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1. Introdução
O eczema, também designado dermite ou dermatite, é uma reação inflamatória da pele, de evolução aguda, subaguda ou crônica, que resulta da atuação de fatores de natureza endógena ou exógena, atuando isoladamente ou de forma combinada. As lesões são em geral muito pruriginosas e o processo inflamatório assume intensidade maior ou menor em conformidade com a agressividade do agente causal e da susceptibilidade individual.
A manifestação clínica inicial consiste na ruborização da pele que designamos de eritema. Se a reação persistir a inflamação pode acentuar-se, surgindo sucessivamente pequenas pápulas, vesículas de conteúdo líquido claro ou purulento que podem rebentar e exsudar ou, por confluência, dar ligar a bolhas de tamanhos variáveis. Com rebentamento das bolhas formam-se crostas e posteriormente a pele descama e finalmente cicatriza.
A dermatose pode não regredir e o processo inflamatório manter-se e evoluir para o espessamento da pele, com acentuação das linhas cutâneas, constituindo-se placas mal delimitadas, muitas vezes escoriadas. Nesta fase crônica, o eczema diz-se liquenificado.
A localização das lesões é muitas vezes sugestiva do tipo de eczema em causa, mas outras vezes é manifestamente insuficiente para a sua caracterização pelo que é necessário correlacionar os elementos da história clinica e da observação, com antecedentes patológicos pessoais e familiares e exames complementares de diagnóstico.
Existem diversos tipos de eczema, com características muito distintas, relativamente à sua forma de apresentação, distribuição e tendência evolutiva, cujas designações foram consagradas pelo o uso, pelo que, ora são chamadas de dermite, ora são rotulada de eczema. Assim se distinguem a dermite ou eczema atópico, a dermite ou eczema de contato, a dermite seborreica, o eczema numular, o eczema desidrótico, o líquen simples crônico, o eczema varicoso e a dermite asteatósica
*Eczema e dermite (ou dermatite) não são rigorosamente sinônimos, embora sejam usados genérica e correntemente como tal. Dermite significa "inflamação da pele" e, nesta perspectiva, em rigor eczema é um tipo particular de dermite.
2. Eczema atópico
Calcula-se que cerca de 10% das crianças sofram desta dermite. Trata-se de uma inflamação cutânea de evolução crónica, cujo mecanismo patogênico se desconhece, admitindo-se que resulte da interação de uma susceptibilidade genética, uma desregulação imunológica e uma disfunção da barreira epidémica.
Caracteriza-se por uma hipersensibilidade cutâneo-mucosa a estímulos diversos que os indivíduos normais suportam perfeitamente.
A afecção manifesta-se habitualmente nos primeiros meses e vida e mais raramente em adultos jovens.
Em cerca de 80% dos casos, no doente ou nos familiares às manifestações cutâneas associam-se asma e/ou rinite alérgica. A esta tendência familiar para se sofrer destas afecções denomina-se atopia.
Os atópicos têm a pele seca e áspera, em conseqüência de alguma incapacidade para reter a água na camada córnea da epiderme, mas também devido a uma insuficiente produção de sebo e suor.
Caracteristicamente sentem prurido quando transpiram, fato que, aliado à já referida secura cutânea e a uma típica diminuição do seu limiar de sensibilidade para o prurido os leva a coçar permanentemente o corpo, pelo que a pele é freqüentemente escoriada. Ainda como consequência deste facto, as crianças tornam-se impertinentes e têm perturbações do sono.
As características clínicas da afecção variam em função da idade dos doentes, particularmente no que diz respeito à morfologia e distribuição das lesões. Clinicamente podemos considerara três fases evolutivas mais ou menos distintas.
Quando a afecção se manifesta na fase de lactente, predomina na face, em especial nas regiões genianas e fonte, poupando tipicamente as regiões peri-oculares e peri-bucal. Posteriormente podem ser atingidos a couro cabeludo, as partes laterais externas das pernas e tronco. Em casos excepcionais e eczema pode generalizar a todo o corpo.
As lesões são avermelhadas e ásperas, mas podem progredir em pequenas pápulas e vesiculação, com exsudação, crosta e descamação. Em muitos casos segue-se infecção secundária.
A evolução é irregular, alternando períodos de agravamento e melhoria e a afecção pode regredir totalmente durante o segundo ano de vida ou prosseguir durante a infância, com características algo diferentes.
Na infância as lesões são mais secas e a pele afetada torna-se mais espessada, formando placas de eczema escoriado, localizadas preferentemente nas pregas corporais, em especial, nos cotovelos, joelhos e tornozelos. Por vezes associam-se áreas hipopigmentadas arredondadas, mal delimitadas, finamente descamativas, na face e membros superiores.
A afecção tende a regredir mais cedo ou mais tarde até ao inicio da adolescência, mas alguns doentes permanecem com lesões durante muito mais tempo ou volta a exibi-las na idade adulta.
Na vida adulta as lesões são mais disseminadas e afetam em geral a fronte, as pálpebras, o pescoço, as pregas dos cotovelos e joelhos, os pulsos e a parte dorsal das mãos e pés.
Embora como foi referido, a maioria destes dentes se tornem assintomáticos durante a infância. A susceptibilidade para a inflamação cutânea mantém-se em muitos deles, pelo que os atópicos contribuem para cerca de 80% das dermatoses profissionais na vida adulta.
O diagnóstico da dermite atópica nem sempre é evidente, pelo que existem vários critérios orientadores propostos por diversos grupos de trabalho. Assim, por exemplo, os critérios de diagnóstico de dermite atópica proposta pelo grupo de trabalho do Reino Unido em 1995 são os seguintes:
* História de atingimento das pregas dos cotovelos, joelhos e tornozelos e em redor do pescoço (incluindo as bochechas), em crianças com menos de 10 anos).
* Eczema visível das pregas cutâneas ou eczema das bochechas e/ou fronte e superfície de extensão dos membros em crianças com menos de quatro anos.
* Pele seca
* História pessoal de asma ou febre dos fenos ou história de atopia em parente de primeiro grau se a criança tiver menos de quatro anos.
* Início da sintomatologia abaixo dos 2 anos ( não usados se a criança tiver menos de quatro anos).
3. Eczema de contacto
Trata-se de um processo inflamatório pruriginoso, inicialmente limitado à zona de contato com o agente causal e que resulta de um efeito irritativo, alérgico ou fotosensibilizante.
O eczema de contato irritativo é extremamente comum e resulta da atuação de agentes irritantes da natureza química ou física sobre o revestimento cutâneo-mucoso. Os alcalizantes e os detergentes são as causas mais freqüente incriminadas e as lesões predominam sobre as mãos, como acontece nas donas de casa e em algumas dermatoses profissionais.
Se o eczema tem origem alérgica a expressão clínica resultante poderá ser evocadora, como acontece na eczematização dos lóbulos das orelhas por alergias aos objetos de adorno ou de fantasia, ou na face anterior do pulso, por alergia ao níquel contido na fivela do relógio. Noutros casso é necessária uma história clinica meticulosa e uma observação cuidadosa das lesões, assim como o recurso a testes epicutâneos para suspeita ou confirmação do diagnóstico. Nos eczemas de causa profissional é por vezes necessário inspecionar as condições de trabalho dos doentes a fim de colher elementos que poderão ser fundamentais para o diagnóstico.
O contato pode fazer-se por forma direta ou através de uma superfície contaminada. Em muitos casos, como acontece com os pólens, os perfumes e muitas substâncias voláteis, o contato pode efetuar-se por via aérea.
Se o agente causal é fotosensibilizante a reação, que poderá ser de natureza tóxica ou alérgica, só terá lugar em presença de luz.
A lista de substâncias fotosensibilizantes inclui algumas centenas de produtos de utilização comum, como vegetais, cosméticos, medicamentos de aplicação tópica e administrados por via oral.
O inquérito tem em vista à determinação da origem do eczema de contato, terá que ter em linha de conta as condições de trabalho do doente, os passatempos, a higiene pessoal, os cosméticos e perfumes utilizados pelo próprio e pelo conjuge, o tipo de contracepção utilizado, a atividade doméstica, os medicamentos usados ou simplesmente manipulados pelo doente a fim de os administrar a outrem, o vestuário, o calçado, o contato com animais e plantas, etc. O ritmo das crises ao longo do dia, da semana, ou do ano, a sua relação com a permanência em ambientes particulares como perfumarias, zonas arborizadas, etc., a influência do Sol e outros fatores ambientais, são igualmente de considerar.
A execução de testes epicutâneos é freqüentemente determinante na descoberta do fator causal.
A identificação e a remoção da substância em causa, infelizmente nem sempre possível , é essencial para a resolução do eczema. A protecção das mãos com luvas impermeáveis é muitas vezes suficiente em certas atividades mas não é bem tolerada quando usada durante muito tempo e dificulta a agilidade manual para trabalhos mais minuciosos.
4. Dermite seborreica
Não se trata verdadeiramente de um eczema do ponto de vista estrutural nem existe uma hiperprodução de gordura conforme a designação sugere. Trata-se portanto de uma nomenclatura que o uso consagrou mas é francamente inadequada.
É provável que a afecção resulte da atuação simultânea de diversos fatores sobre um terreno constitucionalmente favorável. Alguns autores insistem no papel determinante de uma levedura designada pityrosporum ovale, que habitualmente existe em maior quantidade nos folículos pilosos da pele seborreica. O fato de os antifúngicos derivados do imidazol serem habitualmente eficazes no tratamento da afecção e a ocorrência de formas intensas de dermite seborreica em imunodeprimidos suportam de algum modo esta teoria.
As dermatoses em localizações eletivas, onde existe maior concentração de glândulas sebáceas e sudoríparas, mas não existe ainda uma explicação convincente para esta eletividade.
No adulto, as lesões localizam-se preferentemente no couro cabeludo, porção superior da fronte, sobrancelhas, espaço inter-ciliar, regiões naso-faciais, pavilhões auriculares, região pre-esternal, região inter-escapular e púbis.
Existe uma forma infantil de de dermite seborreica que evolui apenas durante alguns meses e tem habitualmente distribuição bi-polar, afetando o couro cabeludo (crosta láctea) e a região das fraldas. As formas generalizadas são mais raras.
5. Eczema numular
Conforme o nome sugere, as lesões têm configuração arredondada ou ovalada. Localizam-se quase exclusivamente nos membros, são altamente pruriginosas, secas ou exudativas, de evolução arrastada, recorrentes e altamente resistentes à medicação.
Alguns casos corrigem com a eliminação de um foco séptico.
6. Eczema desidrótico
As lesões são vesiculosas e muito pruriginosas e localizam-se nas palmas, bordos laterais dos dedos das mãos e regiões plantares. São bilaterais e simétricas.
A evolução é crônica e recorrente.
Contrariamente ao que o nome sugere, não resulta de qualquer disfunção da sudação. Cerca de metade dos indivíduos afetados são atópicos, pelo que, em muitos casos poderá ser considerada manifestação de atopia. Contudo outras causas têm sido apontadas como relevantes, nomeadamente, focos infecciosos, produtos químicos diversos incluindo medicamentos, alimentos, inalantes e contatantes .
7. Líquen simples crónico
Também designado neurodermite é altamente pruriginoso e tipicamente limitado a uma ou poucas lesões, localizadas numa restrita área cutânea. Em conseqüência da violência do prurido, a pele é intensamente escoriada, pelo que se torna espessa e tem aspecto liquenificado. As lesões localizam-se preferentemente nos tornozelos, pulsos, cotovelos, joelhos e nuca.
8. Eczema varicoso
Também apelidado eczema ou dermite de estase ou eczema gravitacional, localiza-se na metade inferior das pernas, em "terreno" varicoso.
A insuficiência circulatória de retorno e a consequente hipertensão venosa, ocasionam prurido, edema maleolar, rotura dos pequenos vasos cutâneos superficiais e depósito de fibrina e elementos figurados do sangue (dermite ocre). A fibrose dérmica instala-se gradualmente. A hipóxia e a ulceração cutânea são a conseqüência natural de todas estas alterações.
O eczema varicoso é freqüentemente complicado com terapêuticas intempestivas que o doente vai aplicando por sua iniciativa ou a conselho de amigos, criando condições favoráveis à ocorrência de dermite de contato irritativa ou alérgica.
O tratamento passa naturalmente pela correção da insuficiência venosa.
9. Dermite asteatósica
Surge exclusivamente em idosos e afeta preferentemente as pernas e os braços, podendo contudo surgir noutras localizações.
A pele extremamente seca e fissurada com descamação lamelosa e solta.
A senescência cutânea, o mau estado geral dos doentes, em regra bastante debilitados, a desidratação intensa, agressões de natureza física (aquecedores) e até química (higiene inadequada), são os principais fatores desencadeantes da afecção.
A dermatose responde habitualmente à aplicação de emolientes. |