Neurologia/Neurociências - Região cerebral envolvida na consciência de movimentos voluntários
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Neurologia/Neurociências

Região cerebral envolvida na consciência de movimentos voluntários

06/01/2004
Estudo aponta região cerebral envolvida na consciência de movimentos voluntários

Digamos que nos próximos segundos você sentirá uma vontade enorme de mover um dedo. Manda a lógica que primeiro você sentirá a vontade, depois seu cérebro dará a ordem apropriada ao dedo, e por fim ele se moverá, certo? Errado. O registro das ondas elétricas do cérebro mostra que a vontade de mover um dedo só se torna consciente até um segundo depois de o cérebro começar a tomar as providências para o movimento. Primeiro a ordem é lançada; depois você pensa em se mover.

Tamanha revelação foi feita originalmente pelo psicólogo americano Benjamin Libet, em 1983, com um método muito simples: ele registrou as ondas elétricas do cérebro (o EEG) de voluntários que ficavam sentados olhando para o ponteiro de um relógio, esperando bater aquela vontade de mexer o dedo indicador direito. Feito o movimento, os voluntários informavam Libet sobre a posição do ponteiro quando o primeiro desejo de movimento surgia na mente. Libet comparou esse momento com o início do movimento e o primeiro indício no EEG de que um movimento seria feito, e pronto: fez-se uma revolução na psicologia.

Se o comando para o movimento é lançado bem antes, o 'desejo' do movimento talvez seja a simples constatação pelo cérebro de que algo será feito. E se algo será feito pelo seu corpo, seguindo ordens do seu cérebro dadas quando você já havia se preparado 'psicologicamente' para fazer algo, nada mais natural que esse algo seja atribuído à sua vontade. Mas como atribuir uma ordem em andamento à sua vontade?

Pesquisadores europeus têm, pela primeira vez, uma resposta: a região parietal do córtex, situada mais ou menos no alto da cabeça, sobre as orelhas. No estudo publicado em dezembro na revista Nature Neuroscience, pesquisadores de três países usaram o mesmo método de Libet em pacientes que sofreram pequenas lesões cerebrais.

Quando a lesão era limitada ao cerebelo, estrutura do cérebro envolvida no controle temporal dos movimentos, os pacientes eram tão capazes de realizar a tarefa quanto qualquer pessoa normal: indicavam com precisão a posição do ponteiro quando o dedo finalmente se movia, e estimavam que o desejo de mover o dedo surgia uns dois décimos de segundo antes disso.

Pacientes com uma lesão limitada ao córtex parietal, no entanto, diziam sentir a vontade de mover o dedo somente quando o movimento já era iminente. Ou seja: toda a antecipação do 'desejo' em relação ao movimento era perdida.

Na opinião dos pesquisadores, o córtex parietal faz parte de um circuito maior de planejamento motor que envolve, é claro, regiões motoras, suas vizinhas, e o córtex frontal. O papel do córtex parietal no circuito seria gerar um modelo interno do movimento: uma antecipação de como deve ser executado o movimento. Faz sentido, aliás, que o modelo seja obra do córtex parietal, que contém, acredita-se, uma representação espacial do corpo como um todo.

Longe de ser um luxo do sistema, é esse modelo interno -- postulado, aliás, há décadas, mas só agora localizado no córtex parietal -- que permite saber se o movimento foi correto, ou seja, se aconteceu conforme planejado. Se a utilidade é que você saiba se o movimento foi correto, é de se esperar que o sistema faça com que você tome consciência de que vai fazer um movimento antes que ele aconteça de fato.

Agora, ainda lhe parece estranho que primeiro o cérebro dê a ordem, e só então você sinta a vontade de se mexer? É natural que pareça. Por trás da estranheza está a falácia da divisão entre cérebro e mente, presente tanto na linguagem comum quanto em assuntos do cérebro: se você quer mexer um dedo, o seu cérebro... Queira ou não, você é o seu cérebro, e se 'ele' dá uma ordem aos músculos, é porque você quis assim. Mesmo que só descubra depois...

Fontes:
Sirigu A, Daprati E, Ciancia S, Giraux P, Nighoghossian N, Posada A, Haggard P. Altered awareness of voluntary action after damage to the parietal cortex. Nature Neuroscience, dezembro de 2003.

Libet B, Gleason CA, Wright EW, Pearl DK. Time of conscious intention to act in relation to onset of cerebral activity (readiness potential). The unconscious initiation of a freely voluntary act. Brain 106, 623-642 (1983).

Suzana Herculano-Houzel
O Cérebro Nosso de Cada Dia
05/12/03


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