Estrogênios são substâncias que reproduzem o estro na mulher, nos roedores provocam a queratinização das células vaginais característica do estro e produzem o desenvolvimento e manutenção das características sexuais secundárias femininas (Cohen, 1973). Estro é o período durante o qual a fêmea dos mamíferos é fecundável, correspondendo a ovulação.
Fitoestrogênios são substâncias encontradas em plantas e que têm atividades biológicas semelhantes aos dos estrogênios. Todos os fitoestrogênios são compostos com similaridades estruturais com os estrogênios naturais e sintéticos (Chiechi, 1999).
Os principais estrogênios da mulher são:
1- O estradiol
2 - A estrona
3 - O estriol
Com potências diversas, são produzidos pelas células dos ovários, pela placenta na gravidez e ainda, pela aromatização dos androgênios nos tecidos periféricos.
O estradiol é o hormônio mais importante no ciclo reprodutivo da mulher e sua carência na mulher menopausada está associada a diversos problemas incluindo:
1 - Instabilidade vasomotora,
2 - Osteoporose,
3 - Doença cardiovascular e
4 - Possivelmente diminuição das funções cognitivas e físicas (Alzheimer - Gast, 1998).
As concentrações do estradiol são baixas nas pré-púberes e aumentam na menarca; na mulher varia de 100 pg/ml na fase folicular até 600 pg/ml na ovulação; após a menopausa caem para valores semelhantes ou menores que as de homens (Mendelsohn, 1999).
Existem três principais classes de fitoestrogênios:
1 – Isoflavonas (grãos de soja)
2 – Coumestanos (broto da soja)
3 - Lignanos (semente de linhaça)
Uma planta pode conter mais que uma classe de fitoestrogênio; por exemplo, o grão de soja é rico em isoflavona, enquanto seu broto é potente origem de coumestrol, o principal coumestano (Murkies e cols., 1998).
As isoflavonas estão presentes em grande quantidade na semente de soja, na ervilha verde, na lentilha, no feijão e seus derivados e em legumes (Grimbaum e cols., 2000).
Os lignanos ativos estrogenicamente, enterodiol e enterolactona; precursores dos lignanos estão presentes nas películas que recobrem os cereais; no processo de refinamento tais películas são removidas. Grãos oleosos como a linhaça contém as maiores concentrações de lignanos; no entanto, eles são encontrados também em farelos de cereais, cereais integrais, vegetais, legumes e frutas (Thompson, 1991).
Os coumestanos ocorrem predominantemente com a germinação, assim brotos de feijão, da soja e principalmente da alfafa são os vegetais com maiores quantidades de coumestanos ( Grimbaum e cols., 2000).
Nos seres humanos, após o consumo de vegetais com os precursores dos fitoestrogênios ocorrem conversões enzimáticas e metabólicas complexas no trato digestivo, resultando em fenóis heterocíclicos com grande similaridade com a estrutura dos estrogênios. Os fitoestrogênios absorvidos entram na circulação enterohepática e podem ser excretados na bile, desconjugados pela flora intestinal, reabsorvidos, reconjugados pelo fígado e excretados pela urina. Os lignanos e isoflavonas podem ser medidos na urina, plasma, fezes, semen, bile, saliva e leite (Murkies e cols., 1998).
POTÊNCIA E EFEITOS BIOLÓGICOS
A potência biológica dos fitoestrogênios é variável. Embora os fitoestrogênios exerçam menor efeito que o estradiol nos receptores estrogênicos, alguns fitoestrogênios são capazes de gerar respostas estrogênicas da mesma magnitude que as concentrações fisiológicas de estradiol, sem os efeitos mitogênicos na mama e endométrio (Clair, 1998).
FITOESTROGÊNIOS E CLIMATÉRIO
A utilização dos fitoestrogênios na prevenção e tratamento de doenças causadas pela deficiência de estrogênios tem sido tentada há alguns anos.
Menopausa – é o fim definitivo das menstruações e marca o fim da capacidade reprodutiva da mulher.
Climatério – é um período de transição que começa com irregularidade nos ciclos menstruais e com a perda progressiva da fertilidade. O climatério dura normalmente dos 40 aos 65 anos e a menopausa ocorre por volta dos 50 anos. Portanto, a menopausa ocorre dentro do climatério.
Sintomas climatéricos
As ondas de calor e a sudorese noturna são mais freqüentes entre as mulheres ocidentais que as orientais; os efeitos estrogênicos dos fitoestrogênios poderiam ser responsáveis por esta diferença.
Doença cardiovascular
A doença cardiovascular representa a principal causa de mortalidade entre mulheres (nos Países desenvolvidos / em desenvolvimento) acima dos 50 anos de idade e está claramente demonstrado que, após a menopausa , a redução signiicativa dos estrogênios é a causa da instalação da aterogênese (Aldrighi e cols., 1995), substrato anatômico da doença cardiovascular.
Os estrogênios são cardioprotetores atuando não somente no metabolismo lipoproteico como também modificando fatores da coagulação e de substâncias vasoativas, ao final fazendo vasodilatação e anticoagulação (Fonseca e cols., 1999).
Os fitoestrogênios nos vasos teriam ações semelhantes aos estrogênios naturais: melhorariam o perfil lipoproteico e teriam diversos efeitos favoráveis nos vasos.
Osteoporose
Os fatores que determinam perda de massa óssea na mulher são numerosos: dieta, antecedentes ginecológicos e obstétricos, envelhecimento etc., mas a diminuição de estrogênios reveste-se de máxima importância no climatério; por outro lado, a terapia de reposição estrogênica (TRE) pode diminuir esta perda óssea (Junqueira e cols., 1999). Os fitoestrogênios poderiam ser alternativa da TRE na prevenção da perda de massa óssea no climatério (Arjmandi 1996).
Câncer
A relação entre estrogênios e câncer de endométrio observada nos anos 70 chamaram atenção para a possível associação entre a terapia de reposição estrogênica e o câncer de mama (Pinotti e cols., 1994).
Os cânceres estrogênio-dependentes, principalmente os da mama e o do endométrio, são menos incidentes nas mulheres asiáticas; isto poderia estar relacionado a fatores nutricionais. O maior foco de atenção tem sido dado aos fitoestrogênios.
Os produtos da soja e alimentos com grãos integrais contém fitoestrogênios, que são capazes de se ligar aos receptores estrogênicos e assim atuar como substitutos naturais dos estrogênios endógenos (Gaby, 1996). No entanto, sabemos que a grande quantidade de fibras na dieta também ajuda a regular os níveis de estrogênios. O excesso de estrogênios pode ser reabsorvido se houver demora no trânsito intestinal. As fibras ligam-se ao estrogênio que é então excretado. Dieta rica em gordura proporciona o crescimento de bactérias que promovem a reabsorção do estrogênio pelo corpo; os vegetarianos são capazes de excretar três vezes mais estrogênios do que uma mulher se alimentando com a típica dieta rica em gorduras e baixa em fibras (Soffa, 1996). Portanto, a diminuição do número de cânceres hormônio-dependentes nos paises asiáticos poderia decorrer do tipo de dieta usada por suas populações.
UTILIZAÇÃO DOS FITOESTROGÊNIOS
Os fitoestrogênios podem ser consumidos como alimentos ou como suplementos alimentares. Podem ser empregados como fitoterápicos ou ainda como medicamento alopáticos.
Nutrição e suplementos nutricionais
Ao caminharmos por qualquer farmácia, mercearia ou loja de produtos de saúde nos confrontaremos com estantes de alimentos ditos saudáveis e suplementos nutricionais. Quarenta por cento dos consumidores americanos usam suplementos alimentares criando uma industria anual de 12 bilhões de dólares. Nem todos os médicos têm conhecimento suficiente sobre os suplementos nutricionais e muitos não tem tempo suficiente para providenciar o aconselhamento nutricional (Seibel, 1999).
Dentre os alimentos, a soja é a que mais tem sido promovida. Enquanto até 1982 nenhum estudo tinha sido realizado em seres humanos, mais de 1000 trabalhos foram publicados com as isoflavonas da soja somente entre 1994 e 1995 (Seibel, 1999).
A soja (Glycine maxima) é conhecida há milênios na Ásia onde seu uso tornou-se tão generalizado que constitui a base da alimentação do povo. Fermentada essa leguminosa produz diferentes molhos; prensada, dá um óleo que pode ser usado na cozinha; germinada é um vegetal fresco, rico em vitaminas; colhida na vagem, enquanto ainda verde, é um delicioso prato para a mesa; moída seca forma farinha, da qual pode se fazer pão (em mistura com amiláceos); moída úmida (depois de posta em molho) e coalhada (como leite), ela provê o famoso queijo de soja - um substituto da carne. O requeijão de soja é preparado de vários modos para produzir grande variedade de pratos. Devido ao elevado teor de ácido fítico encontrado na soja, esta leguminosa não deve ser consumida em excesso, pois poderia provocar descalcificação. O cálcio forma um complexo insolúvel, o fitato de cálcio, que prejudica seu aproveitamento (Pinotti e cols., 1994).
Fitoterapia
Os fitoterápicos não possuem os mesmos testes rigorosos dos medicamentos sintéticos porque eles não podem ser patenteados, e então comercializados sob um nome de marca. Sem incentivo financeiro, poucos cientistas podem ganhar a experiência necessária para conduzir estudos extensos. Como resultado, é quase impossível encontrar estudos científicos para a maioria das recomendações das ervas. No entanto, estes remédios resistiram ao teste do tempo e do ensinamento da tradição. As culturas indígenas e asiáticas passam seus conhecimentos através da tradição oral enquanto os neófitos conseguem os seus conhecimentos anotando tais ensinamentos.
As plantas medicinais podem ser usadas de vários modos: utiliza-se a própria planta ou ela é preparada para infusões ou tinturas.
A infusão é feita colocando-se a planta medicinal em chaleira de barro e despejando sobre ela água fervente. A tintura de planta medicinal é uma infusão com base alcoólica. Como algumas plantas medicinais dificilmente se prestam ao preparo de infusöes ou tinturas, säo preparadas em formas de comprimidos, triturando-se diminutamente a planta seca; os comprimidos de planta medicinal consiste, em geral, de uma composição de plantas diversas das quais uma é preponderante. Os comprimidos devem ser bem mastigados antes de ser engolidos (Huibers, 1983).
Diferentemente das drogas convencionais, os produtos de ervas não são regulamentados por pureza e potência. Assim, alguns efeitos adversos e interações medicamentosas reportados para produtos de ervas podem ser causados por impurezas ou por variabilidade na composição (Cupp, 1999). Desta forma, ao escolher um fitoterápico, deve-se observar se este laboratório farmacêutico tem bons antecedentes, se tem Farmacêutico assinando o produto (caixa, bula), e se o produto está liberado pela vigilância sanitária para venda.
Medicamentos alopáticos
O uso de plantas com o propósito de melhorar a saúde vem desde a antigüidade e forma a base da moderna medicina. Muitas drogas convencionais originaram-se de plantas, exemplos incluindo a aspirina, os digitálicos, o quinino e a morfina. O desenvolvimento de novas drogas originadas de plantas continua, com muitas companhias engajadas com a triagem farmacológica, em larga escala, de ervas (Vickers & Zollman, 1999).
CONCLUSÕES
Os fitoestrogênios são substâncias produzidas por plantas e que exibem atividade estrogênica, tanto no homem como na mulher. Eles podem ser consumidos como alimentos ou como medicamentos.
A utilização de fitoterápicos não é isenta de riscos e deve ser empregada apenas por profissional capacitado. O fitoterápico deverá ser submetido a rigoroso controle de qualidade, de quantidade e de pureza. Os conhecimentos atuais acerca dos fitoestrogênios ainda são incompletos, principalmente em relação aos efeitos neuroendócrinos e como estas substâncias vem sendo preconizadas como alternativas naturais à reposição hormonal no climatério e comercializadas nas formas de pós e pilulas altamente concentrados, é necessário que estudos mais aprofundados sejam realizados. A utilização dos fitoestrogênios deve ser feita de maneira judiciosa e após cuidadosa avaliação médica.
Acreditamos que uma dieta sadia e equilibrada, rica em vegetais, mas sem descartar os produtos animais, se possível sem manipulações industriais e contendo fitoestrogênios em quantidades adequadas, é a melhor forma de preservar a saúde e evitar as doenças causadas pela alimentação inadequada. (PROF. Dr. JOSÉ ARISTODEMO PINOTTI E COL.)
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