente um diálogo mundial para banir a clonagem de seres humanos. A Igreja também atacou, tachando as experiências de nazistas. Segundo o Vaticano, o médico italiano tenta reviver desumanas experiências de homogeneização da raça feitas pelos alemães durante a II Guerra Mundial.
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AP
 O médico italiano Severino Antinori na reunião com cientistas nos Estados Unidos, na semana passada: Galileu ou Hitler? |
"O Vaticano me comparou a Hitler, mas me considero um Galileu Galilei", reagiu Antinori. Por ironia, a clínica de Antinori, em Roma, é vizinha da Basílica de São Pedro. Em janeiro passado, quando o italiano Antinori e o americano Panayiotis Zavos, dono de uma clínica no Estado americano de Kentucky, anunciaram a intenção de clonar um ser humano, eles despertaram pouco mais que curiosidade da opinião pública e desprezo da comunidade científica. Desde a terça-feira passada, no entanto, quando deram a conhecer os detalhes práticos já avançados do extraordinário experimento, Antinori e Zavos produziram uma sensação diferente. Na comunidade científica e até entre governos, o anúncio da clonagem humana provocou inquietação.
"Gostemos ou não das credenciais de Antinori e Zavos, o fato é que eles queimaram a largada da corrida para a produção do primeiro clone humano. Vai ser difícil agora segurar o segundo pelotão de cientistas", disse James Watson, biólogo que ganhou o Prêmio Nobel, junto com Francis Crick, pela descoberta da forma da molécula da vida, o DNA, feito que deu impulso à pesquisa genética. Embora um tanto excêntrico, Watson ainda sabe fazer-se ouvir pelos colegas. Terminada a exposição, a dupla ítalo-americana foi bombardeada com questões técnicas dos cientistas. Eles contornaram os problemas mais polêmicos, como a certeza de que, para cada três bebês nascidos aparentemente sadios, a clonagem vai gerar quase duas centenas de fetos monstruosos destinados a morrer no ventre das voluntárias hospedeiras, cujas vidas também estarão em perigo. Diante de uma audiência incrédula, Zavos disse que conseguiu produzir uma bateria de exames capaz de atestar a saúde genética de um embrião clonado antes de implantá-lo no útero de uma mulher voluntária. "É um trabalho importantíssimo para a humanidade, e nós o faremos", disse Antinori. "Há centenas de pacientes dispostos a aceitar o risco em nome de um filho que não podem ter de nenhuma outra forma", argumentou Zavos.
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Kushner Seth
 O antiquário americano Randolfe Wicker preside uma fundação para pessoas interessadas em ser clonadas. Ele decidiu deixar 350 000 dólares de herança para o bebê que venha a ser criado a partir de suas células |
A decisão da dupla chegou a um ponto de não-retorno. Para driblar as improváveis barreiras legais que possam enfrentar para fazer a experiência na Itália, os doutores da clonagem receberam o convite de meia dúzia de governos em diversas partes do mundo dispostos a financiar a aventura. "Em último caso, faremos num transatlântico em alto-mar", disse Antinori no tom de bravata típico que nada ajuda em sua busca de credibilidade.
Os detalhes científicos do processo foram ofuscados na semana passada pela sensação bem mais forte de que, funcionando ou não, a clonagem de um ser humano parece inevitável. "Não há como negar que muitos cientistas renomados estavam esperando alguém tomar a decisão de fazer a experiência. Uma vez obtidos os primeiros resultados e passada a gritaria inicial, a clonagem se tornará uma rotina", disse o biólogo Lee Silver. "Caso Antinori consiga clonar um ser humano, vai haver uma pressão insuportável de grupos dispostos a repetir a experiência", afirma o médico paulista Roger Abdelmassih, especialista em fertilização artificial. Entre os cientistas que foram assistir ao anúncio dos médicos da clonagem em Washington, as opiniões se dividiam de modo ainda mais contrastante. Alguns opositores consideram improvável que uma força externa possa impedir a dupla de fazer a experiência. O melhor, então, seria torcer para que dê tudo errado e que eles produzam monstros genéticos. Dessa forma, acreditam os opositores do experimento, a opinião pública ficaria assustada e isso adiaria a clonagem por décadas. E se der certo? A imagem de um bebê clonado perfeito, cor-de-rosa, choramingando no colo da mãe mudaria o mundo científico para sempre. Tanto quanto ocorreu no nascimento há 23 anos do primeiro bebê de proveta, a inglesinha Louise Brown. Quando Louise veio ao mundo, as técnicas rudimentares de concepção in vitro davam certo em apenas 5% dos casos. Hoje beiram os 50%.
Com base nas experiências semelhantes com vacas, cabritos e macacos, a clonagem humana tem 1,5% de chance de produzir um bebê vivo. E sadio? Bem, quanto a isso as certezas são menores. O processo de clonagem é quase uma loteria. Zavos e Antinori terão de obter cerca de 2.000 óvulos para tentar engravidar as 200 mulheres que se apresentaram como voluntárias para gestá-los. Desse grupo, acredita-se que apenas trinta não perderão os bebês logo nos primeiros meses de gestação. As demais vão abortar naturalmente ou precisarão ter a gravidez interrompida para evitar que fetos defeituosos coloquem em risco suas vidas. Das trinta que conseguirem manter a gravidez, apenas oito concluirão os nove meses de gestação e darão à luz seus bebês. Ao nascer, cinco dos bebês poderão apresentar problemas tão graves de saúde que deverão morrer ou ser submetidos à eutanásia logo depois do parto. Apenas três serão sadios, a ponto de passarem no berçário por bebês concebidos normalmente. "É inevitável ter problemas agora. Tanto quanto é inevitável que esses problemas tendam a diminuir com o crescente domínio da técnica", diz Antinori. Na semana passada, dava-se como certo que o presidente americano George W. Bush se manteria fiel às promessas de campanha e vetaria verbas federais para as pesquisas com embriões humanos. Quando Bush anunciou sua decisão, surpreendente, de favorecer certos tipos de pesquisa com células de embriões, os analistas atribuíram a mudança de opinião do presidente à pressão dos cientistas americanos. "É imaturidade acreditar que os Estados Unidos vão deixar outros países liderarem a pesquisa genética com embriões humanos", disse Harry Griffin, diretor do Instituto Roslin, onde em 1996 foi clonada pioneiramente a ovelha Dolly, que nasceu sem pai e é uma cópia perfeita de um animal adulto. Numa primeira abordagem do tema, há duas semanas, o Congresso americano votou contra a clonagem humana em território americano. A decisão de Bush, porém, abre caminho para que a técnica seja estudada e aprimorada sem que se produza efetivamente um bebê. Bush anunciou que vai financiar pesquisas em que cientistas utilizem embriões que foram feitos pelos métodos atuais de fertilização artificial e não puderam ou não precisaram ser implantados nas mães. As células desses embriões serão usadas em pesquisas que tentam desenvolver métodos de tratamento mais eficazes para doenças genéticas como mal de Parkinson e Alzheimer, ou metabólicas, como o diabetes juvenil. Uma outra linha de pesquisa experimenta usar essas células embrionárias para tratar lesões vertebrais provocadas por acidentes.
Na tentativa de clonar o primeiro ser humano, os médicos Antinori e Zavos usarão um método praticamente idêntico ao que criou a ovelha Dolly. Os pesquisadores vão começar a trabalhar com os óvulos cedidos por doadoras. A primeira etapa consiste em arrancar seu núcleo genético natural – produzindo-se assim o equivalente a um ovo sem gema, apenas com a clara e a casca. Em seguida, os cientistas vão coletar células de adultos que querem se clonar. O núcleo genético das células humanas carrega todas as instruções necessárias para produzir a cópia fiel de um ser humano. No laboratório, uma pequena descarga elétrica faz o núcleo da célula da pessoa a ser clonada se fundir com a célula oca. Quando o procedimento dá certo, imediatamente a célula construída artificialmente começa a se reproduzir e gera um pré-embrião, chamado blastocisto. Esse pré-embrião é, então, transferido para o útero de uma das voluntárias onde vai passar pelo processo de gestação. Teoricamente, os bebês que Antinori e Davos conseguirem produzir serão gêmeos univitelinos dos doadores do núcleo celular.
Teoricamente, reafirme-se. O processo é ainda tão incipiente que há quase certeza de que mesmo os bebês nascidos vivos podem trazer ao mundo falhas genéticas de nascença como as que, aos poucos, vão se descobrindo em Dolly. A ovelha clonada pelo Instituto Roslin nasceu há cinco anos, mas suas células são equivalentes às de uma ovelha mais velha – um animal com 12 anos, exatamente a idade da ovelha cujo DNA foi utilizado na experiência. Por essa razão, não está descartada a possibilidade de que os clones humanos sejam bebês precocemente envelhecidos, que sofram de doenças degenerativas, como a catarata ou o reumatismo e mesmo certos tipos de câncer, ainda na primeira infância. Alguns bezerros e ovelhas clonados nasceram aleijadamente grandes, com peso 60% superior ao de um filhote normal. Como o espaço no útero é menor que o necessário, podem nascer mancos ou com pernas deformadas. Às vezes é a cabeça que cresce demais, e os animais morrem rapidamente. Mesmo os filhotes que nascem perfeitos podem apresentar problemas mais tarde. É comum bezerros clonados morrerem de paralisia renal menos de 48 horas depois de nascerem. A eutanásia é o único caminho para aliviar o sofrimento desses filhotes.
A ciência claramente não está pronta para testar a técnica da clonagem em seres humanos. "Há 25 anos eu achava que as limitações para conseguir clonar uma pessoa eram mera questão de método e tecnologia. Hoje tenho certeza de que há uma séria limitação biológica", diz o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais. Um dos principais argumentos dos pesquisadores que decidiram levar adiante a clonagem é o desenvolvimento de exames capazes de prever anormalidades em um embrião no estágio inicial de formação. Isso contornaria os riscos de se produzirem bebês monstro. Pouca gente acredita na existência desses testes. "A única maneira de chegar à perfeição na clonagem é pela prática, pela repetição, por tentativa e erro. Nas experiências com animais isso é perfeitamente aceitável. Mas com seres humanos é antiético agora e será pelas próximas décadas", disse Alan Colman, diretor da PPL Therapeutics, empresa líder na criação de animais geneticamente modificados para produzir remédios.
A questão ética não vai ceder tão cedo. Perto da clonagem, as discussões morais sobre aborto ou eutanásia tornam-se problemas menores. Do ponto de vista da Igreja, o debate tem muito pouco a ver com as dificuldades científicas do processo de clonagem. Ele é uma variante de um dogma que remonta a Santo Agostinho, no século V, segundo o qual a vida humana começa no momento da concepção. Em tese, os religiosos estariam contra o processo de clonagem por ele produzir embriões condenados a morrer, mas não seriam necessariamente contrários ao processo em si, desde que haja garantias de sucesso na operação. Isso em tese. Na prática, a Igreja Católica repele, com mais veemência que o judaísmo e as denominações protestantes, todas as formas de manipulação genética em seres humanos. "Clonagem de qualquer tipo é antiética e o embrião que é descartado, mesmo que seja antes de completar duas semanas, é vítima de assassinato", diz o bispo dom João Bosco de Faria, designado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para participar da redação do Código de Ética de Manipulação Genética que os religiosos esperam ver adotado no Brasil.
O mais provável é que a ética religiosa não conte muito para os cientistas da estirpe de Antinori e Zavos. Nem para a legião de outros grupos que começam a admitir estar trabalhando na produção de um clone humano. Um desses grupos é um certo Clonaid, clínica de pesquisa com sede nas Bahamas e que tem ligação com uma seita exótica, os raelianos. O Clonaid é formado por cerca de 20 000 pessoas que acreditam na clonagem como o objetivo transcendente da raça humana. Dirigido pela pesquisadora francesa Brigitte Boisselier, o Clonaid está cobrando 200.000 dólares de potenciais candidatos à clonagem. Vista como uma aventureira pelo próprio Antinori, Brigitte sugeriu durante a reunião em Washington que seu grupo já se está preparando para a primeira operação completa de clonagem. Seu grupo quer clonar um bebê de 10 meses que morreu durante uma cirurgia malsucedida no ano passado. Algumas células retiradas na operação e congeladas antes da morte darão aos cientistas o material genético necessário para o experimento. Entre as mulheres arregimentadas para a tarefa de receber um clone no útero está a própria filha de Brigitte, de 22 anos.
Candidatos a fazer cópias de si mesmos não faltam. O americano Randolfe Wicker, de 63 anos, presidente do Human Cloning Foundation, é o mais ardente deles. "A maioria das pessoas quer ter filhos. A essa altura da vida prefiro ter um irmão gêmeo", disse ele a VEJA. "A clonagem não é a chave para a eternidade e sei que meu clone será uma pessoa diferente de mim. Se eu estiver vivo para criá-lo, vou tê-lo como filho. Seu nome será Randolfe Wicker Junior", esclarece o ativista. Motivações como a de Wicker mostram que a clonagem começa a ser encarada como um procedimento útil. "Antes, as pessoas falavam erradamente que a clonagem poderia produzir cópias de Hitler ou de Saddam Hussein", diz Brigitte. "Agora se fala em clonar um filho morto ainda bebê ou fazer a cópia de um filho com leucemia para que o irmão gêmeo resultante possa ser doador da medula que vai salvar-lhe a vida." Seja qual for a razão, depois do anúncio da semana passada ficou claro que a corrida rumo ao impensável, a cópia artificial de um ser humano, está muito mais adiantada do que se imaginava.
Revista Veja
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