Administração em bolus potencializa o papel dos trombolíticos no IAM
Introdução
A terapia trombolítica é abordagem de rotina para a conduta em infarto agudo do miocárdio (IAM). A contínua modificação das terapias trombolíticas visa a fornecer agentes que sejam específicos para a fibrina, tenham meia-vida longa e não sejam imunogênicos, finalmente proporcionando trombólise mais eficaz e mais bem tolerada.
Conquanto nenhum agente ainda tenha a mistura ideal de características desejáveis, alguns dos agentes mais recentes podem ser dados por administração em bolo e têm potencialização da especificidade para a fibrina. A facilidade da administração em bolo oferece a possibilidade animadora de administração fora do ambiente hospitalar, obtendo reperfusão mais rápida e teoricamente proporcionando vantagens em relação à mortalidade. A potencialização da especificidade para a fibrina pode resultar em melhora do perfil de tolerabilidade.
Terapias adjuvantes mais recentes, em particular os inibidores da glicoproteína IIa/IIIb, oferecem uma via para obter melhora dos resultados clínicos com terapia trombolítica.
IAM como principal causa de morte
Nos países ocidentais, o IAM é a principal causa de morte. Nos EUA, aproximadamente 1,5 milhões de pessoas têm um IAM a cada ano. Deste, cerca de 30% morreram.1
Pelo menos metade de todos os óbitos ocorrem a 1 hora do início dos sintomas, antes que o paciente chegue ao hospital.1 Para assegurar um benefício ótimo, é necessária a pronta intervenção médica com tratamentos rapidamente eficazes.
Eficácia dos trombolíticos comprovada
Os objetivos principais do tratamento do IAM são reverter a isquemia do miocárdio, limitar o tamanho do infarto e reduzir a mortalidade e a morbidade.1 A reperfusão precoce das artérias coronárias ocluídas usando terapia trombolítica tornou-se rotina, sendo considerada a abordagem padrão ouro da terapia inicial do IAM.
A estreptoquinase, por infusão contínua, ainda é o trombolítico mais amplamente usado.2 No entanto, a infusão rápida de alteplase, associada a aspirina e heparina, é o padrão universalmente aceito para reperfusão coronariana farmacológica contra o qual são comparadas outras intervenções.3
A relativa facilidade de administração dos trombolíticos, comparada a outras opções, como intervenção coronariana percutânea, tornam os trombolíticos opção de primeira linha para o tratamento inicial de IAM em muitos centros.4
Indicação ampla
Tem-se questionado se os pacientes com diabetes mellitus, mulheres menstruando e aqueles que tenham sido ressuscitados por menos de 10 minutos devam ou não ser considerados para terapia de reperfusão farmacológica.2 No entanto, como não há aumento relatado de sangramento importante depois da administração de trombolíticos a estes grupos de pacientes, a maioria dos investigadores considera estes pacientes adequados para terapia trombolítica, independentemente do agente usado.
Idosos
Embora a idade avançada seja fator de risco significativo para mortalidade depois de IAM, o uso de trombolíticos nos pacientes com mais de 75 anos está longe de ser rotina.2 Isto se dá, em parte, porque complicações da terapia trombolítica (reoclusão, disfunção do ventrículo esquerdo e hemorragia intracerebral) são mais freqüentes nos idosos do que nos correlativos mais jovens.5 Não obstante, o benefício absoluto de 10 vidas salvas por 1000 pacientes idosos tratados é impressionante.6
Portanto, independentemente do trombolítico usado, deve-se pensar cuidadosamente no perfil de risco-benefício para o indivíduo idoso antes de se tomar qualquer decisão de tratamento.
Complicações
Hemorragia é o principal evento adverso em pacientes em terapia trombolítica.4 Propõe-se que a ativação sistêmica do plasminogênio em plasmina cause subseqüentemente depleção do plasminogênio e da fibrina circulantes, resultando em hemorragia periférica e/ou intracraniana.1
Teoricamente, os trombolítico específicos para a fibrina (os que também requerem a presença de fibrina para ativar o plasminogênio) não gerariam plasmina sistêmica e, desta forma, o risco de excesso de sangramento seria minimizado.1 A estreptoquinase não tem especificidade para a fibrina, enquanto a alteplase e os ativadores do plasminogênio tecidual de segunda geração têm especificidade para a fibrina em graus variáveis, sendo a tenecteplase a mais específica para a fibrina (v. tabela de características diferenciais).
A desmoteplase é o trombolítico mais específico para a fibrina e atualmente está sendo submetido a ensaios fase II.2 É cedo demais para estabelecer se a especificidade quase completa da desmoteplase para a fibrina reduz os eventos hemorrágicos.
AVC - Relacionado aos efeitos hemorrágicos, há um pequeno risco de AVC em pacientes que recebem trombolíticos. De acordo com as diretrizes dos EUA, à luz dos benefícios conferidos pelo tratamento, é aceitável uma taxa de hemorragia intracraniana abaixo de 1% depois de tratamento com terapia trombolítica.4 Qualquer redução de risco que possa ser atribuída aos agentes com especificidade para a fibrina será acompanhada com interesse.
Novos agentes encurtam o tempo de reperfusão
Para obter uma reperfusão ótima e mortalidade mais baixa, o tempo entre o início da dor e o início da terapia trombolítica deve ser inferior a 2 horas (Fig. 1).10 Na verdade, as diretrizes atuais nos EUA recomendam que todos os pacientes elegíveis recebam terapia trombolítica assim que possível depois do início dos sintomas, idealmente em 30 minutos.4
Figura. Redução da mortalidade é dependente da duração de tempo entre o início da dor e o início da terapia trombolítica.10
Muitos fatores contribuem para a demora entre o início da dor e a reperfusão eficaz. Estes incluem o tempo que o paciente leva para procurar ajuda profissional, tempo de transporte até o serviço médico mais próximo e apropriado, tempo para se confirmar o diagnóstico e tratar e tempo para a terapia trombolítica selecionada obter seu efeito completo. Economia de tempo de 50 a 60 minutos comprova sua validade em termos de benefício em relação à mortalidade.1
Muitos dos primeiros trombolíticos requerem administração por infusão. Espera-se que os agentes mais recentes e com meia-vida de eliminação prolongada sejam adequados para a administração em bolo (v. tabela sobre características diferenciais). Isto pode possibilitar não apenas a administração mais rápida, mas também permitir o tratamento antes da internação. Na verdade, o tratamento pré-hospitalar foi introduzido em vários países.11 A necessidade da reteplase de ser dada por 2 injeções intravenosas com intervalo de 30 minutos entre si pode limitar sua utilidade, coparada a agentes que possam ser dados em bolo único, tais como a tenecteplase.1
Possível readministração?
Os trombolíticos não muito imunogênicos podem ser readministrados, se necessário. A formação sustentada de anticorpos, indicativa de imunogenicidade, não tem sido relatada com a alteplase e seus derivados. Não obstante, as diretrizes atuais ainda recomendam que tais drogas sejam readministradas com cautela.1
Ao contrário, o protótipo dos trombolíticos, a estreptoquinase, é imunogênica, não sendo recomendada para readministração além de 4 dias depois da primeira administração. Como pode ser esperado, a desmoteplase, derivada da saliva do morcego vampiro, também parece ser imunogênica. Isto apresenta uma possível desvantagem para a desmoteplase.2
Relação com arritmias
A reperfusão causada pela trombólise pode causar arritmias.1 Dada a patogênese das arritmias de reperfusão, é improvável que a próxima geração de trombolíticos seja desprovida desta complicação. É importante, portanto, que a terapia antiarrítmica esteja disponível sempre que os agentes trombolíticos forem administrados. Isto pode limitar a administração de agentes trombolíticos fora de hospitais a ambientes específicos.
Adjuvantes na prevenção de reoclusão
A terapia trombolítica aumenta a ativação plaquetária e a geração de trombina.2 Isto cria uma tendência de reoclusão precoce do vaso revascularizado. As terapias adjuvantes tipicamente ampliam a capacidade da terapia trombolítica de ajudar a prevenir reoclusão precoce.
Heparinas - A heparina é adjuvante importante na terapia trombolítica com estreptoquinase e exibe efeitos sinérgicos com a alteplase, a reteplase, a uroquinase e a saruplase.2 Como cofator da antitrombina III, a heparina inibe a trombina, mas não pode ter acesso à trombina ligada no interior do trombo.2 Contrastando, as heparinas de baixo peso molecular o fazem.
No entanto, ainda não foi inteiramente estabelecido se esta vantagem teórica é clinicamente benéfica. Como adjuvante da estreptoquinase, a enoxaparina baixou a taxa de reinfartos sem aumentar os sangramentos. A dalteparina sódica causou melhora não-significativa da taxa de reinfartos, mas aumentou significativamente a ocorrência de hemorragia.2
Inibidores de GP IIa/IIIb - A aspirina é tradicionalmente usada como terapia adjuvante para inibir a ativação plaquetária. A aspirina, contudo, exerce sua ação através da via do tromboxano, sem efeito direto sobre qualquer outra via de ativação.2
Abciximab (0,25 mg/kg em bolo, seguido por uma infusão de 12 horas) inibe a agregação plaquetária induzida pelo fibrinogênio e pelo fator de von Willebrand por bloqueio de mais de 80% de todos os receptores de glicoproteína (GP) IIb/IIIa.12 Abciximab, como adjuvante da reteplase13 ou da alteplase em dose completa,14 melhorou as taxas de patência13,14 sem aumentar as complicações hemorrágicas.14
Abciximab e outros inibidores de GP IIa/IIIb podem comprovar um acréscimo excitatório à terapia trombolítica padrão.
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Aspectos Diferenciais |
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Comparação das características chaves doas agentes trombolíticos utilizados no controle inicial do infarto (1-3,7-9) |
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Características |
| Alteplase |
| Reteplase |
| Estreptoquinase |
| Tenecteptase |
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Especificidade da Fibrina |
++ |
+ |
O |
+++ |
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Imunogenicidade |
O |
O |
+++ |
O |
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Dose usual |
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Dose Total |
100 mg |
20 unidades |
1,5 MU |
30 - 50 mg (*) |
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Regime de administração |
Bolus + injeção |
Bolus em duas vezes(**) |
Infusão |
Bolus |
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Eficácia Clínica relativa ao alteplase |
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Mortalidade |
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Reperfusão |
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Efeitos adversos relativos ao alteplase |
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Acidentes vasculares |
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Sangramento secundário |
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Sangramento principal |
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Custo de aquisição |
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Em libras |
600,00 |
716,25 |
81,18 |
NA |
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Em dólares |
2.750,00 |
2.750,00 |
537,34 |
NA |
(*) Baseado no peso do paciente
(**) Doses divididas em duas, com 30 minutos entre elas
MU = milhões de unidade; NA = dado de custo não-disponível; O indica evidência de nenhum efeito; + a +++ indica especificidade da fibrina ou imunogenicidade relativa; indica nenhuma diferença comparada ao alteplase; indica tedência em direção à incidência aumentada de efeito adverso comparada ao alteplase; indica tendência em direção à incidência de efeito adverso reduzido comparado ao alteplase; indica redução estatísticamente significante na incidência do efeito adverso ou eficácia clínica reduzida comparada ao alteplase.
Fator econômico dos agentes mais recentes
A estreptoquinase tem custo de aquisição consideravelmente mais baixo do que a alteplase (v. tabela de aspectos diferenciais). Não obstante, relata-se que a alteplase seja mais eficaz para o custo que a estreptoquinase em termos de custo por ano de vida salvo.1 Ainda não foi avaliado o benefício econômico total dos agentes mais recentes, que podem ter um custo de aquisição mais alto do que o da alteplase. Tampouco se fez a avaliação farmacoeconômica do uso dos inibidores da GP IIa/IIIb em combinação com a trombólise farmacológica.
[Drug & Ther Perspect 17(9):9-12, 2001]
Referências
1. Am J Cardiovasc Drugs 2001; 1 (1): 51-66
2. Drugs Aging 2000; 16 (4): 301-12
3. Drugs 1995; 50: 102-36
4.American College of Cardiology/American Heart Association. ACC/AHA guidelines for the management of patients with acute myocardial infarction [online]. ACC/AHA; 1999. Available from: URL: http://www.acc.org/clinical/guidelines/nov96/1999/amipdf99.pdf
5. Am J Med 1992; 92: 7-13
6. Lancet 1994; 343: 311-22
7.2000 Drug Topics ® Red Book ® . Montvale (NJ): Medical Economics Company, Inc., 2000
8.British National Formulary. No. 40. London: The Pharmaceutical Press, 2000 Sep: 120-1
9. N Engl J Med 1997; 337: 1118-23
10. J Thromb Thrombolys 1994; 1: 27-34
11. Am Heart J 1999; 138 (Pt 2): 188-202
12. J Clin Invest 1997; 99: 1467-71
13. Circulation 1998 Oct 21; 98 Suppl.: 504
14. Circulation 1999; 99: 2720-32